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TEMPO DA PAIXÃO - ENCONTRO COM O SOFRIMENTO
Por Anselm Grün
Com o Domingo de Ramos começa para nós
a verdadeira celebração da morte e ressurreição
de Jesus. Damos início à recordação
do sofrimento de Jesus com uma procissão triunfal.
Como no tempo de Jesus, que entrou em Jerusalém
celebrado como um rei, também nós entramos
na igreja com ramos de palmeira. Com a procissão
de Ramos reconhecemos que é esse Jesus, que
se dispõe a trilhar o calvário. Ele
é o Messias que nos à liberdade e o
rei que governa o mundo todo. Quando seguimos a Jesus
como o verdadeiro rei e o louvamos com nossas canções,
experimentamos nós mesmos o caminho para nossa
dignidade de reis.
Somos todos reis e rainhas. Quando o sofrimento se
abate sobre nós, precisamos sempre lembrar
que a dignidade divina reside em nós. Jesus
trilhou o caminho da humilhação, foi
rebaixado ao extremo, mas jamais deixou de estar consciente
de sua dignidade divina. Da mesma forma, também
não podemos nos deixar destruir pelo sofrimento.
Nossa dor pode até mesmo nos fazer calar, como
aconteceu com Jesus, e pode até lançar-nos
na solidão e na tristeza. Mas não pode
tirar de nós nossa dignidade. Por isso o triunfo
de Jesus é celebrado no início da semana
da Paixão: ao percorrer o calvário,
Jesus chega ao triunfo, e ao mesmo acontecerá
conosco quando precisarmos enfrentar o sofrimento.
Para muitos, os primeiros dias da Semana Santa são
dias normais de trabalho. Mesmo assim, devemos nos
esforçar por organizar essa semana de um jeito
diferente. Em meu caso, faz parte de minha liturgia
pessoal da Semana Santa ouvir com toda a calma a Paixão
segundo São João e a Paixão segundo
São Mateus, de Johann Sebastian Bach. E leio
também comentários dos Evangelhos, para
me aproximar do mistério da Paixão de
Jesus. Percebo em mim mesmo ser impossível
esgotar o potencial de meditação que
o sofrimento de Jesus tem em si. Sempre reaparece
a pergunta: Qual o sentido da Paixão de Jesus?
O que significa professarmos na liturgia que Cristo
nos salvou por sua morte na cruz? Como devo compreender
meu sofrimento em face da Paixão de Jesus,
e como dar conta desse sofrimento.
Quinta-Feira Santa
O primeiro ponto alto da Semana Santa é a Quinta-Feira
Santa. Com ela entramos no assim chamado triduum sacrum,
ingressamos no mistério dos três dias
sagrados. Celebramos a instituição da
Eucaristia na última ceia. Jesus quis dar a
nós um sinal visível para deixar claro
seu amor até o fim. A Eucaristia é o
lugar em que podemos experimentar a cada novo dia
o mistério do amor de Jesus. Ao partir o pão
e dá-lo aos discípulos, Jesus deixou
clara sua maneira de entender a própria morte
na cruz: como consumação de seu amor,
como entrega de si mesmo para nós. Ele também
poderia ter escapado à prisão e ter
fugido para outro país. Mas persistiu porque
não quis abandonar seus discípulos ,
para os quais havia pregado o amor de Deus e o demonstrado
concretamente, por suas ações. Com sua
morte na cruz, Jesus mostrou-lhes que os amava até
as últimas conseqüências. Em cada
Eucaristia participamos do amor de Jesus, que não
fraquejou nem mesmo diante da morte.
Todo grande amor supera a morte. Como sinal de seu
amor Jesus lavou os pés de seus discípulos.
Esse antigo rito da tradição é
cumprido pelo sacerdote na liturgia da comunidade,
para tornar visível o que Jesus fez por nós
com sua morte na cruz. Ele se curvou até nós,
rebaixou-se até a poeira da morte, lavou e
curou nossos pés sujos e feridos.
Sexta-feira Santa
Como a Sexta-Feira Santa é feriado, deveríamos
aproveitá-la para dedicar-nos aos acontecimentos
sagrados que celebramos na liturgia da tarde. Esse
poderia ser um dia muito especial. Muitos o tomam
como um dia de silêncio, permanecem calados
durante o café da manhã, e ouvem uma
música que combine com a situação.
Um café da manhã em silêncio une
a família de um jeito diferente do que acontece
com as conversas dos dias normais. Muitos jejuam durante
a Sexta-Feira Santa. Comem apenas pão seco
ou se limitam a tomar líquidos. Faz bem à
alma afastar esse dia da rotina de sempre, cumprir
nossos próprios rituais de Sexta-Feira Santa,
enquanto indivíduo e enquanto família.
Algumas famílias rezam juntas os Salmos ou
meditam juntas sobre o calvário.
O ponto alto da Sexta-Feira Santa é a liturgia
às 15 horas, a hora em que Jesus morreu. É
uma celebração antiga e tradicional
entre os católicos; não se trata de
uma celebração eucarística, mas
de uma liturgia marcada somente pela palavra, por
cânticos e ritos. Ela começa com um longo
silêncio, durante o qual o sacerdote e os auxiliares
permanecem deitados no chão. Com esse gesto
inusitado, os celebrantes da liturgia expressam a
idéia de que só conseguimos nos aproximar
do mistério da morte de Jesus na cruz quando
estamos em silêncio. Em seguida, o texto da
Paixão segundo o Evangelho de São João
é lido em voz alta ou cantado. João
descreve a Paixão de Jesus de maneira semelhante
ao que fazem os sinóticos: com a prisão,
interrogatório pelos sacerdotes no Templo,
interrogatório por Pilatos, flagelação
e crucificação. Jesus, no entanto, percorre
soberano essas estações de seu sofrimento.
Desde o início João deixa claro quem
é esse homem que os milicianos aprisionam.
Diante dele caem por terra, e vêem-se obrigados
a prestar-lhe homenagem como rei verdadeiro. Pilatos
tenta intimidar Jesus. Mas mesmo detendo o poder político,
ele surge diante de Jesus como impotente e fraco.
Jesus menciona a razão de sua própria
soberania: "Minha realeza não é
deste mundo" (Jô 18,36). A dignidade de
Jesus não é deste mundo. Ele desceu
do céu para a terra. O mundo não tem
nenhum poder sobre ele, mesmo que por fora pareça
ser assim.
Não ouvimos o relato da Paixão de Jesus
para admirá-la, mas para meditar em Jesus Cristo
sobre a superação do próprio
sofrimento. Vivenciamos em nossa vida as mesmas estações
de sofrimento que Jesus percorreu antes de nós.
Somos presos, condenados, mal compreendidos, feridos,
expulsos e por fim somos pregados na cruz de nossas
próprias contradições. Lá
avançaremos solitários pelos portões
da morte adentro. Mas em tudo isso vale também
para nós o fato de termos em nós uma
realeza que não é deste mundo, o fato
de haver algo divino em nós, algo que não
se submete a nenhum poder deste mundo. Isso nos dá
a confiança de que seguiremos nosso caminho
rumo à glória de Deus com liberdade
e dignidade, ao lado de Jesus.
Depois das grandes preces nas quais a Igreja reza
por todas as pessoas do mundo, a veneração
da cruz constitui o ponto alto da liturgia da Sexta-Feira
Santa. Não se venera a cruz como símbolo
de sofrimento, mas como imagem de nossa salvação.
A cruz é sinal de que Cristo assumiu todas
as contradições da condição
humana e transformou-as por meio de seu amor, que
ele demonstrou ter por nós, até sua
consumação na cruz. Nada mais em nós
está excluído desse amor de Deus. Tudo
em nós foi tocado por esse amor, que fulgura
de maneira mais clara por intermédio do Filho
de Deus que pende na cruz. É por isso que,
diante da cruz, proclamamos nossa alegria pelo amor
de Jesus, cantando: "Veneramos vossa Cruz, ó
Senhor, proclamamos e louvamos vossa ressurreição
santíssima: pois vede, através do lenho
da cruz a alegria chegou ao mundo".
A cruz não quer oprimir, mas elevar; não
quer ferir, mas curar; não quer sobrecarregar,
mas tornar a carga mais leve. Na cruz vemos o mistério
de nossa salvação e libertação.
Sábado de Aleluia
Para muitos, o Sábado de Aleluia é
apenas um dia de faxina ou de preparação
para a Páscoa. No entanto, esse dia sem liturgia
tem um significado espiritual próprio. Jesus
morreu por nós, e permaneceu três dias
no sepulcro. Assim, também deveríamos
nos dedicar com plena consciência ao teor espiritual
desse dia. Isso acontece melhor em meio ao silêncio,
quando nos posicionarmos quanto à verdade e
à situação sepulcral de nós
mesmos.
Cristo desceu ao reino da morte, ao Hades, o reino
das sombras. Posso imaginar como Jesus desce aos cantos
tenebrosos de minha própria existência.
O que excluo da vida? Quais os lugares para os quais
não gosto de olhar? Onde foi que tratei de
recalcar alguma coisa, empurrar algo para as câmaras
escuras de minha alma? Para onde me nego a olhar?
O que pretendo esconder de mim mesmo, dos outros e
de Deus? Jesus propõe-se descer exatamente
a esses rincões da morte e da escuridão,
para mexer em tudo o que há de escuro e rançoso
em mim, tudo o que há de mortiço e entorpecido,
e então despertar-me para a vida.
Os ícones da Igreja oriental sempre representam
a ressurreição de Jesus com Cristo subindo
do reino dos mortos, trazendo consigo os mortos pela
mão. No dia de Sábado de Aleluia permito
que Cristo desça até o meu reino dos
mortos, para que tome todos os mortos pela mão,
inclusive o que há de morto em mim mesmo, e
nos reconduza à luz, a fim de despertar-nos
para a vida.
Cristo esteve no sepulcro. Assim, o Sábado
de Aleluia convida-me a olhar para minha própria
situação sepulcral. O que me caberia
enterrar? Que feridas em minha história de
vida precisam ser enterradas de uma vez por todas?
Quando sepulto todas as ofensas, paro de usá-las
como armas para agredir as outras pessoas. Não
as carregarei mais em mim mesmo, como se fossem uma
recriminação tácita aos que feriram
em algum momento. Com isso, posso descartar minha
mágoa, meus ressentimentos e minha irritação.
Não preciso de mais nada disso como pretexto
para justificar minha recusa a olhar a vida de frente.
Pretendo sepultar também os sentimentos de
culpa que consomem e dos quais não consigo
me afastar. Preciso ter confiança em que Cristo
também desceu ao meu sentimento de culpa e
a todo martírio interno que imponho a mim mesmo,
com auto-acusações; e desceu até
aí para libertar-me. Quando paro de andar em
círculos em torno de minha culpa, aí
sim realmente posso despertar para a vida nova.
No Sábado de Aleluia desço até
meu próprio sepulcro e imagino de que forma
Cristo repousa lá, a fim de trazer tudo o que
lá está para uma nova vida. Cristo desceu
ao sepulcro de meu medo, minha resignação,
minha autocompaixão e minha morbidez, a fim
de salvar-me e transformar-me no mais fundo de minha
alma. Para ressuscitar na Páscoa como uma pessoa
salva e liberta, preciso ter a coragem de meditar
acerca de meu sepulcro e de sepultar tudo o que me
distancia da vida.
Páscoa
No dia da Páscoa celebramos não
só a ressurreição de Jesus, mas
também nossa própria ressurreição.
A liturgia da noite de Páscoa começa
com a escuridão. Ainda permanecemos conscientemente
na escuridão de nosso sepulcro. Sentamos juntos
na igreja, com as luzes apagadas. Mas logo o diácono
entra na igreja com o círio pascal - e a luz
de uma única vela ilumina a escuridão.
Essa luz é passada adiante a cada um dos fiéis
que trouxe sua vela para a celebração
da Páscoa. Muitos as terão enfeitados:
os ornamentos são símbolos que representam
vida e luz para cada uma das pessoas. E pouco depois,
enquanto o diácono entoa o maravilhoso cântico
Exsultet, todos os fiéis continuam segurando
suas velas já incandescentes em meio à
escuridão, para que tudo se torne mais claro
em seus corações, para que o sol pascal
também possa luzir em cada um deles e espantar
toda escuridão. A luz de Cristo quer irradiar-se
por todos os cantos de nosso coração,
trazer o calor da vida para a frieza que possa haver
dentro de nós, trazer vivacidade aonde haja
desalento, confiança aonde haja medo.
O Aleluia! Faz parte da festa da Páscoa. Depois
de quarenta dias de Quaresma o Aleluia! Ressoa pela
primeira vez na noite de sábado para domingo.
Para nos habituarmos ao som alegre dos cânticos
de Páscoa, cantamos o Aleluia! Três vezes,
um tom mais alto a cada vez; assim, ele chega cada
vez mais fundo ao coração e afasta toda
a tristeza de lá. A ressurreição
precisa ser exaltada com cantos. Precisa ganhar expressão.
Não basta apenas crer nela com a cabeça.
O corpo quer ressuscitar. E ele o faz cantando. Por
meio do canto cresce em nós o amor por aquilo
que exaltamos. No Aleluia! Pascal projetamo-nos com
nosso canto para dentro do milagre do amor, do amor
que é mais forte que a morte. Mas só
poderei sentir de fato a alegria pela ressurreição
de Jesus e por minha própria ressurreição
quando cantar de coração. Aí,
a pessoa inteira tem de se transformar no cântico
que entoa. Só assim sentirá o amor que
o Ressuscitado pretende despertar em cada um. Ao cantar,
surge diante de nossos olhos uma imagem do que exaltamos
com nosso canto. Com o canto temos a noção
de que o Ressuscitado está no meio de nós
e nos concede participar da amplitude e liberdade
de sua ressurreição.
A Páscoa é a festa da vida. Celebramos
a superação da morte pela vida. Cristo
derrotou a morte. A vida é mais forte que a
morte. Já não se pode matar a vida.
E cabe agora celebrá-la. Essa comemoração
da vida acontece na refeição festiva
da Eucaristia. E no momento em que desejamos "Feliz
Páscoa" uns aos outros. A nova vida também
pede um novo convívio.
Ao longo de 25 anos ministrei cursos sobre a Páscoa
para adolescentes e jovens adultos. Era comum esses
jovens se abraçarem na Páscoa para partilhar
sua alegria pela ressurreição. Dançavam
uns com os outros. Sentiam que a ressurreição
também pedia uma expressão por meio
do corpo. Quando dançamos caem as correntes
que nos mantêm aprisionados. A dança
nos dá uma noção da liberdade
e da beleza de nossa vida. Ao dançarmos, projetamos-nos
para dentro da vida que o Ressuscitado nos proporciona.
Celebramos a Páscoa durante cinqüenta
dias. Nosso dia-a-dia é o teste para ver se
comemoramos a Páscoa somente com um sentimento
de euforia, ou se a ressurreição acontece
de fato em meio a nossa vida. Nós tratamos
de nos inserir na vida da ressurreição.
Aprendemos a levantar sempre, mesmo quando alguma
coisa dá errado no trabalho, quando surgem
conflitos nos relacionamentos, quando fracassamos
e nos decepcionamos com nós mesmos. Ressurreição
quer dizer levantar-se sempre de novo, não
ficar no chão quando levamos um tombo. E ressurreição
significa que creio estar acompanhado do Ressuscitado
enquanto caminho.
Cristo ressurge sempre em minha vida, apontando novos
caminhos. Ele vem até mim para mostrar-me que
a ressurreição transforma em êxito
o que parecia perdido, o que estava morto renasce,
e a escuridão torna-se luz. A fé na
ressurreição cura as mágoas de
minha vida e ensina-me a erguer-me e prosseguir em
direção à verdadeira vida, à
vida que Deus concebeu para mim. A ressurreição
quer me ensinar desde já, no aqui e agora,
o que a vida é. Ela me traz a promesa de que
esta vida também ultrapassa o limiar da morte,
renova em mim a certeza de que não se pode
acabar com a vida, porque com a morte e ressurreição
de Jesus o amor derrotou a morte, para todo o sempre.
Texto extraído do livro "Viver a Páscoa",
de Anselm Grün, Edições Loyola,
2003
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