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       São Paulo, 13/02/2012, 05:50          
 
 

Os Santuários das terças-feiras

Frei Alberto Beckhäuser

Normalmente os santos são celebrados a partir do seu natal, isto é, do dia do seu nascimento para a eternidade, a páscoa definitiva. Celebra-se neles a Páscoa de Cristo num ciclo anual.

Há alguns santos que gozam de uma dupla comemoração. Lembramos aqui São João Batista e São Pedro e São Paulo, que têm duas festas anuais.

Nossa Senhora naturalmente ocupa um lugar privilegiado. Através dos dogmas marianos e de outros títulos, ela acompanha todo o ano litúrgico, evocando os mais diversos mistérios de Cristo e da Igreja. Além disso, como sinal da consumação, é comemorada em cada fim de semana, aos sábados. Além de estar presente no final de cada dia nas Completas, através da antífona final.

Outros santos, além de terem sua comemoração anual, têm também um retorno mensal. É o caso de São Judas Tadeu, no dia 28 de cada mês.
Santo Antônio, além de Nossa Senhora, é o único santo, que eu saiba, comemorado, no ciclo semanal da comemoração do mistério de Cristo. É a devoção a Santo Antônio das terças-feiras.

Foi a devoção popular que o colocou nesta situação privilegiada. A origem dessa comemoração semanal estaria no fato de ele ter morrido numa terça-feira. Podemos dizer, então, que o povo celebra semanalmente o "dies natalis de Santo Antônio", a Páscoa de Santo Antônio, e nele a Páscoa de Cristo.

Esta celebração se liga às igrejas conventuais dos franciscanos e a tantas outras igrejas que o têm como padroeiro. Este culto se expressa por celebrações eucarísticas, bênçãos do Santíssimo com a Ladainha de Santo Antônio, a Bênção de Santo Antônio, a distribuição do 'Pão de Santo Antônio' e outras obras caritativas, muitas vezes exercidas pelas "Pias Uniões de Santo Antônio". Há paróquias em que toda a pastoral social está ligada a esta devoção.

A devoção a Santo Antônio faz parte da devoção popular. Num âmbito acima das comunidades paroquiais, ela está ligada a certas igrejas, por serem de comunidades franciscanas ou por terem como patrono Santo Antônio.

Assim, todo este fenômeno popular da devoção a Santo Antônio nos leva a refletir sobre a Pastoral dos Santuários. Por isso, nos parece oportuno refletir sobre o sentido e o valor dos santuários e das romarias ou peregrinações na vida cristã.

Deus se revela e se comunica de muitas formas para encontrar-se com o ser humano e conduzi-lo a si, à santidade. Deus manifesta-se e age de modo especial em alguns lugares, que, por isso mesmo, começam a ser chamados de santuários. São lugares que por motivos históricos ou topográficos, como montanhas, rios, grutas, começam a ser lugares de uma experiência religiosa forte. Este fenômeno existe em todos os povos, ligado a todas as religiões.

Na tradição cristã, os primeiros lugares procurados como lugares santos ou santuários são os lugares santificados por Jesus Cristo e sua santíssima Mãe, a Terra Santa, a Palestina. Depois, os túmulos dos santos apóstolos Pedro e Paulo, em Roma; daí a palavra romaria, ida a Roma, e, mais tarde, o túmulo de São Tiago em Compostela, na Espanha, donde o célebre 'Caminho de Santiago'.

Os santuários cristãos estão, pois, ligados a mistérios de Cristo, de Maria ou dos santos: uma imagem, uma aparição. Tais lugares transformam-se em lugares de conversão e de graças. Ligada aos santuários surge, então, a peregrinação ou romaria; para nós, sinônimo de peregrinação.,

Existem santuários com peregrinações coletivas organizadas e santuários onde há uma freqüência de numerosos fiéis por iniciativa individual em certos dias do ano, do mês ou da semana, como é o caso das igrejas de Santo Antônio.

Há manifestações próprias de todos os santuários e outras manifestações próprias da vida da comunidade eclesial, como a paróquia.

São próprios da vida cristã na paróquia: os sacramentos da iniciação cristã, o Batismo, a Crisma, a Primeira Eucaristia; a vida eucarística normal, a Penitência comunitária, a Unção dos Enfermos, a celebração do Matrimônio, a promoção da caridade, a participação nas diversas pastorais.

Constituem expressões próprias de todos os santuários a experiência da Igreja peregrina, da Igreja universal, que ultrapassa o âmbito da paróquia ou mesmo da diocese.

Fundamentalmente temos os seguintes elementos na experiência religiosa nos santuários: o caminho, com a preparação e a partida; o santuário, simbolizando a Jerusalém celeste; os agentes pastorais, onde temos o acolhimento e o serviço aos visitantes; as práticas religiosas no santuário, como a Palavra de Deus, a oração, os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, certas renovações de compromissos cristãos, o cumprimento de promessas e a bênção; o caminho de volta com o envio para o cotidiano.

Subjacente a tudo está a conversão.

Além disso, cada santuário tem sua mensagem própria, conforme for dedicado a Cristo, a Maria ou a algum santo.

Assim chegamos aos santuários de Santo Antônio, sejam eles igrejas paroquiais ou conventuais. O ritmo da afluência do povo é semanal: às terças-feiras.

A devoção a Santo Antônio está de certa maneira ligada à semana litúrgica. No domingo a Igreja celebra todo o mistério pascal: Paixão-Morte e Ressurreição de Cristo e dos cristãos; a segunda-feira é marcada pelo mistério de Pentecostes, pela vocação da Igreja; a terça-feira caracteriza a missão da Igreja, o anúncio, a pregação, o apostolado. Santo Antônio é, por excelência, o pregador do Evangelho. A pregação, o testemunho do Evangelho, suscita a perseguição, o martírio: é a quarta-feira. Por isso, quarta-feira é o dia dos mártires, dos padroeiros, de São José. Na quinta-feira são comemorados os mistérios de Quinta-feira Santa: o novo mandamento, a fraternidade, o sacerdócio, a Eucaristia. A sexta-feira está ligada à Sexta-feira Santa: Paixão, sofrimento, pecado, conversão, penitência. E no sábado a Igreja evoca de modo especial a escatologia, a consumação, as realidades últimas, contempladas em Maria. Por isso, o sábado é dedicado a Nossa Senhora. As missas votivas durante a semana vão nesta direção.

Tomemos como exemplo a igreja do Convento de Santo Antônio no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Ela não é oficializada como santuário. De fato o é.

Nesta igreja do Convento Santo Antônio temos vários elementos que fazem com que os cristãos a procurem: Santo Antônio, tão rico em mensagem e em proposta de vida cristã, tão ligado à vida e à história do povo carioca. A imagem de Santo Antônio do relento, no frontispício do convento, que acompanhou as vicissitudes da cidade do Rio de Janeiro. A presença, desde os inícios da cidade, dos frades franciscanos, que procuram transmitir a mensagem de Santo Antônio ao povo cristão da cidade. O próprio Morro de Santo Antônio tem seu significado. Chegar até aquela colina exige a superação de dificuldades. O alto, o morro chamado Morro de Santo Antônio, lembra a montanha, que sempre foi símbolo da presença de Deus, símbolo dos ideais mais sublimes do ser humano.

Às terças-feiras a afluência do povo à igreja do convento é enorme. Das 6 até às 20 horas, o movimento é ininterrupto. São realizadas 19 celebrações. São nove celebrações eucarísticas com pregação e dez celebrações da Bênção de Santo Antônio, com proclamação da Palavra de Deus, pregação, preces, comunhão eucarística, finalizando com a Bênção pela intercessão de Santo Antônio. São verdadeiras celebrações da Palavra de Deus com duração de 20 minutos.

Além disso, as numerosas confissões durante todo o dia, o plantão de atendimento de pessoas com os mais diversos problemas e o constante atendimento na portaria. É a Pastoral da acolhida e do atendimento.

Fenômeno de grande riqueza de evangelização constitui a Trezena de Santo Antônio, culminando em sua festa a 13 de junho. Neste dia passa pela pequena igreja do Convento verdadeira corrente humana, desde o amanhecer até altas horas da noite. Uma admirável expressão de fé e de vida cristã!

Acontecem ainda a distribuição de pão doado pelos fiéis e a entrega de uma cesta básica a cerca de 500 famílias necessitadas, cadastradas e acompanhadas pela Pia União de Santo Antônio.

A igreja de Santo Antônio tem, pois, uma mensagem a transmitir: A vida evangélica de seguimento de Cristo, que Santo Antônio viveu; a conversão, a vida de oração, a vida em Igreja, a pregação do Evangelho, o apostolado, que se traduz sobretudo na prática da caridade, simbolizada pelo pão de Santo Antônio.

Os frades que moram e trabalham no convento, na portaria, no atendimento a tantas pessoas que vêm em busca de conforto, os que exercem o ministério da reconciliação através do sacramento da Penitência, os que presidem as celebrações da Palavra de Deus, da Eucaristia e celebrações de bênçãos, todos eles procuram corresponder àquilo que Jesus Cristo deseja realizar pela intercessão de Santo Antônio.

A igreja de Santo Antônio não é paróquia, mas a ela acorrem fiéis de todas as paróquias da cidade do Rio de Janeiro, de toda a arquidiocese e de outras cidades da Baixada Fluminense. Os devotos de Santo Antônio são incentivados a participarem ativamente da vida e da ação pastoral de suas comunidades paroquiais.

Realmente, aos poucos está-se verificando uma integração entre a pastoral orgânica das Igrejas particulares, posta em prática pelas Paróquias, e a Pastoral dos Santuários. Uma não exclui a outra. Deve haver, sim, uma mútua fecundação.

A Pastoral paroquial, respeitando e incentivando o fenômeno religioso das peregrinações e dos Santuários e a Pastoral dos santuários, sempre a serviço das comunidades eclesiais.

Neste apostolado, a fraternidade franciscana do Convento de Santo Antônio conta com zelosos colaboradores, sobretudo com a Pia União de Santo Antônio e a Fraternidade da Ordem Franciscana Secular, e com muitos benfeitores, amigos e devotos de Santo Antônio.

Por todo o Brasil espalham-se muitas outras igrejas como verdadeiros santuários de Santo Antônio. São cerca de trinta catedrais ou cidades que têm como patrono Santo Antônio; numerosas igrejas paroquiais ou conventuais e capelas. Dificilmente se encontrará no Brasil uma igreja que não tenha uma imagem de Santo Antônio. Todas elas, de algum modo, às terças-feiras se transformam em santuários de Santo Antônio.

Em 1995, comemora-se o 8° Centenário do nascimento do Santo mais popular no Brasil. A devoção a Santo Antônio constitui elemento integrante da tradição religiosa do povo brasileiro. Esteve presente desde o início de sua evangelização e continua vivo em nossos dias.

Por isso, na nova evangelização e no aprofundamento da fé cristã do povo brasileiro, a devoção aos santos em geral e, especialmente, a Santo Antônio, terá que ser respeitada e cultivada na Pastoral da Igreja no Brasil. Importa estar atenta ao que o nosso povo tem como seu e valoriza, para, a partir daí, ajudá-lo a encontrar sempre mais intensamente a Cristo e chegar, por Cristo, ao Pai em comunhão com o Espírito Santo.
A nova evangelização no Brasil passa pelo culto dos santos, e de modo especial por Santo Antônio, quando este santo vem apresentado por João Paulo II como um homem 'enamorado de Cristo e do seu Evangelho'.

Texto do livro "Santo Antônio, através de Suas Imagens", de Frei Alberto Beckhäuser, ofm., Vozes, 1995.