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A IRMÃ MORTE
Por Frei Hugo Baggio
Envolto num hábito que lhe fora emprestado
pelo superior, pois até das vestes se desfizera,
na noite do dia 3 de outubro de 1226, Francisco morria
na choupana, em cujo teto, não obstante o avançado
da noite, as rolinhas vieram fazer seu concerto de
despedida e, ao mesmo tempo, de louvor, pois fora
esta a forma de canto que o Santo lhes recomendara,
nos seus diálogos de paz e de beleza.
Dirige ele sua saudação à morte.
Não é apenas um verso de elevação
espiritual ou uma exortação a propósito
da morte. É, antes, um encontro existencial
como fenômeno morte que, sobretudo, na civilização
ocidental, apresenta-se como um momento perturbador.
Francisco faz da morte uma celebração,
uma liturgia. Por ser ela um fato humano, uma realidade
"da qual homem algum pode escapar", ele
a convoca para se unir aos demais elementos vitais
do homem: o sol, a lua, a terra com suas flores e
frutas, as estrelas e o vento, a água cristalina
e cantante. Não é ela a mensageira de
uma fatalidade, embora homem vivente algum dela possa
se esquivar, não é destruidora da tessitura
da vida e separadora de corações e dos
elementos naturais. Não é uma criatura
deformada, repelente, intrusa ou alheia à criação
de Deus. Ela é também uma criatura nascida,
como todas, da bondade de Deus. Se para Francisco
todas as criaturas são irmãos e irmãs,
também a morte é a irmã, aquela
que nos toma pela mão e nos conduz por este
trecho do caminho, misterioso e sombrio. Misterioso
porque não temos dele nenhuma experiência.
Tudo o que da morte sabemos é algo exterior
a nós, algo que nos chega de fora. Por isso,
não a conscientizamos. E, conseqüentemente,
não a incorporamos à nossa história,
procurando afastá-la. E como não o podemos
fazer biologicamente, fazemo-lo mentalmente: recusamo-nos
a pensar nela e dela falar. Rejeitamo-la. Sombrio,
porque as civilizações e as culturas
encheram este caminho de negrume e sombras assustadoras.
Para Francisco de Assis, esta saudação
não é mera exuberância poética,
numa hora de bem-estar espiritual, quando nosso ser
suporta até os pensamentos aparentemente mais
assustadores e desconfortantes. É uma saudação
arrancada, no momento de plena consciência da
proximidade de sua dissolução, quando
o fenômeno morte lhe está próximo,
palpável, no tempo e no espaço. Nem
tampouco é um grito nascido de um "cansado
da vida", porque sua cosmovisão fazia-o
degustar a vida, e amá-la, em suas múltiplas
alegrias. É a conformidade profunda, nascida
da fé que acredita numa realidade meta-histórica,
atingível apenas através da morte. Se
a morte é irmã, isto significa que entre
ela e o homem existe um parentesco, portanto não
se trata de algo estranho, algo punitivo, algo fatal,
algo inimigo. Também aqui aparece uma dimensão
diferente: o desapego foi libertando o homem, até
desejar apenas a realização no plano
eterno de Deus. Portanto, não fala, aqui, a
emoção estética, ainda que o
belo exercesse tão profundo fascínio
em Francisco, mas é uma expressão teológica
de aceitação alegre. Tudo é bem.
Tudo é dádiva. Tudo é gratuidade.
Por isso ele usa a expressão: bem-vinda!
A terra é "irmã" e sobre ela
quer seu corpo estendido para nela passar à
realidade eterna, pelas mãos de outra "irmã",
a Morte. Sempre de novo, na visão de Francisco,
aparece a fraternização, que vem marcada
pela entrega total. Francisco foi o homem "à
disposição" de tudo e de todos,
como ensina em suas exortações: o frade
está submisso a toda criatura. Mormente à
disposição de Deus. Daí a entrega
final, 0067enerosa e alegre, fraterna e pacificada.
Tinha bem claro que o homem não é um
ser-para-a-morte, mas um ser-para-a-vida. Por isso,
olha com o mesmo olhar límpido e destemido
o sol, a lua, as flores, as águas e a morte,
porque em todos eles se manifesta o mesmo mistério
do ser e palpita a mesma centelha da vida.
Frei Hugo Baggio, texto extraído do livro
"São Francisco vida e ideal", da
Editora Vozes, 1991.
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