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O
ENCONTRO DE FRANCISCO COM CRISTO
Por Frei Hugo Baggio
Básico na evolução espiritual
de Francisco foi seu encontro com Cristo. Não
apenas um encontro intelectual ou espiritual, ou até
convencional, mas um encontro vivo e concreto, radical
e comprometido; um encontro que modificou não
apenas as concepções ou os conceitos,
mas a própria maneira de ver e de levar a vida.
Como por uma intuição, começou
a perceber o Evangelho sob um outro ângulo:
mais simples, menos complicado, mais humano e possível
de ser vivido.
Não fazia da leitura do Evangelho uma fonte
de teses e de hipóteses, muito a gosto dos
seus contemporâneos, mas convenceu-se de que
se tratava de espírito e vida.
Dotado de um caráter prático, ia logo
às consequências.
Assim, ouviu na leitura do Evangelho que Cristo enviara
seus apóstolos a missionar o mundo, sem levarem
bolsa ou dinheiro, duas túnicas ou sapatos,
numa palavra: sem nenhuma preocupação
material ou garantia humana, ele lança fora
tudo o que supunha supérfluo e começa
a pregar, na liberdade plena de quem cortou todas
as amarras.
Faz da POBREZA um ponto base de sua espiritualidade,
a ponto de ser a pobreza FRANCISCANA, isto é,
como a concebeu e viveu Francisco, a melhor caracterização
que se pode dar a um estado de despojamento. Não
se trata apenas do não-ter-bens ou posses,
mas antes de um espírito de SER POBRE, donde
nasce um relacionamento novo com os bens materiais.
Novo não só para si, mas como modelo
para o cristão.
Não vê nos bens um perigo em si, como
se fossem intrinsecamente maus, como se professara,
em parte, nos meios espirituais medievais.
Todos são dons de Deus. Não é
necessário fugir dos bens materiais, evitá-los
ou exorcisá-los. É preciso aproximar-se
equilibradamente e transformá-los em companheiros
da jornada. Não se deixar possuir por eles,
escravizando-se a eles. Mas conviver com eles, conservando
a liberdade e a dominação. Sem nunca
perder de vista que eles também são
criaturas de Deus. Por serem dons devem ser respeitados
e usados dentro de um projeto que o doador dos mesmos
elaborou.
Por isso, o franciscanismo se torna, em definição
bem resumida, um modo especial de VER as coisas e
uma forma própria de CONVIVER com elas.
Passando em revista a maneira equilibrada como São
Francisco se relacionou com as realidades terrenas
e espirituais, acabamos por ter uma noção
do que vem a ser FRANCISCANISMO.
Tudo isso, a partir da pessoa de Cristo, que se tomou
para Francisco um ponto referencial. O que ele queria
era IMITAR copiar, reproduzir este Cristo, em seu
comportamento, em seus valores, em suas concepções,
em seus relacionamentos com Deus e com o homem. Para
isso o livro base era o Evangelho.
Nele encontrava o seu vade-mécum, vale dizer,
seu itinerário, a forma de caminhar na história.
Donde, Cristo, o homem que passou pela história,
e Evangelho, a Palavra de Deus que Cristo deixou,
tornaram-se para ele sinônimos e o fecho luminoso
a rasgar caminhos e iluminar a noite das ambigüidades
em que o homem, peregrino, se vê envolvido.
A Regra que ele escreveu, ou seja, o resumo de exigências
feitas à pessoa que deseja seguir as pegadas
de Francisco, começa com as palavras. "A
vida e a Regra dos Frades Menores é esta: viver
o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo...".
Emprega a palavra "viver" para expressar
que a finalidade de alguém entrar na Ordem
Franciscana, ou o essencial de um Franciscano, é
traduzir na vida diária a forma de vida contida
no Evangelho, que, por sua vez, leva o homem a copiar
a vida de Jesus Cristo.
Francisco tornou-se, então, um como redescobridor
de Cristo como homem. Realizou uma releitura da humanidade
de Cristo. Impressionou-se profundamente com a realidade
de que Deus assumiu a forma humana. Assim fez o Cristo
como que voltar à sua condição
de homem, quando a teologia e a liturgia haviam acentuado
o Cristo como Deus e como glorioso, esquecendo um
pouco - ou até muito - sua humanidade.
Porque redescobriu esta humanidade de Cristo, pôde
insistir na possibilidade de tomá-lo por modelo.
Devolveu à devoção cristã
esta humanidade através da introdução
do Presépio, em representação
cênica concreta, na noite de Natal de 1221,
em Grécio, costume que se perpetuou na Igreja
até os nossos dias.
Ao lado da ternura pelo "Menino que Francisco
acordou novamente no coração dos homens",
redescobriu a cruz com um homem crucificado, nas dores
da Paixão.
A tal ponto este aspecto da caminhada histórica
de Cristo o impressionou que nasceu, em seu coração,
o desejo de experimentar, em seu próprio corpo,
estas dores cruciais e em seu espírito a experiência
do abandono total.
Assim, em 1224, dois anos antes de sua morte, no
monte Alverne, foi marcado com as Chagas de Cristo,
em seu lado, em seus pés e mãos.
Este trazer de volta a humanidade de Cristo faz com
que uma das notas do FRANCISCANISMO seja o CRISTOCENTRISMO,
ou seja. Cristo como centro da vida espiritual, mas
Cristo também em seu papel profundo no centro
da criação, no centro da história
e no centro da escatologia, quer dizer, dos acontecimentos
que culminam com o final da vida humana individual
e com o final de toda a história.
Tal Cristocentrismo influenciou a vida de Francisco
e de seus seguidores e também o modo de pensar
e de interpretar a vida humana e o fenômeno
religioso, dando nascimento a uma escola com características
franciscanas, na Teologia e na Filosofia.
Assim, uma série de inteligências lúcidas
e homens de peso ilustraram o pensamento e a reflexão
na Igreja, alinhando-se aos grandes pensadores que,
em todos os tempos, conduziram, com brilhantismo,
a reflexão teológica, que não
é um sistema já completo, fechado, pronto,
mas algo de dinâmico, que se desenvolve, cresce
e aprofunda, acompanhando a história com suas
conquistas e progressos.
Neste particular, a VISÃO FRANCISCANA deu
excelente colaboração e abriu corajosas
brechas na fortaleza, por vezes compacta, da reflexão
teológica.
Extraído do livro "São Francisco
vida e ideal", de Frei Hugo Baggio, Editora Vozes.
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