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Largo das Flores - Ínicio da Estrada da Gávea |
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Os ônibus, as vans, as motos e os pedestres transitam simultaneamente |
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Por Frei Regis Daher, ofm
Na manhã do dia 22 de setembro, eu e nosso funcionário Moacir Beggo, jornalista responsável pelo site franciscanos, pela edição dos nossos boletins (Pró-Vocações e Sefras) e das revistas institucionais (Sefras e Província), seguimos viagem para o Rio de Janeiro a fim de recolher material e informações sobre a nova frente de atividade assumida pela Província, na Comunidade da Rocinha: a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem. Nosso objetivo era, principalmente, sentir de perto a realidade desafiadora deste local, muito mais do que ‘olhar’ por cima dos fatos, das constatações evidentes e das informações veiculadas pela mídia. Afinal, a Rocinha, e o conjunto das chamadas ‘favelas’ cariocas, são notícias constantes das redes de televisão, quando se trata de mostrar a guerra civil urbana, no conflito armado entre a força policial e os agentes do tráfico. Quem sabe, por isso mesmo, o seu nome está associado, na cabeça de quase todos nós, à violência e ao crime, à insegurança e à morte, ao sofrimento e à desigualdade social. Até mesmo as expressões ‘favela’ e ‘favelados’, talvez já estejam introjetadas em nosso inconsciente coletivo, como sinônimo de exclusão e miséria. E, por conseqüência, também inconsciente, objeto de muito preconceito social e, veladamente, de preconceito religioso.
Não por acaso, a idéia de criar uma fraternidade nossa na Rocinha, tenha despertado primeiro, entre nós frades, até uma reação paradoxal. Afinal, o que nós podemos fazer ali, num contexto tão adverso aos valores cristãos e à prática franciscana da paz e do bem? Haveria algum sentido em ser uma modesta e insignificante presença pacificadora e de reconciliação diante de tão complexa e grave situação de conflito social? “Vale a pena correr tamanho risco?” - perguntam pela sensatez, os politicamente corretos.
Subindo o morro e descobrindo a vida
O centro velho do Rio de Janeiro e até mesmo o Largo da Carioca, quase que em absoluto deserto, sem o movimento habitual dos dias de semana. O tempo estava mais para a “São Paulo da garoa” do que para o da “Cidade Maravilhosa”, pois fazia frio, garoava e soprava um vento frio varrendo as avenidas vazias nas redondezas. O portão do túnel de acesso fechado, aumentou ainda mais a sensação de deserto. Alguns moradores de rua, no boca do túnel, nos informaram que os confrades do Convento Santo Antônio estavam em retiro naquele sábado. Os pobres nos acompanham e sabem até do nosso programa de vida! Por sorte ou providência, Frei Fernando Araújo estava de saída e, voltando, nos conduziu ao interior do convento. O guardião Frei Ivo Theiss, com a ajuda dos hospedeiros Frei Róger e Frei João Pflanzer, fraternalmente nos receberam e nos acomodaram.
Saímos, em seguida, rumo à Rocinha, tomando um ônibus na Cinelândia. Já tínhamos antes as informações e referências do percurso e da condução para subir o morro. Ao término de uns 50 minutos, chegamos ao Largo das Flores, pequenina praça, bem ao pé da montanha, e ponto inicial das motos-taxi, das vans (micro-ônibus de transporte coletivo), e dos ônibus que fazem a linha “Estrada da Gávea”. No largo, abarrotado de barracas e ambulantes, esgueirando-se entre os transeuntes, conseguimos entrar numa van e iniciamos a subida. A Estrada da Gávea é um antigo caminho, ao estilo das estradas imperiais da serra de Petrópolis ou de Santos, não de asfalto mas de concreto, serpenteando o pequeno e apertadíssimo espaço que contorna a montanha.
Ordem no caos
A reação imediata de quem sobe este caminho pela primeira vez é de pânico e perplexidade. Os ônibus, as vans, as motos e os pedestres transitam simultaneamente; param, se cruzam nos dois sentidos, e continuam o movimento em manobras e espaços que desafiam qualquer lógica ou norma de tráfego urbano. Simplesmente não existem os dois sentidos de “mão” e “contramão”. Todos eles sobem vagarosamente, em marcha bem lenta, parando seguidamente para o embarque e o desembarque dos moradores, durante todo o percurso. Não se ouvem gritos, palavrões, buzinas ou aquelas reações de impaciência tão comuns nos grandes centros civilizados da urbi. Nem discussões ou brigas em conseqüência de batidas ou arranhões nos veículos. Afinal, eles já estão num estado bem precário, castigados pelas condições do trânsito local. O mais surpreendente, porém, é a existência de uma espontânea ordem neste caos!
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