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       São Paulo, 23/05/2012, 16:45          
 
      

NA IGREJINHA DE SÃO DAMIÃO

Frei José Ariovaldo da Silva, ofm

Certo dia, "já inteiramente mudado de coração, e quase mudado de corpo", como escreve Tomás de Celano, Francisco entra numa igrejinha para rezar. Era a igreja de São Damião, velha, abandonada, caindo aos pedaços. Nesta igrejinha, ele se depara com um ícone, representando o Cristo Crucificado. Em estilo siro-oriental, este ícone tinha a virtude artística de representar todo o mistério pascal de Cristo: crucificação, ressurreição e ascensão. Contemplando aquela imagem, Francisco se sente profundamente tocado por ela.

Contempla-a boquiaberto, pois era o Cristo vivo, o Senhor, vencedor e rei, com um olhar penetrante e cheio de ternura, que de repente ele via ali representado. Melhor, no Cristo Crucificado se lhe vislumbrava ali toda a glória do Senhor pelo qual havia decidido o rumo de sua vida. Logo ali, naquela igrejinha abandonada!
Francisco se sente transformado. De tal maneira mergulha sua atenção no Cristo que, como narra Tomás de Celano, "a imagem do Crucificado mexeu os lábios e falou com ele". Chamando-o pelo nome, disse-lhe: "Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está toda destruída". Dizem os biógrafos (Tomás de Celano e Boaventura) que, diante desta "visão", deste "milagre novo e inaudito", a alma de Francisco "se derreteu". Sim, poderíamos dizer, derreteu-se para se fundir cada vez mais com o mistério do Senhor que se lhe revelava. Mas que mistério? Que "segredo"?

O freqüente contato com os leprosos e o serviço a eles já vinha possibilitando a Francisco entender o "segredo", que Boaventura assim explicita: "Cristo crucificado foi considerado um homem leproso e desprezado". Como escreve Eloi Leclerc: "Na medida em que vai se tomando mais sensível à miséria dos homens, (Francisco) faz uma estarrecedora descoberta: os traços do Crucificado lhe revelam a humanidade de Deus, ou, mais precisamente, a 'humanização' de Deus. Durante horas seguidas contempla o Cristo da cruz. Esse Deus nada tem a ver com o Deus do poder senhorial da Igreja. Não é o Deus das guerras feudais e das guerras santas. Não é o Deus dos privilégios da nova ordem social, o Deus dos ricos comerciantes. Nada tem a ver com o dinheiro e o poder. Ele é o contrário de tudo isto. Encontra-se no grau ínfimo da aflição do mundo. Mergulhou na aflição. Tomou as agruras humanas para si e estas corriam nele como um rio. Os pequenos, os esmagados pela sociedade de ontem e de hoje, podem facilmente reconhecer-se nele. É seu irmão. 'Ele, sendo rico acima de toda medida, preferiu todavia escolher, com sua bem-aventurada mãe, a vida de pobreza'. Ele, que partilhava a glória de Deus e que estava acima de tudo, passou a existir com os pequeninos e os humilhados, com os vencidos, os condenados e crucificados de todos os tempos".

Assim, Francisco vai entendendo e, ao mesmo tempo, tentando encarnar em sua pessoa esta "lógica" do coração de Deus, o "segredo" deste coração, o mistério deste coração, a saber, que o Senhor é pobre e nisto está a sua insondável riqueza, que o Senhor é pequeno e humilde e nisto está a sua infinita grandeza, que o Senhor é Amor infinitamente solidário e nisto está a sua imensa glória... Assim, decidindo por este Senhor, Francisco vai se desapegando de tudo e, vencendo-se a si mesmo, vestido de eremita, obedientemente põe mãos à obra, reconstruindo igrejas, cuidando dos leprosos... Numa nova e apaixonante aventura, o nobre cavaleiro sai do "seu mundo" e vai comungando com o mistério do Outro. Como? Pondo em prática o sentido deste mistério no qual se sentia totalmente envolvido, cultivando o imenso desejo que nele nascera: "ter parte no espírito do Senhor, seguir o Altíssimo Filho de Deus em sua caminhada humana, em sua humildade e em sua pobreza, renunciando ao querer estar acima dos outros para simplesmente ser com eles, o menor deles, seu irmão".

Francisco tem consciência - e até se angustia por isso - de que ajustar a totalidade de sua pessoa a este "segredo" de Deus exige-lhe muito esforço, muita luta, num constante e perseverante exercício de auto-superação. Só o Senhor mesmo para ajudá-lo. Por isso, diante do Crucifixo de São Damião, ele prorrompe nesta comovida oração: "Ó glorioso Deus altíssimo, iluminai as trevas do meu coração, concedei-me uma fé verdadeira, uma esperança firme e um amor perfeito. Daí-me, Senhor, o (reto) sentir e conhecer, a fim de que possa cumprir o sagrado encargo que na verdade acabais de dar-me. Amém".

Frei José Ariovaldo da Silva, ofm, texto extraído do livro "Herança Franciscana", capítulo "A experiência de comunhão com o mistério de Deus em Francisco de Assis", Editora Vozes, 1996.