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NA IGREJINHA DE SÃO DAMIÃO
Frei José Ariovaldo da Silva, ofm
Certo dia, "já inteiramente mudado de
coração, e quase mudado de corpo",
como escreve Tomás de Celano, Francisco entra
numa igrejinha para rezar. Era a igreja de São
Damião, velha, abandonada, caindo aos pedaços.
Nesta igrejinha, ele se depara com um ícone,
representando o Cristo Crucificado. Em estilo siro-oriental,
este ícone tinha a virtude artística
de representar todo o mistério pascal de Cristo:
crucificação, ressurreição
e ascensão. Contemplando aquela imagem, Francisco
se sente profundamente tocado por ela.
Contempla-a boquiaberto, pois era o Cristo vivo, o
Senhor, vencedor e rei, com um olhar penetrante e
cheio de ternura, que de repente ele via ali representado.
Melhor, no Cristo Crucificado se lhe vislumbrava ali
toda a glória do Senhor pelo qual havia decidido
o rumo de sua vida. Logo ali, naquela igrejinha abandonada!
Francisco se sente transformado. De tal maneira mergulha
sua atenção no Cristo que, como narra
Tomás de Celano, "a imagem do Crucificado
mexeu os lábios e falou com ele". Chamando-o
pelo nome, disse-lhe: "Francisco, vai e repara
a minha casa que, como vês, está toda
destruída". Dizem os biógrafos
(Tomás de Celano e Boaventura) que, diante
desta "visão", deste "milagre
novo e inaudito", a alma de Francisco "se
derreteu". Sim, poderíamos dizer, derreteu-se
para se fundir cada vez mais com o mistério
do Senhor que se lhe revelava. Mas que mistério?
Que "segredo"?
O freqüente contato com os leprosos e o serviço
a eles já vinha possibilitando a Francisco
entender o "segredo", que Boaventura assim
explicita: "Cristo crucificado foi considerado
um homem leproso e desprezado". Como escreve
Eloi Leclerc: "Na medida em que vai se tomando
mais sensível à miséria dos homens,
(Francisco) faz uma estarrecedora descoberta: os traços
do Crucificado lhe revelam a humanidade de Deus, ou,
mais precisamente, a 'humanização' de
Deus. Durante horas seguidas contempla o Cristo da
cruz. Esse Deus nada tem a ver com o Deus do poder
senhorial da Igreja. Não é o Deus das
guerras feudais e das guerras santas. Não é
o Deus dos privilégios da nova ordem social,
o Deus dos ricos comerciantes. Nada tem a ver com
o dinheiro e o poder. Ele é o contrário
de tudo isto. Encontra-se no grau ínfimo da
aflição do mundo. Mergulhou na aflição.
Tomou as agruras humanas para si e estas corriam nele
como um rio. Os pequenos, os esmagados pela sociedade
de ontem e de hoje, podem facilmente reconhecer-se
nele. É seu irmão. 'Ele, sendo rico
acima de toda medida, preferiu todavia escolher, com
sua bem-aventurada mãe, a vida de pobreza'.
Ele, que partilhava a glória de Deus e que
estava acima de tudo, passou a existir com os pequeninos
e os humilhados, com os vencidos, os condenados e
crucificados de todos os tempos".
Assim, Francisco vai entendendo e, ao mesmo tempo,
tentando encarnar em sua pessoa esta "lógica"
do coração de Deus, o "segredo"
deste coração, o mistério deste
coração, a saber, que o Senhor é
pobre e nisto está a sua insondável
riqueza, que o Senhor é pequeno e humilde e
nisto está a sua infinita grandeza, que o Senhor
é Amor infinitamente solidário e nisto
está a sua imensa glória... Assim, decidindo
por este Senhor, Francisco vai se desapegando de tudo
e, vencendo-se a si mesmo, vestido de eremita, obedientemente
põe mãos à obra, reconstruindo
igrejas, cuidando dos leprosos... Numa nova e apaixonante
aventura, o nobre cavaleiro sai do "seu mundo"
e vai comungando com o mistério do Outro. Como?
Pondo em prática o sentido deste mistério
no qual se sentia totalmente envolvido, cultivando
o imenso desejo que nele nascera: "ter parte
no espírito do Senhor, seguir o Altíssimo
Filho de Deus em sua caminhada humana, em sua humildade
e em sua pobreza, renunciando ao querer estar acima
dos outros para simplesmente ser com eles, o menor
deles, seu irmão".
Francisco tem consciência - e até se
angustia por isso - de que ajustar a totalidade de
sua pessoa a este "segredo" de Deus exige-lhe
muito esforço, muita luta, num constante e
perseverante exercício de auto-superação.
Só o Senhor mesmo para ajudá-lo. Por
isso, diante do Crucifixo de São Damião,
ele prorrompe nesta comovida oração:
"Ó glorioso Deus altíssimo, iluminai
as trevas do meu coração, concedei-me
uma fé verdadeira, uma esperança firme
e um amor perfeito. Daí-me, Senhor, o (reto)
sentir e conhecer, a fim de que possa cumprir o sagrado
encargo que na verdade acabais de dar-me. Amém".
Frei José Ariovaldo da Silva, ofm, texto
extraído do livro "Herança Franciscana",
capítulo "A experiência de comunhão
com o mistério de Deus em Francisco de Assis",
Editora Vozes, 1996.
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