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       São Paulo, 07/01/2009, 15:43          
 
   
 

I - A missão comum de nossas Fraternidades

Todo o relacionamento pessoal com o Senhor, todos os carismas religiosos englobam dois elementos inseparáveis entre si, vocação e missão: "segui-me" e "ide", testemunhai entre os povos o que vistes. O Senhor nos chama para fazer-nos seus discípulos e testemunhas no mundo inteiro. Assim, inserimo-nos na história como memória viva do Evangelho de Jesus Cristo, sempre prontos a inventar as formas mais apropriadas de testemunhar e anunciar o Reino de Deus já presente em nosso meio. Como irmãs e irmãos de Clara e Francisco, temos uma mensagem bem definida a anunciar, ainda que com modalidades diferentes; nossas Regras indicam claramente os elementos fundamentais que caracterizam esta caminhada.

Viver e testemunhar o Evangelho
"Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual se compra aquele por quem tudo foi feito do nada. Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável" (3CtIn 7-8).

A regra de vida comum a toda a Família franciscana consiste em "viver o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo" (cf. RegB 1,1; RegCl 1,2; RegOFS 4), desejando acima de tudo "ter o espírito do Senhor e seu santo modo de operar" (RegB 10,8; RegCl 10,9), tendo como prioridade absoluta a oração e a contemplação (cf. RegB 5,2; RegCl 7,2). Também o percurso é único e bem definido: a humildade e a pobreza do Senhor nosso Jesus Cristo e de sua Mãe pobrezinha. Clara diz explicitamente: "O Filho de Deus fez-se nosso caminho" (TestCl 5). A existência pobre de Jesus de Nazaré, de Belém ao Calvário, como epifania de Deus, tornou-se uma experiência espiritual totalizante e revolucionária na vida de Francisco e Clara: esta paixão configura-os totalmente a Cristo e não aceitarão comentários acomodatícios ou reduções até os últimos anos de sua vida. A quem lhe propõe outros modos de servir o Senhor, outras Regras já experimentadas e melhor organizadas, Francisco responde: "O Senhor me disse que queria fazer de mim um novo louco no mundo, e não quer conduzir-nos por outro caminho senão por esta sabedoria" (LegPer 114). E ao Papa, que queria aliviar sua pobreza, Clara, indo muito além do voto, responde: "Pai santo, por preço algum quero ser dispensada de
seguir Cristo para sempre" (LegCl 14).

Esta é, pois, nossa vocação, nossa "ciência", nossa diaconia: tornar-nos sempre mais ouvintes e fiéis realizadores da Palavra evangélica, contemplando e seguindo Jesus pobre até o fim. Desta identidade clara e concreta originam-se as diferentes e complementares formas de evangelização, as diversas missões franciscano-clarianas na Igreja de Deus em vista de seu Reino.

Os "Frades menores" espalham-se pelo mundo, que se torna seu "claustro" (cf. SCom 63), o lugar das relações fraternas e contemplativas (cf. RegNB 16). "Pois para isto Ele [o Senhor) vos mandou pelo mundo universo, para dardes testemunho de sua voz, por vossas palavras e vossas obras, e fazerdes saber a todos que ninguém é todo-poderoso senão Ele (COrd 9).

As "Irmãs pobres", a partir do "claustro" de sua interioridade, seguindo o exemplo de Maria, (cf. 3CtIn 19) tornam-se acolhimento, morada e ícone do Deus de amor; e este testemunho se "reflete" e se projeta no mundo inteiro. A clausura se abre ao universo e se torna lugar e espaço de relacionamento, como o estreito espaço do jardim de São Damião se transformou para Francisco, padecente e quase cego, em visão e canto de toda a criação. Não vamos para a clausura para refugiar-nos ou para fugir das dificuldades do mundo, mas sobretudo para viver o acolhimento, para participar mais profundamente da vida dos homens nas suas aspirações mais secretas e desconhecidas, para esforçar-nos por construir uma história humana segundo o projeto de Deus que só os santos e os profetas sabem intuir.

Tomando uma dimensão universal, a clausura de Clara é vivida e transformada por uma dinâmica espiritual que não tem limites. Antes da doença, é fortemente tentada a partir até para Marrocos, onde os primeiros Frades haviam confessado sua fé com o "martírio" (cf. ProcC 6,6); nos últimos 30 anos, através do "martírio" de sua enfermidade, viverá uma incrível multiplicidade de relações de amizade: recebe visitas do Papa, de Cardeais, de Frades, de pessoas humildes e de pessoas importantes... É o fogo do amor que arde em seu "claustro" e que inflama todo o tipo de relacionamento (cf. Fior 15), muito mais do que qualquer limitação imposta pela clausura. Clara é uma verdadeira "mística": arde numa paixão única que a configura a Cristo. Tudo o mais torna-se "relativo" e convergente para este "centro".

Quanto desperdício de energias e de "boa vontade" se nota em alguns mosteiros, quando nem todas as forças são dirigidas para a busca da unidade, para o Essencial. O "gênio feminino" resplende na sua riqueza exatamente quando intui o essencial e consegue dar o justo valor ao secundário.

A caminho da Cruz

"Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele na cruz da tribulação vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos" (2CtIn 21).

"Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12,32): do alto da cruz, Jesus tornou-se oferta de salvação para todos os homens. Seguindo Francisco em suas andanças missionárias, chegamos às chagas do Alverne; seguindo Clara na sua clausura, chegamos ao leito do sofrimento, da enfermidade, que inicia no tempo das chagas do Poverello e se prolonga por quase metade de sua vida. Constatamos mais uma vez uma surpreendente complementaridade de carisma: duas estradas igualmente "missionárias", a da itinerância e a da clausura, que conduzem à idêntica meta, a da cruz. O amante quer ficar perto do Amado, não só no caminho da pobreza, mas também no do sofrimento (cf. 2CtIrz 19), para completar na própria carne o que falta aos sofrimentos de Cristo (cf. Cl 1,24). Não basta ouvir e servir, é preciso também partilhar o destino de Jesus e tomar sua cruz (cf. Lc 9,23-24).

A lógica evangélica da não-eficiência, da não-espetacularidade, dos resultados não-vistosos é sempre perturbadora: assim foi para os discípulos de Jesus e será para todos os fiéis, neste peregrinar terreno. O "mundo" não pode aceitar esta lógica: nosso mundo fundamenta-se exatamente sobre a eficiência que, a partir desta base, cria uma série de "psicoses" do resultado, do "fazer", da aparência, do garantir para si o presente e o futuro, do sucesso em todos os níveis: trabalho, afetos, negócios, fama... Infelizmente, estas psicoses não nos são estranhas: conta quem é capaz de produzir mais. Enquanto o "milagre" de Clara e Francisco, fiéis ao Evangelho, é o de um grande abandono naquele que continua a nutrir uma incrível confiança a nosso respeito. Eles responderam de forma apaixonada à paixão que Deus tem pelo homem; viveram com audácia o desafio da pobreza absoluta, que conduz necessariamente à cruz, à impotência, como caminho de vida.

Todas as atividades missionárias estarão, pois, sujeitas à lógica da semente que deve morrer para frutificar.

A eficácia "missionária" de Francisco atinge o cume na última etapa de sua vida, a da assemelhação a Cristo no Alverne: depõe sua experiência espiritual no seio da Igreja, ao lado da cruz, restitui esta aventura evangélica ao Pai e a oferece como um "dom" missionário a muitos irmãos e irmãs que o teriam seguido ao longo dos séculos, fascinados por seu exemplo. É uma liberdade reencontrada exatamente no tempo da "grande prova", quando já não sabe o que fazer: então decide restituir a Deus o projeto evangélico elaborado durante toda a vida e que agora descobre não ser seu; restituir os Frades que não são seus, sua vida que não é sua...

O que dizer de Clara, dos anos de sua enfermidade, "inúteis" segundo uma mentalidade do resultado, mas muito ricos e significativos diante de Deus! Precisamente quando Francisco, muito rapidamente, veio a faltar aos Frades e às Irmãs, a presença de Clara em boa saúde, com todas as suas energias, em nosso modo de ver teria podido "fazer muito" para a Família franciscana das origens; teria podido fundar muitos outros Mosteiros, animar muitas outras Irmãs... No entanto, o Senhor "fez muito" através de sua pobreza, de sua enfermidade, de sua inatividade! Naqueles primeiríssimos anos da vida da Ordem, irão outras Irmãs, mandadas por ela e por Francisco.

Mas quanto nos é difícil assimilar estes valores, quando, ao nosso redor, o "mundo" fala outra linguagem e nos estimula a aceitar suas seduções. Bem sabemos que nossa eficácia está ligada à fecundidade divina; que nossos serviços, estruturas, atividades apostólicas devem estar em função de nosso ser memória viva do Evangelho de Jesus. Este é o primeiro serviço que devemos prestar à Igreja e ao mundo, antes mesmo de qualquer outra atividade: é a qualidade de nossa vida que dá significado à quantidade de nossos esforços, que devem relacionar-se a esta dimensão existencial na qual todos nos percebemos "missionários, enviados", quer permaneçamos num mosteiro, quer percorramos as estradas do mundo; quer rezemos, quer preguemos; quer tenhamos saúde, quer estejamos doentes. Conservarei sempre em meu coração muitos rostos radiantes de Irmãs jovens e idosas encontradas em diversas visitas, que deixam transparecer, como palavra viva, o absoluto de Deus que as habita; de Irmãs enfermas que, purificadas pelo sofrimento como Clara, ícones vivos, semelhantes ao Crucifixo de São Damião, exprimem uma humanidade sofredora, mas já transfigurada e gloriosa: tornaram-se espera vibrante do Esposo que vem, enquanto seu corpo, puro invólucro transparente, deixa entrever a presença libertadora de Deus. Que missão extraordinária é esta!

Recordo o exemplo de uma clarissa do século XV, Catarina de Bolonha. No fim da vida, sofrendo muito, numa visão recebeu a ordem de pôr-se a tocar uma viola. Catarina não tocava desde que, adolescente, havia deixado a corte de Bolonha para entrar no mosteiro; mas diante da ordem divina pediu que lhe trouxessem uma viola e compôs ela mesma um pequeno hino, com um texto tirado do profeta Isaías: "Gloria eius in te videbitur". Assim, mostrava às Irmãs que a glória do Onipotente se manifesta também na fraqueza de uma mulher sofredora. Ainda hoje conservada no mosteiro Corpus Domini de Bolonha, a viola nos recorda que a vida de cada um de nós, em sua fraqueza, pode tornar-se um instrumento para cantar a grandeza de Deus.

Queridas Irmãs, quem sabe ainda podeis ajudar-nos a reencontrar o sentido profundo de nossa missão, o valor "relativo" de todas as nossas atividades, sabendo que uma pessoa pode realizar-se somente se descobrir sua verdadeira face, "espelhando-se" em Jesus de Nazaré, no seu Evangelho, na contemplação como prioridade. Na busca de nossa identidade, com freqüência somos mais propensos a olhar para o passado - e corremos o risco de fechar-nos sempre mais - do que para o futuro, para o qual somos projetados. O afã de sobreviver pode destruir a esperança, a criatividade e a abertura ao Espírito do Senhor.

A própria velhice nem sempre é só um limite, pois é também testemunho de síntese espiritual e relacional, harmonia dos valores serenamente vividos. Também esta etapa da vida deve ser evangelizada e acompanhada, para que se torne manifestação de Deus, como qualquer pobreza.

O fechamento de um mosteiro acolhido na serenidade (não somos eternos!): também ele é testemunho de uma fé madura e de uma esperança viva.

Para a reflexão
1. Que valores ou aspirações evangélicas fundamentais estão na base de nossa unidade interior e das opções da Fraternidade? Estamos dispostos a comprometer-nos verdadeiramente? Para mudar o quê? Como? Com quem?

2. Existe a consciência de que a primeira terra de anúncio evangélico sois vós mesmas, chamadas a testemunhar uma à outra a Boa Nova na concretude dos gestos diários?

3. A fecundidade divina de nossa existência brilha também na impotência humana, como a velhice e a enfermidade, que nos tornam o sinal mais transparente da esperança que nos habita. Como nos preparamos para esta etapa "missionária" tão importante e decisiva?

4. Irmãs, no silêncio contemplativo, vós sois conosco uma Fraternidade-em-missão. Sois anúncio de uma Palavra viva em cada época de vossa vïda, na paixão pelo Evangelho que vos configura a Cristo. Como podemos traduzir e anunciar concretamente esta experiência junto com toda a Família franciscana?




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