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Santo Antônio, uma expressão de amor
Frei Clarêncio Neotti, ofm
Santo Antônio morreu numa sexta-feira, dia 13 de
junho de 1231, em Arcella, hoje bairro da cidade de Pádua.
Só foi levado ao centro da cidade e sepultado cinco
dias depois, ao pôr do sol de uma terça-feira.
O traslado foi um verdadeiro triunfo, porque ao amor que
o Santo tinha por Pádua, os paduanos responderam
com mais amor.
A primeira biografia do Santo, escrita menos de um ano
depois da morte e por um Confrade que esteve presente no
funeral, assim escreve: "O Bispo da cidade com todo
o Clero, o Podestà com grande número de cidadãos
foram a Arcella e, organizadas as procissões, ao
som de hinos, aplausos e cânticos religiosos, com
o admirável júbilo de toda a gente, transportaram
o corpo do bem-aventurado Antônio para a Igreja de
Santa Maria, Mãe de Deus. ... Formou-se um cortejo
enorme de povo que, por causa da multidão, não
podia atravessar a cidade todos juntos. Todos que podiam
carregavam velas acesas. Era tanta a profusão de
luzes que, [anoitecendo], a cidade inteira parecia arder
abrasada em fogo".
O corpo foi sepultado, mas o povo varou a noite e o dia
seguinte e os dias seguintes. Povo anônimo, chegado
de todas as partes até onde se espalhara a notícia
da morte do Santo. Conta a mesma biografia que o povo chegava
com braçadas de flores, sobretudo de lírios,
lírios naturais e lírios trabalhados por artistas
em ouro, prata e outros metais preciosos. E já então,
a terça-feira - dia do sepultamento - ficou sendo
o dia de Santo Antônio.
Dou um salto na história. Vamos juntos a Roma. 13
de junho de 1670. O nosso Padre Antônio Vieira estava
em Roma e pregou o sermão da festa na Igreja de Santo
Antônio dos Portugueses. Um sermão extraordinário,
longo, em que propõe aos cristãos do mundo
inteiro pedir ao Papa dar a Santo Antônio o título
de Magno ou de Máximo; e argumenta com os milagres
do Santo, bem maiores - no dizer de Vieira - que os milagres
feitos por Jesus Cristo. E Vieira provou que não
estava dizendo tolice.
Mas o que eu queria acentuar é o trecho em que ele
conta ser então tradição em Roma, todas
as terças-feiras, desde a madrugada até o
meio-dia, o povo numeroso subir de joelhos os 365 degraus
que levam do pé do Capitólio à Igreja
de Araceli, dos Franciscanos, para venerar Santo Antônio.
E diz Vieira que não se sabia se concorriam mais
homens ou mais mulheres. E diz ainda Vieira que a procissão
era tamanha que alguns párocos foram ao Papa dizer
que era um escândalo tanta devoção a
um santo só (cf. Santo Antônio Luz do Mundo,
p. 276). Ao incomensurável amor de Santo Antônio
pelo povo, pelo povo bom, simples e piedoso, o povo respondia
com aquele incontrolado amor das procissões sem fim.
Amor com amor se paga!
Faço agora um salto geográfico. Vamos juntos
a Salvador da Bahia. 13 de junho de 1638. A Missa celebrava-se
em agradecimento a Santo Antônio, a quem o povo atribuía
a libertação da cidade da invasão holandesa.
Mas os holandeses calvinistas ainda continuavam no Nordeste
e Vieira recordava a Santo Antônio, as igrejas, ermidas
e simbolos religiosos, que os calvinistas costumavam destruir.
E pede ao Santo ajuda para libertar aquela região
do Brasil. Leio parte do apelo, porque mostra o quanto e
até onde o nosso Santo Antônio era venerado.
"Lembrai-vos, glorioso Santo, dos muitos templos e
altares em que éreis venerado e servido naquelas
cidades, naquelas vilas, e em qualquer povoação,
por pequena que fosse, e que nos campos e montes, onde não
havia casa só vós a tínheis. Lembrai-
vos dos empenhos e grandiosas festas com que era celebrado
o vosso dia, e, sobretudo da devoção e confiança
com que a vós recorriam em suas perdas particulares,
e do prontíssimo favor e remédio com que acudíeis
a todos" (cf. Santo Antônio Luz do Mundo).
De novo a extraordinária expressão do amor
e da confiança do povo para com Santo Antônio,
o Santo que amou até o extremo o povo e não
apenas o povo de seu tempo, mas os povos de todos os tempos,
raças e línguas.
Faço outro salto. Vamos juntos à Albânia,
país pouco conhecido no Brasil, país geograficamente
pequeno com apenas três milhões de habitantes.
O país que mais sofreu sob o jugo comunista. Dois
terços da população são muçulmanos.
Do outro terço, metade é de católicos
e metade é da igreja ortodoxa. Ora, na cidade de
Laç, no alto de uma colina, havia um santuário
de Santo Antônio, muito visitado às terças-feiras.
Os comunistas arrasaram o Santuário, carregaram todas
as pedras e transformaram a colina num pasto de vacas.
Estive lá em missão oficial da Ordem Franciscana
logo depois da queda do regime comunista e vi com meus olhos
a desolação e ouvi com meus ouvidos a narração
de como os Frades foram esquartejados e pendurados nas árvores
da praça. Quando nós Frades perguntamos ao
povo o que podíamos fazer de concreto e de imediato,
foi unânime a resposta: "Reconstruam o Santuário
de Santo Antônio"! O Santuário foi reconstruído
e na sua inauguração não se distinguiam
católicos, muçulmanos e ortodoxos. Todos festejavam
o retorno do Santo e do lugar sagrado para eles. Voltaram,
e católicos e muçulmanos e ortodoxos, a subir
a colina do Santo todas as terças-feiras, para agradecer,
pedir e sentir-se protegidos pelo glorioso Santo do povo.
De novo amor sobre amor. Amor por causa do amor. Amor acima
da divisão religiosa, porque Santo Antônio
é, na expressão do Papa Leão XIII,
o Santo do mundo inteiro.
E cá estamos também nós, derramando
aos pés de Santo Antônio todo o nosso carinho,
todas as nossas dificuldades, toda a nossa confiança,
todas as nossas angústias e toda a nossa gratidão.
Como no seu funeral, naquela terça-feira de 1231,
lhe entregamos braçadas de flores e ornamentamos
seu andor com lírios brancos, a flor que simboliza
a divindade do Menino que ele carrega nos braços,
a flor que lembra a castidade do seu coração
e a pureza com que pregava a Palavra de Deus.
Hoje é o dia dos namorados. Por que o Brasil celebra
o dia dos namorados na véspera de Santo Antônio,
enquanto a Europa inteira o celebra na festa de um obscuro
São Valentim, no dia 14 de fevereiro, um santo de
que apenas se sabe que morreu mártir em torno do
ano 270? Sabemos por que os namorados brasileiros escolheram
Santo Antônio como seu padroeiro. Ele o foi já
em vida, porque saiu em defesa do direito de todas as moças
se casarem e conseguiu da Autoridade civil a revogação
do decreto que permitia o matrimônio e a maternidade
só às moças que podiam pagar o dote,
ou seja, uma soma em dinheiro ou em bens ao possível
sogro. Em outras palavras, Antônio saiu em defesa
da igualdade de direitos de todas as moças, indistintamente
se ricas, se pobres. Porque o amor é direito de todos.
Ao Santo que defendeu o direito de amar, os namorados vêm
consagrar o seu amor, vêm pedir as bênçãos
para seu futuro.
Os contemporâneos de Santo Antônio são
unânimes em afirmar que ele amava a todos e não
discriminava ninguém (91). Mas sempre lembrava aos
ricos a obrigação de repartir suas posses
com os pobres. É uma questão de justiça
- ensinava ele - mas é também uma questão
de amor fraterno. Aos apegados às riquezas dizia
que "só lhes pertencia o que pudessem levar
consigo na hora da morte (Sermão para o XI Domingo
depois de Pentecostes).
Glorioso Santo Antônio, afastai de nós tudo
o que impede o amor. Fazei de nós um povo que saiba
amar e transformar o amor em solidariedade, perdão
e unidade. Um povo que saiba revestir seus gestos de amor
com as roupas luminosas da ternura, da esperança
e da alegria. E assim seremos um povo de paz, um povo cristão.
Amém.
(91) Diz, por exemplo, a Legenda "Benignitas":
'Jamais se deixava aliciar por influências de poderosos
ou subornar por lisonjas interesseiras nem tampouco sensibilizar
por aplausos do público. Pelo contrário, quer
se dirigisse a auditórios distintos ou vulgares,
invariavelmente expunha a doutrina com a mesma isenção,
atingindo a todos com os dardos da verdade. ... O servo
do Senhor, com a chama da palavra fascinante, ardente, incandescente,
aquecia e queimava os corações dos ouvintes,
estivessem eles apenas mornos e entorpecidos, ou já
enregelados e tenebrosos" (II, p. 20).
Do Livro Santo Antônio Simpatia de Deus e do
Povo, de Frei Clarêncio Neotti, ofm, Editora Marques
Saraiva.
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