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Os Santuários das terças-feiras
Frei Alberto Beckhäuser
Normalmente os santos são celebrados a partir do
seu natal, isto é, do dia do seu nascimento para
a eternidade, a páscoa definitiva. Celebra-se neles
a Páscoa de Cristo num ciclo anual.
Há alguns santos que gozam de uma dupla comemoração.
Lembramos aqui São João Batista e São
Pedro e São Paulo, que têm duas festas anuais.
Nossa Senhora naturalmente ocupa um lugar privilegiado.
Através dos dogmas marianos e de outros títulos,
ela acompanha todo o ano litúrgico, evocando os mais
diversos mistérios de Cristo e da Igreja. Além
disso, como sinal da consumação, é
comemorada em cada fim de semana, aos sábados. Além
de estar presente no final de cada dia nas Completas, através
da antífona final.
Outros santos, além de terem sua comemoração
anual, têm também um retorno mensal. É
o caso de São Judas Tadeu, no dia 28 de cada mês.
Santo Antônio, além de Nossa Senhora, é
o único santo, que eu saiba, comemorado, no ciclo
semanal da comemoração do mistério
de Cristo. É a devoção a Santo Antônio
das terças-feiras.
Foi a devoção popular que o colocou nesta
situação privilegiada. A origem dessa comemoração
semanal estaria no fato de ele ter morrido numa terça-feira.
Podemos dizer, então, que o povo celebra semanalmente
o "dies natalis de Santo Antônio", a Páscoa
de Santo Antônio, e nele a Páscoa de Cristo.
Esta celebração se liga às igrejas
conventuais dos franciscanos e a tantas outras igrejas que
o têm como padroeiro. Este culto se expressa por celebrações
eucarísticas, bênçãos do Santíssimo
com a Ladainha de Santo Antônio, a Bênção
de Santo Antônio, a distribuição do
'Pão de Santo Antônio' e outras obras caritativas,
muitas vezes exercidas pelas "Pias Uniões de
Santo Antônio". Há paróquias em
que toda a pastoral social está ligada a esta devoção.
A devoção a Santo Antônio faz parte
da devoção popular. Num âmbito acima
das comunidades paroquiais, ela está ligada a certas
igrejas, por serem de comunidades franciscanas ou por terem
como patrono Santo Antônio.
Assim, todo este fenômeno popular da devoção
a Santo Antônio nos leva a refletir sobre a Pastoral
dos Santuários. Por isso, nos parece oportuno refletir
sobre o sentido e o valor dos santuários e das romarias
ou peregrinações na vida cristã.
Deus se revela e se comunica de muitas formas para encontrar-se
com o ser humano e conduzi-lo a si, à santidade.
Deus manifesta-se e age de modo especial em alguns lugares,
que, por isso mesmo, começam a ser chamados de santuários.
São lugares que por motivos históricos ou
topográficos, como montanhas, rios, grutas, começam
a ser lugares de uma experiência religiosa forte.
Este fenômeno existe em todos os povos, ligado a todas
as religiões.
Na tradição cristã, os primeiros lugares
procurados como lugares santos ou santuários são
os lugares santificados por Jesus Cristo e sua santíssima
Mãe, a Terra Santa, a Palestina. Depois, os túmulos
dos santos apóstolos Pedro e Paulo, em Roma; daí
a palavra romaria, ida a Roma, e, mais tarde, o túmulo
de São Tiago em Compostela, na Espanha, donde o célebre
'Caminho de Santiago'.
Os santuários cristãos estão, pois,
ligados a mistérios de Cristo, de Maria ou dos santos:
uma imagem, uma aparição. Tais lugares transformam-se
em lugares de conversão e de graças. Ligada
aos santuários surge, então, a peregrinação
ou romaria; para nós, sinônimo de peregrinação.,
Existem santuários com peregrinações
coletivas organizadas e santuários onde há
uma freqüência de numerosos fiéis por
iniciativa individual em certos dias do ano, do mês
ou da semana, como é o caso das igrejas de Santo
Antônio.
Há manifestações próprias de
todos os santuários e outras manifestações
próprias da vida da comunidade eclesial, como a paróquia.
São próprios da vida cristã na paróquia:
os sacramentos da iniciação cristã,
o Batismo, a Crisma, a Primeira Eucaristia; a vida eucarística
normal, a Penitência comunitária, a Unção
dos Enfermos, a celebração do Matrimônio,
a promoção da caridade, a participação
nas diversas pastorais.
Constituem expressões próprias de todos os
santuários a experiência da Igreja peregrina,
da Igreja universal, que ultrapassa o âmbito da paróquia
ou mesmo da diocese.
Fundamentalmente temos os seguintes elementos na experiência
religiosa nos santuários: o caminho, com a preparação
e a partida; o santuário, simbolizando a Jerusalém
celeste; os agentes pastorais, onde temos o acolhimento
e o serviço aos visitantes; as práticas religiosas
no santuário, como a Palavra de Deus, a oração,
os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, certas
renovações de compromissos cristãos,
o cumprimento de promessas e a bênção;
o caminho de volta com o envio para o cotidiano.
Subjacente a tudo está a conversão.
Além disso, cada santuário tem sua mensagem
própria, conforme for dedicado a Cristo, a Maria
ou a algum santo.
Assim chegamos aos santuários de Santo Antônio,
sejam eles igrejas paroquiais ou conventuais. O ritmo da
afluência do povo é semanal: às terças-feiras.
A devoção a Santo Antônio está
de certa maneira ligada à semana litúrgica.
No domingo a Igreja celebra todo o mistério pascal:
Paixão-Morte e Ressurreição de Cristo
e dos cristãos; a segunda-feira é marcada
pelo mistério de Pentecostes, pela vocação
da Igreja; a terça-feira caracteriza a missão
da Igreja, o anúncio, a pregação, o
apostolado. Santo Antônio é, por excelência,
o pregador do Evangelho. A pregação, o testemunho
do Evangelho, suscita a perseguição, o martírio:
é a quarta-feira. Por isso, quarta-feira é
o dia dos mártires, dos padroeiros, de São
José. Na quinta-feira são comemorados os mistérios
de Quinta-feira Santa: o novo mandamento, a fraternidade,
o sacerdócio, a Eucaristia. A sexta-feira está
ligada à Sexta-feira Santa: Paixão, sofrimento,
pecado, conversão, penitência. E no sábado
a Igreja evoca de modo especial a escatologia, a consumação,
as realidades últimas, contempladas em Maria. Por
isso, o sábado é dedicado a Nossa Senhora.
As missas votivas durante a semana vão nesta direção.
Tomemos como exemplo a igreja do Convento de Santo Antônio
no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Ela não é
oficializada como santuário. De fato o é.
Nesta igreja do Convento Santo Antônio temos vários
elementos que fazem com que os cristãos a procurem:
Santo Antônio, tão rico em mensagem e em proposta
de vida cristã, tão ligado à vida e
à história do povo carioca. A imagem de Santo
Antônio do relento, no frontispício do convento,
que acompanhou as vicissitudes da cidade do Rio de Janeiro.
A presença, desde os inícios da cidade, dos
frades franciscanos, que procuram transmitir a mensagem
de Santo Antônio ao povo cristão da cidade.
O próprio Morro de Santo Antônio tem seu significado.
Chegar até aquela colina exige a superação
de dificuldades. O alto, o morro chamado Morro de Santo
Antônio, lembra a montanha, que sempre foi símbolo
da presença de Deus, símbolo dos ideais mais
sublimes do ser humano.
Às terças-feiras a afluência do povo
à igreja do convento é enorme. Das 6 até
às 20 horas, o movimento é ininterrupto. São
realizadas 19 celebrações. São nove
celebrações eucarísticas com pregação
e dez celebrações da Bênção
de Santo Antônio, com proclamação da
Palavra de Deus, pregação, preces, comunhão
eucarística, finalizando com a Bênção
pela intercessão de Santo Antônio. São
verdadeiras celebrações da Palavra de Deus
com duração de 20 minutos.
Além disso, as numerosas confissões durante
todo o dia, o plantão de atendimento de pessoas com
os mais diversos problemas e o constante atendimento na
portaria. É a Pastoral da acolhida e do atendimento.
Fenômeno de grande riqueza de evangelização
constitui a Trezena de Santo Antônio, culminando em
sua festa a 13 de junho. Neste dia passa pela pequena igreja
do Convento verdadeira corrente humana, desde o amanhecer
até altas horas da noite. Uma admirável expressão
de fé e de vida cristã!
Acontecem ainda a distribuição de pão
doado pelos fiéis e a entrega de uma cesta básica
a cerca de 500 famílias necessitadas, cadastradas
e acompanhadas pela Pia União de Santo Antônio.
A igreja de Santo Antônio tem, pois, uma mensagem
a transmitir: A vida evangélica de seguimento de
Cristo, que Santo Antônio viveu; a conversão,
a vida de oração, a vida em Igreja, a pregação
do Evangelho, o apostolado, que se traduz sobretudo na prática
da caridade, simbolizada pelo pão de Santo Antônio.
Os frades que moram e trabalham no convento, na portaria,
no atendimento a tantas pessoas que vêm em busca de
conforto, os que exercem o ministério da reconciliação
através do sacramento da Penitência, os que
presidem as celebrações da Palavra de Deus,
da Eucaristia e celebrações de bênçãos,
todos eles procuram corresponder àquilo que Jesus
Cristo deseja realizar pela intercessão de Santo
Antônio.
A igreja de Santo Antônio não é paróquia,
mas a ela acorrem fiéis de todas as paróquias
da cidade do Rio de Janeiro, de toda a arquidiocese e de
outras cidades da Baixada Fluminense. Os devotos de Santo
Antônio são incentivados a participarem ativamente
da vida e da ação pastoral de suas comunidades
paroquiais.
Realmente, aos poucos está-se verificando uma integração
entre a pastoral orgânica das Igrejas particulares,
posta em prática pelas Paróquias, e a Pastoral
dos Santuários. Uma não exclui a outra. Deve
haver, sim, uma mútua fecundação.
A Pastoral paroquial, respeitando e incentivando o fenômeno
religioso das peregrinações e dos Santuários
e a Pastoral dos santuários, sempre a serviço
das comunidades eclesiais.
Neste apostolado, a fraternidade franciscana do Convento
de Santo Antônio conta com zelosos colaboradores,
sobretudo com a Pia União de Santo Antônio
e a Fraternidade da Ordem Franciscana Secular, e com muitos
benfeitores, amigos e devotos de Santo Antônio.
Por todo o Brasil espalham-se muitas outras igrejas como
verdadeiros santuários de Santo Antônio. São
cerca de trinta catedrais ou cidades que têm como
patrono Santo Antônio; numerosas igrejas paroquiais
ou conventuais e capelas. Dificilmente se encontrará
no Brasil uma igreja que não tenha uma imagem de
Santo Antônio. Todas elas, de algum modo, às
terças-feiras se transformam em santuários
de Santo Antônio.
Em 1995, comemora-se o 8° Centenário do nascimento
do Santo mais popular no Brasil. A devoção
a Santo Antônio constitui elemento integrante da tradição
religiosa do povo brasileiro. Esteve presente desde o início
de sua evangelização e continua vivo em nossos
dias.
Por isso, na nova evangelização e no aprofundamento
da fé cristã do povo brasileiro, a devoção
aos santos em geral e, especialmente, a Santo Antônio,
terá que ser respeitada e cultivada na Pastoral da
Igreja no Brasil. Importa estar atenta ao que o nosso povo
tem como seu e valoriza, para, a partir daí, ajudá-lo
a encontrar sempre mais intensamente a Cristo e chegar,
por Cristo, ao Pai em comunhão com o Espírito
Santo.
A nova evangelização no Brasil passa pelo
culto dos santos, e de modo especial por Santo Antônio,
quando este santo vem apresentado por João Paulo
II como um homem 'enamorado de Cristo e do seu Evangelho'.
Texto do livro "Santo Antônio, através
de Suas Imagens", de Frei Alberto Beckhäuser,
ofm., Vozes, 1995.
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