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       São Paulo, 23/05/2012, 16:46          
 
      

A IRMÃ MORTE

  Por Frei Hugo Baggio

Envolto num hábito que lhe fora emprestado pelo superior, pois até das vestes se desfizera, na noite do dia 3 de outubro de 1226, Francisco morria na choupana, em cujo teto, não obstante o avançado da noite, as rolinhas vieram fazer seu concerto de despedida e, ao mesmo tempo, de louvor, pois fora esta a forma de canto que o Santo lhes recomendara, nos seus diálogos de paz e de beleza.

Dirige ele sua saudação à morte. Não é apenas um verso de elevação espiritual ou uma exortação a propósito da morte. É, antes, um encontro existencial como fenômeno morte que, sobretudo, na civilização ocidental, apresenta-se como um momento perturbador. Francisco faz da morte uma celebração, uma liturgia. Por ser ela um fato humano, uma realidade "da qual homem algum pode escapar", ele a convoca para se unir aos demais elementos vitais do homem: o sol, a lua, a terra com suas flores e frutas, as estrelas e o vento, a água cristalina e cantante. Não é ela a mensageira de uma fatalidade, embora homem vivente algum dela possa se esquivar, não é destruidora da tessitura da vida e separadora de corações e dos elementos naturais. Não é uma criatura deformada, repelente, intrusa ou alheia à criação de Deus. Ela é também uma criatura nascida, como todas, da bondade de Deus. Se para Francisco todas as criaturas são irmãos e irmãs, também a morte é a irmã, aquela que nos toma pela mão e nos conduz por este trecho do caminho, misterioso e sombrio. Misterioso porque não temos dele nenhuma experiência.

Tudo o que da morte sabemos é algo exterior a nós, algo que nos chega de fora. Por isso, não a conscientizamos. E, conseqüentemente, não a incorporamos à nossa história, procurando afastá-la. E como não o podemos fazer biologicamente, fazemo-lo mentalmente: recusamo-nos a pensar nela e dela falar. Rejeitamo-la. Sombrio, porque as civilizações e as culturas encheram este caminho de negrume e sombras assustadoras.

Para Francisco de Assis, esta saudação não é mera exuberância poética, numa hora de bem-estar espiritual, quando nosso ser suporta até os pensamentos aparentemente mais assustadores e desconfortantes. É uma saudação arrancada, no momento de plena consciência da proximidade de sua dissolução, quando o fenômeno morte lhe está próximo, palpável, no tempo e no espaço. Nem tampouco é um grito nascido de um "cansado da vida", porque sua cosmovisão fazia-o degustar a vida, e amá-la, em suas múltiplas alegrias. É a conformidade profunda, nascida da fé que acredita numa realidade meta-histórica, atingível apenas através da morte. Se a morte é irmã, isto significa que entre ela e o homem existe um parentesco, portanto não se trata de algo estranho, algo punitivo, algo fatal, algo inimigo. Também aqui aparece uma dimensão diferente: o desapego foi libertando o homem, até desejar apenas a realização no plano eterno de Deus. Portanto, não fala, aqui, a emoção estética, ainda que o belo exercesse tão profundo fascínio em Francisco, mas é uma expressão teológica de aceitação alegre. Tudo é bem. Tudo é dádiva. Tudo é gratuidade. Por isso ele usa a expressão: bem-vinda!

A terra é "irmã" e sobre ela quer seu corpo estendido para nela passar à realidade eterna, pelas mãos de outra "irmã", a Morte. Sempre de novo, na visão de Francisco, aparece a fraternização, que vem marcada pela entrega total. Francisco foi o homem "à disposição" de tudo e de todos, como ensina em suas exortações: o frade está submisso a toda criatura. Mormente à disposição de Deus. Daí a entrega final, 0067enerosa e alegre, fraterna e pacificada. Tinha bem claro que o homem não é um ser-para-a-morte, mas um ser-para-a-vida. Por isso, olha com o mesmo olhar límpido e destemido o sol, a lua, as flores, as águas e a morte, porque em todos eles se manifesta o mesmo mistério do ser e palpita a mesma centelha da vida.

Frei Hugo Baggio, texto extraído do livro "São Francisco vida e ideal", da Editora Vozes, 1991.