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13/11/2006
Por Fr. Sandro Roberto da Costa, ofm (*)
Agudos (SP) -Desde os inícios da
Ordem, os momentos de encontro fraterno mais intensos ocuparam
um lugar importante na vida dos irmãos, seja pela
necessidade de pensar e organizar juntos os rumos da fraternidade
e da missão, seja pelo prazer de se encontrar, conversar,
comer, se alegrar juntos. Francisco sempre tomou as decisões
mais importantes da fraternidade junto com seus irmãos.
Depois de 1209, quando o papa Inocêncio III
deu a aprovação oral para a Regra, os irmãos
se espalharam por todas as regiões da Itália,
e o seu número cresceu rapidamente. Sentiu-se a necessidade
de uma reunião mais articulada para avaliar a caminhada
e fixar algumas normas mais precisas. Em 1212 Francisco
reuniu seus frades nos arredores de Assis, próximo
ao mosteiro de São Verecundo. Diz o cronista
do mosteiro: “Nos últimos tempos, o bem-aventurado
Francisco pobrezinho freqüentes vezes se hospedou no
mosteiro de São Verecundo... E nas imediações
do mesmo mosteiro, o bem-aventurado Francisco realizou um
capítulo dos trezentos primeiros irmãos, e
o abade e os monges, generosamente, como puderam, doaram
as coisas necessárias. Houve grande abundância
de pão de cevada, de sêmola, de trigo, de milho,
água potável límpida e vinho de maçã
diluído em água para os mais fracos, como
atestava o velho senhor André, que esteve presente;
e houve grande abundância de favas e legumes”
(Legenda da Paixão de São Verecundo,
Fontes Franciscanas e Clarianas, 1449).
Entre estes momentos de encontro de todos os frades, destaca-se
aquele que aconteceu em Assis, na festa de Pentecostes,
no ano de 1217, que passou para a história como o
Capítulo das Esteiras. É São
Boaventura quem nos dá uma idéia desta grande
reunião fraterna: “Também, já
multiplicados os irmãos no decorrer do tempo, o solícito
pastor começou a convocá-los ao Capítulo
geral no eremitério de Santa Maria da Porciúncula,
a fim de distribuir a cada um deles a porção
da obediência, segundo a medida da distribuição
divina na terra da pobreza (cf. Sl 77,54; Gn 41,52). Aí,
embora houvesse penúria de todas as coisas necessárias
– e uma vez se reunisse uma multidão de mais
de cinco mil irmãos -, no entanto, com a ajuda da
divina clemência, havia suficiência de alimento,
acompanhava uma boa saúde corporal, e fluía
a alegria espiritual”. (Legenda Maior IV,
10, 1-2, Fontes Franciscanas e Clarianas 576).
Imaginemos os frades se preparando para a viagem: hábito
surrado, numa das mãos uma sacola com o mínimo
necessário, na outra um cajado, sandálias
aos pés ou descalços, punham-se a caminho.
A festa de Pentecostes ocorre geralmente entre o fim do
inverno e o início da primavera na Europa. A neve
começa a derreter, aparecem os primeiros brotos nas
árvores, as beiras das estradas se enfeitam de flores,
os pássaros enchem os ares com seus cantos, festejando
a vida que renasce. Os frades viajavam a pé, em grupo
ou dois a dois, cruzando vales e montanhas, estradas poeirentas,
sujeitos a assaltos, às intempéries. Mas viajavam
contentes, pois iriam se encontrar com Francisco, aquele
que lhes tinha mostrado o caminho do seguimento de Cristo
e do seu Evangelho. Muitos frades iriam encontrá-lo
pela primeira vez. Ver Francisco, abraça-lo, ouvi-lo,
conversar com ele, saciar-se na fonte de sua santidade e
sabedoria, poder partilhar com ele as angústias,
dúvidas, incertezas e vitórias, valia qualquer
sacrifício.
Calos nos pés, faces cansadas, hábitos empoeirados
e suados, tudo o que os frades desejavam quando chegavam
a Assis para o Capítulo era um leito macio, um banho
quente, um prato de sopa. Como acomodar todos esses homens?
Onde alojá-los? Como alimenta-los? Os habitantes
de Assis não tiveram dúvida. Organizaram-se
e, generosamente, ofereceram aos frades o que
tinham de melhor. Como abrigo, esteiras. Daí o título
de Capítulo das Esteiras. A mesa era frugal,
mas farta. O cronista Jordão de Jano, um dos primeiros
frades a ser enviado para a missão na Alemanha, nos
dá um relato de um desses Capítulos, realizado
em 1221: “... no ano do Senhor de 1221, no dia 23
de maio... no santo dia de Pentecostes, o bem-aventurado
Francisco celebrou o Capítulo geral em Santa Maria
da Porciúncula. A este Capítulo, conforme
o costume então existente na Ordem, compareceram
tanto os professos quanto os noviços; e os irmãos
que compareceram foram calculados em três mil irmãos.
A este capítulo esteve presente o senhor Rainério,
cardeal diácono, com muitos outros bispos e religiosos.
Por ordem dele, um bispo celebrou a missa. E acredita-se
que o bem-aventurado Francisco então tenha lido o
Evangelho, e outro irmão a epístola. No entanto,
como os irmãos não tivessem casas para tantos
irmãos, acomodavam-se sob esteiras em campo espaçoso
e cercado, comiam e dormiam em vinte e três mesas
dispostas de maneira ordenada... Neste Capítulo,
o povo da terra servia com espírito de prontidão,
fornecendo pão e vinho, alegres por uma reunião
de tantos irmãos e pelo regresso do bem-aventurado
Francisco. Neste Capítulo, o bem-aventurado Francisco,
tendo tomado o tema “Bendito o Senhor meu Deus
que adestra minhas mãos para o combate” (cf.
Sl 18,35), pregou aos irmãos, ensinando as virtudes
e admoestando à paciência e aos exemplos a
dar ao mundo. De modo semelhante era feito o sermão
ao povo: e tanto o povo quanto o clero ficavam edificados.
Quem poderia explicar quanta caridade, paciência,
humildade, obediência e alegria fraterna existiam
naquele tempo entre os irmãos? De fato, não
vi na Ordem um Capítulo como este, tanto pela multidão
dos irmãos quanto pela solenidade dos que serviam.
E embora fosse tão grande a multidão dos irmãos,
no entanto, o povo fornecia tudo tão alegremente
que, após sete dias de Capítulo, os irmãos
foram obrigados a fechar a porta e a nada receber
e a permanecer dois dias a mais para consumirem as coisas
oferecidas e recebidas” (Crônica de Jordão
de Jano, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1270-1271).
Uma vez terminado o Capítulo, os irmãos retornavam
para suas casas, levando na mente e no coração
as palavras e ensinamentos de Francisco, mas também
o carinho e o exemplo de generosidade e doação
dos habitantes de Assis, que tanto amavam Francisco e seus
frades.
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(*) Frei Sandro Roberto
da Costa, 44, é professor de História
da Igreja e de Patrística no Instituto Teológico
Franciscano de Petrópolis (RJ).
É doutor em História da Igreja pela Pontifícia
Universidade Gregoriana de Roma. |
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