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I - A missão
comum de nossas Fraternidades
Todo o relacionamento pessoal com o Senhor,
todos os carismas religiosos englobam dois elementos
inseparáveis entre si, vocação
e missão: "segui-me" e "ide",
testemunhai entre os povos o que vistes. O Senhor
nos chama para fazer-nos seus discípulos
e testemunhas no mundo inteiro. Assim, inserimo-nos
na história como memória viva
do Evangelho de Jesus Cristo, sempre prontos
a inventar as formas mais apropriadas de testemunhar
e anunciar o Reino de Deus já presente
em nosso meio. Como irmãs e irmãos
de Clara e Francisco, temos uma mensagem bem
definida a anunciar, ainda que com modalidades
diferentes; nossas Regras indicam claramente
os elementos fundamentais que caracterizam esta
caminhada.
Viver e testemunhar o Evangelho
"Vejo que são a humildade, a
força da fé e os braços
da pobreza que a levaram a abraçar o
tesouro incomparável escondido no campo
do mundo e dos corações humanos,
com o qual se compra aquele por quem tudo foi
feito do nada. Eu a considero, num bom uso das
palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio
Deus, sustentáculo dos membros vacilantes
de seu corpo inefável" (3CtIn
7-8).
A regra de vida comum a toda a Família
franciscana consiste em "viver o santo
Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo"
(cf. RegB 1,1; RegCl 1,2; RegOFS 4), desejando
acima de tudo "ter o espírito do
Senhor e seu santo modo de operar" (RegB
10,8; RegCl 10,9), tendo como prioridade absoluta
a oração e a contemplação
(cf. RegB 5,2; RegCl 7,2). Também o percurso
é único e bem definido: a humildade
e a pobreza do Senhor nosso Jesus Cristo e de
sua Mãe pobrezinha. Clara diz explicitamente:
"O Filho de Deus fez-se nosso caminho"
(TestCl 5). A existência pobre de Jesus
de Nazaré, de Belém ao Calvário,
como epifania de Deus, tornou-se uma experiência
espiritual totalizante e revolucionária
na vida de Francisco e Clara: esta paixão
configura-os totalmente a Cristo e não
aceitarão comentários acomodatícios
ou reduções até os últimos
anos de sua vida. A quem lhe propõe outros
modos de servir o Senhor, outras Regras já
experimentadas e melhor organizadas, Francisco
responde: "O Senhor me disse que queria
fazer de mim um novo louco no mundo, e não
quer conduzir-nos por outro caminho senão
por esta sabedoria" (LegPer 114). E ao
Papa, que queria aliviar sua pobreza, Clara,
indo muito além do voto, responde: "Pai
santo, por preço algum quero ser dispensada
de
seguir Cristo para sempre" (LegCl 14).
Esta é, pois, nossa vocação,
nossa "ciência", nossa diaconia:
tornar-nos sempre mais ouvintes e fiéis
realizadores da Palavra evangélica, contemplando
e seguindo Jesus pobre até o fim. Desta
identidade clara e concreta originam-se as diferentes
e complementares formas de evangelização,
as diversas missões franciscano-clarianas
na Igreja de Deus em vista de seu Reino.
Os "Frades menores" espalham-se pelo
mundo, que se torna seu "claustro"
(cf. SCom 63), o lugar das relações
fraternas e contemplativas (cf. RegNB 16). "Pois
para isto Ele [o Senhor) vos mandou pelo mundo
universo, para dardes testemunho de sua voz,
por vossas palavras e vossas obras, e fazerdes
saber a todos que ninguém é todo-poderoso
senão Ele (COrd 9).
As "Irmãs pobres", a partir
do "claustro" de sua interioridade,
seguindo o exemplo de Maria, (cf. 3CtIn 19)
tornam-se acolhimento, morada e ícone
do Deus de amor; e este testemunho se "reflete"
e se projeta no mundo inteiro. A clausura se
abre ao universo e se torna lugar e espaço
de relacionamento, como o estreito espaço
do jardim de São Damião se transformou
para Francisco, padecente e quase cego, em visão
e canto de toda a criação. Não
vamos para a clausura para refugiar-nos ou para
fugir das dificuldades do mundo, mas sobretudo
para viver o acolhimento, para participar mais
profundamente da vida dos homens nas suas aspirações
mais secretas e desconhecidas, para esforçar-nos
por construir uma história humana segundo
o projeto de Deus que só os santos e
os profetas sabem intuir.
Tomando uma dimensão universal, a clausura
de Clara é vivida e transformada por
uma dinâmica espiritual que não
tem limites. Antes da doença, é
fortemente tentada a partir até para
Marrocos, onde os primeiros Frades haviam confessado
sua fé com o "martírio"
(cf. ProcC 6,6); nos últimos 30 anos,
através do "martírio"
de sua enfermidade, viverá uma incrível
multiplicidade de relações de
amizade: recebe visitas do Papa, de Cardeais,
de Frades, de pessoas humildes e de pessoas
importantes... É o fogo do amor que arde
em seu "claustro" e que inflama todo
o tipo de relacionamento (cf. Fior 15), muito
mais do que qualquer limitação
imposta pela clausura. Clara é uma verdadeira
"mística": arde numa paixão
única que a configura a Cristo. Tudo
o mais torna-se "relativo" e convergente
para este "centro".
Quanto desperdício de energias e de
"boa vontade" se nota em alguns mosteiros,
quando nem todas as forças são
dirigidas para a busca da unidade, para o Essencial.
O "gênio feminino" resplende
na sua riqueza exatamente quando intui o essencial
e consegue dar o justo valor ao secundário.
A caminho da Cruz
"Se você sofrer com ele, com
ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai
se alegrar; se morrer com ele na cruz da tribulação
vai ter com ele mansão celeste nos esplendores
dos santos" (2CtIn 21).
"Quando eu for levantado da terra, atrairei
todos a mim" (Jo 12,32): do alto da cruz,
Jesus tornou-se oferta de salvação
para todos os homens. Seguindo Francisco em
suas andanças missionárias, chegamos
às chagas do Alverne; seguindo Clara
na sua clausura, chegamos ao leito do sofrimento,
da enfermidade, que inicia no tempo das chagas
do Poverello e se prolonga por quase metade
de sua vida. Constatamos mais uma vez uma surpreendente
complementaridade de carisma: duas estradas
igualmente "missionárias",
a da itinerância e a da clausura, que
conduzem à idêntica meta, a da
cruz. O amante quer ficar perto do Amado, não
só no caminho da pobreza, mas também
no do sofrimento (cf. 2CtIrz 19), para completar
na própria carne o que falta aos sofrimentos
de Cristo (cf. Cl 1,24). Não basta ouvir
e servir, é preciso também partilhar
o destino de Jesus e tomar sua cruz (cf. Lc
9,23-24).
A lógica evangélica da não-eficiência,
da não-espetacularidade, dos resultados
não-vistosos é sempre perturbadora:
assim foi para os discípulos de Jesus
e será para todos os fiéis, neste
peregrinar terreno. O "mundo" não
pode aceitar esta lógica: nosso mundo
fundamenta-se exatamente sobre a eficiência
que, a partir desta base, cria uma série
de "psicoses" do resultado, do "fazer",
da aparência, do garantir para si o presente
e o futuro, do sucesso em todos os níveis:
trabalho, afetos, negócios, fama... Infelizmente,
estas psicoses não nos são estranhas:
conta quem é capaz de produzir mais.
Enquanto o "milagre" de Clara e Francisco,
fiéis ao Evangelho, é o de um
grande abandono naquele que continua a nutrir
uma incrível confiança a nosso
respeito. Eles responderam de forma apaixonada
à paixão que Deus tem pelo homem;
viveram com audácia o desafio da pobreza
absoluta, que conduz necessariamente à
cruz, à impotência, como caminho
de vida.
Todas as atividades missionárias estarão,
pois, sujeitas à lógica da semente
que deve morrer para frutificar.
A eficácia "missionária"
de Francisco atinge o cume na última
etapa de sua vida, a da assemelhação
a Cristo no Alverne: depõe sua experiência
espiritual no seio da Igreja, ao lado da cruz,
restitui esta aventura evangélica ao
Pai e a oferece como um "dom" missionário
a muitos irmãos e irmãs que o
teriam seguido ao longo dos séculos,
fascinados por seu exemplo. É uma liberdade
reencontrada exatamente no tempo da "grande
prova", quando já não sabe
o que fazer: então decide restituir a
Deus o projeto evangélico elaborado durante
toda a vida e que agora descobre não
ser seu; restituir os Frades que não
são seus, sua vida que não é
sua...
O que dizer de Clara, dos anos de sua enfermidade,
"inúteis" segundo uma mentalidade
do resultado, mas muito ricos e significativos
diante de Deus! Precisamente quando Francisco,
muito rapidamente, veio a faltar aos Frades
e às Irmãs, a presença
de Clara em boa saúde, com todas as suas
energias, em nosso modo de ver teria podido
"fazer muito" para a Família
franciscana das origens; teria podido fundar
muitos outros Mosteiros, animar muitas outras
Irmãs... No entanto, o Senhor "fez
muito" através de sua pobreza, de
sua enfermidade, de sua inatividade! Naqueles
primeiríssimos anos da vida da Ordem,
irão outras Irmãs, mandadas por
ela e por Francisco.
Mas quanto nos é difícil assimilar
estes valores, quando, ao nosso redor, o "mundo"
fala outra linguagem e nos estimula a aceitar
suas seduções. Bem sabemos que
nossa eficácia está ligada à
fecundidade divina; que nossos serviços,
estruturas, atividades apostólicas devem
estar em função de nosso ser memória
viva do Evangelho de Jesus. Este é o
primeiro serviço que devemos prestar
à Igreja e ao mundo, antes mesmo de qualquer
outra atividade: é a qualidade de nossa
vida que dá significado à quantidade
de nossos esforços, que devem relacionar-se
a esta dimensão existencial na qual todos
nos percebemos "missionários, enviados",
quer permaneçamos num mosteiro, quer
percorramos as estradas do mundo; quer rezemos,
quer preguemos; quer tenhamos saúde,
quer estejamos doentes. Conservarei sempre em
meu coração muitos rostos radiantes
de Irmãs jovens e idosas encontradas
em diversas visitas, que deixam transparecer,
como palavra viva, o absoluto de Deus que as
habita; de Irmãs enfermas que, purificadas
pelo sofrimento como Clara, ícones vivos,
semelhantes ao Crucifixo de São Damião,
exprimem uma humanidade sofredora, mas já
transfigurada e gloriosa: tornaram-se espera
vibrante do Esposo que vem, enquanto seu corpo,
puro invólucro transparente, deixa entrever
a presença libertadora de Deus. Que missão
extraordinária é esta!
Recordo o exemplo de uma clarissa do século
XV, Catarina de Bolonha. No fim da vida, sofrendo
muito, numa visão recebeu a ordem de
pôr-se a tocar uma viola. Catarina não
tocava desde que, adolescente, havia deixado
a corte de Bolonha para entrar no mosteiro;
mas diante da ordem divina pediu que lhe trouxessem
uma viola e compôs ela mesma um pequeno
hino, com um texto tirado do profeta Isaías:
"Gloria eius in te videbitur". Assim,
mostrava às Irmãs que a glória
do Onipotente se manifesta também na
fraqueza de uma mulher sofredora. Ainda hoje
conservada no mosteiro Corpus Domini de Bolonha,
a viola nos recorda que a vida de cada um de
nós, em sua fraqueza, pode tornar-se
um instrumento para cantar a grandeza de Deus.
Queridas Irmãs, quem sabe ainda podeis
ajudar-nos a reencontrar o sentido profundo
de nossa missão, o valor "relativo"
de todas as nossas atividades, sabendo que uma
pessoa pode realizar-se somente se descobrir
sua verdadeira face, "espelhando-se"
em Jesus de Nazaré, no seu Evangelho,
na contemplação como prioridade.
Na busca de nossa identidade, com freqüência
somos mais propensos a olhar para o passado
- e corremos o risco de fechar-nos sempre mais
- do que para o futuro, para o qual somos projetados.
O afã de sobreviver pode destruir a esperança,
a criatividade e a abertura ao Espírito
do Senhor.
A própria velhice nem sempre é
só um limite, pois é também
testemunho de síntese espiritual e relacional,
harmonia dos valores serenamente vividos. Também
esta etapa da vida deve ser evangelizada e acompanhada,
para que se torne manifestação
de Deus, como qualquer pobreza.
O fechamento de um mosteiro acolhido na serenidade
(não somos eternos!): também ele
é testemunho de uma fé madura
e de uma esperança viva.
Para a reflexão
1. Que valores ou aspirações evangélicas
fundamentais estão na base de nossa unidade
interior e das opções da Fraternidade?
Estamos dispostos a comprometer-nos verdadeiramente?
Para mudar o quê? Como? Com quem?
2. Existe a consciência de que a primeira
terra de anúncio evangélico sois
vós mesmas, chamadas a testemunhar uma
à outra a Boa Nova na concretude dos
gestos diários?
3. A fecundidade divina de nossa existência
brilha também na impotência humana,
como a velhice e a enfermidade, que nos tornam
o sinal mais transparente da esperança
que nos habita. Como nos preparamos para esta
etapa "missionária" tão
importante e decisiva?
4. Irmãs, no silêncio contemplativo,
vós sois conosco uma Fraternidade-em-missão.
Sois anúncio de uma Palavra viva em cada
época de vossa vïda, na paixão
pelo Evangelho que vos configura a Cristo. Como
podemos traduzir e anunciar concretamente esta
experiência junto com toda a Família
franciscana?
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