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II - Reciprocidade
e complementaridade
"Mas quando o Senhor agiu mais de perto
e já parecia às portas, quis ser
assistida por sacerdotes e frades espirituais,
para recitarem a paixão do Senhor e suas
santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero,
egrégio menestrel do Senhor, que costumava
soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada
alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre
o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas
ardentes da fornalha do fervoroso coração,
e a virgem de Deus ficou muito consolada com
suas parábolas" (LegCl 45).
Complementaridade teocêntrica
"Pois, quando o santo, logo depois
de sua conversão, sem ter ainda irmãos
ou companheiros, estava construindo a igreja
de São Damião, em que foi visitado
plenamente pela graça divina, e foi impelido
a abandonar totalmente o mundo, numa grande
alegria e iluminação do Espírito
Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que
o Senhor veio a cumprir mais tarde" (TestCl
9-11).
Este é um quadro profundamente significativo
que, exatamente no fim da vida de Clara, exprime
muito bem o laço espiritual que une na
contemplação de Deus os irmãos
menores e as "damas pobres". A caminhada
evangélica de Francisco e Clara, suas
duas histórias, são interdependentes.
Se, por um lado, Clara se define a "plantinha"
de Francisco, este, segundo a antiga tradição,
nos momentos mais difíceis de sua vida,
recorre a ela e se deixa guiar, confia-lhe dúvidas
e preocupações, às vezes
envia-lhe seus Frades (cf. ProcC 2,15). Francisco
está na origem da vocação
de Clara e de suas Irmãs; Clara pede
a assistência dos Frades, protestando
até diante de Gregório IX, quando
este quereria proibir a todos os Frades que
se dirigissem aos mosteiros das Clarissas sem
licença sua (Cf. LegCl 37).
Com satisfação, Clara nota que
a contemplação das Damas pobres
é parte originária do carisma,
quando Francisco "não tinha frades
nem companheiros" (TestCl 9); e depois
da morte de Francisco, os Frades descobrem em
Clara a guarda do projeto evangélico
originário, pois "um só e
mesmo espírito tinha tirado deste mundo
tanto os frades quanto aquelas senhoras"
(2Cel 204). Francisco constitui o momento inspiracional
da comum vocação; Clara, na sua
fidelidade, garante a continuação
do primitivo projeto de vida de Francisco. Da
clausura de São Damião, ela e
suas Irmãs sustentam e animam os seguidores
da forma de vida franciscana.
Nestes anos, a partir da renovação
promovida pelo Concílio Vaticano II,
recuperamos muito da riqueza deste relacionamento,
que penso ser indispensável para a nossa
identidade carismática.
O ponto focal deste relacionamento são
as "palavras santas" ou o "falar
de Deus", segundo a estupenda expressão
dos Fioretti (cf. Pior 15). Trata-se de uma
comunicação "extática",
isto é, que nos leva para fora de nós
mesmos, com o centro para o "alto":
daqui nasce a complementaridade e a reciprocidade
que dão plenitude humana e divina à
nossa vocação. A experiência
desta comunhão obriga-nos a ir além
de qualquer "compensação
afetiva": não nos aproximamos por
"estratégias pastoral-vocacionais
ou pela necessidade de "apoiar-nos uns
às outras, de "sentir- nos bem"
uns ao lado das outras. Aproximamo-nos para
comunicar-nos "alguma coisa nova a respeito
do Senhor", para acelerar o passo em direção
a Ele. É uma busca em comum, trêmula
e sincera, daquele que está na origem
de nossa aventura. Nossas palavras, então,
não serão apenas desejo de falarmos
reciprocamente, mas sobretudo efusão
de "centelhas ardentes", que brotam
de um coração feito "fornalha"
pelo amor de Deus. É Deus que fala em
nós e através de nós para
fazer de todos os nossos diálogos uma
teofania, uma manifestação sempre
mais clara de sua presença e vontade.
O ideal é muito alto e sua conquista
nem sempre certa! Na Regra, Francisco pôs
seus Frades de sobreaviso quanto a possíveis
desvios que, talvez, já estivessem se
manifestando (cf. RegB 11,1-2). Talvez uma interpretação
demasiadamente dura desta passagem tivesse provocado
a reação de Clara em relação
ao Papa, pois ela queria salvar a complementaridade
a todo o custo (cf. LegCl 37). Viver este tipo
de relacionamento é sempre um desafio,
exige um equilíbrio seguro, uma sabedoria
humana e espiritual, uma formação
sólida de uma e de outra parte; mas nem
por isso podemos renunciar a ela: é vontade
evidente de Clara e Francisco.
Entre os testemunhos do processo de canonização
de Clara lemos que "tendo ficado doente
de insânia, um certo frade da Ordem dos
Frades Menores, que se chamava Frei Estêvão,
São Francisco mandou-o ao mosteiro de
São Damião, para que Santa Clara
fizesse sobre ele o sinal da cruz. Quando o
fez, o frade dormiu um pouco no lugar onde a
santa madre costumava rezar; depois, quando
acordou, comeu um pouco e foi embora curado"
(ProcC 2, 15). É um fato narrado também
por outras fontes (cf. BuIC 14; ProcC 3, 12;
LegCl 32) e revela que a colaboração
entre os dois santos e entre as duas Ordens
foi muito importante: com confiança,
Francisco envia a Clara os Frades com dificuldades
especiais, pois talvez só ela podia curá-los;
o próprio Francisco fizera a experiência
nos momentos difíceis de sua existência.
Esta exigência espiritual "relativiza"
todas as estruturas ordinárias, como
o sono reparador de Frei Estevão no oratório
de Clara. Também nós, hoje, somos
vítimas de tensões, do estresse
e da depressão que ameaçam nossa
"saúde" espiritual. Talvez,
uma das tarefas das Irmãs de Santa Clara,
hoje, poderia ser a de ajudar-nos a reencontrar
a harmonia dos valores franciscano-clarianos,
a gratuidade e a beleza de nossa vida, sem pretensões
de eficiência. E fácil sermos instrumentalizados
pelas necessidades imediatas e perdermos a visão
de conjunto, a capacidade de discernir aquilo
que é urgente daquilo que é necessário;
preocupamo-nos com os muitos projetos que programamos
ou que nos são propostos pelo mundo consumista
em que vivemos e corremos o risco de esquecer
o compromisso primário de ser "projeto
de Deus". Creio que seja urgente, hoje,
renovar e continuar a colaboração
entre Clara e Francisco para evitar qualquer
forma de "insânia", de "esquizofrenia"
que destrói a própria vida consagrada.
Dou graças ao Senhor por todas as vezes
que, exatamente ao lado de um mosteiro, desde
frade jovem pude fazer a experiência da
"cura", recolocando em ordem harmoniosa
os valores evangélicos de minha vocação
e missão, graças à ajuda
das Irmãs Clarissas. Muitas vezes pedi
hospitalidade em seus mosteiros para dar novo
tom espiritual à minha vida. Obrigado
a todas vós, Irmãs Clarissas,
por esta função "terapêutica",
tão importante para a caminhada vocacional
de uma pessoa consagrada.
Complementaridade construída sobre
a Palavra de Deus
"Por meio de devotos pregadores, [Clara]
cuidava de alimentar as filhas com a Palavra
de Deus e não ficava com a parte pior"
(LegCl 37).
Francisco jamais foi um "ouvinte surdo
da Palavra" (2Cel 22); por sua vez, "Clara
gostava muito de ouvir a Palavra de Deus"
(ProcC 10, 8), vive-a, "espelha-se"
nela, deixa-se transformar por ela e a reflete
sobre as Irmãs e sobre o mundo, consciente
de que esta é a missão própria
das Damas pobres (cf. TestCl 21).
Francisco e Clara são criadores de uma
espiritualidade construída a partir da
escuta e da imediata obediência à
Palavra. Desarmados, deixam-se surpreender por
esta Palavra; deixam-se "desestabilizar"
para iniciar caminhos sempre novos, sem saber,
como Abraão, para onde levarão
(cf. Hb 11,8).
Deixam-se atrair (ad trahere), plasmar pela
Palavra para se conformarem a suas exigências,
sem se deixar distrair (dis-trahere) por nada;
finalmente tornam-se eles próprios palavra
viva e profética para o mundo em que
vivem.
Um dos sinais mais evidentes destes anos pós-conciliares
é certamente a redescoberta da centralidade
da Palavra de Deus para uma experiência
espiritual que queira chamar-se de cristã.
A Igreja exorta-nos continuamente a entrar nesta
riqueza e nos convida a formar-nos e a renovar-nos
nesta fonte de água viva. "O primado
da santidade e da oração não
é concebível senão a partir
de uma renovada escuta da Palavra de Deus"
(João Paulo II, Novo Millennio Ineunte,
39). Os fiéis leigos, sobretudo os movimentos
jovens, as novas comunidades religiosas nascidas
nos últimos anos, puseram como estrutura
básica de sua vida espiritual a escuta
e o confronto com a Palavra de Deus. Para nós
deveria ser uma volta às nossas origens:
"nutrido" com esta Palavra, o coração
tornar-se-ia uma "fornalha ardente"
como o de Frei Junípero, e nossas palavras
readquiririam uma força "incendiária".
A Palavra de Deus provoca sempre uma reestruturação
espiritual pessoal: obriga-nos a rever nossos
hábitos, nossos esquemas; cria uma dinâmica
de busca e de adesão que muda nosso estilo
de vida no Espírito, como aconteceu com
Francisco e Clara. Talvez por isso, com freqüência,
em nossos ambientes é possível
notar uma certa resistência e, assim,
continuamos na rotina, sepultura de todo o entusiasmo.
Tememos que Deus exija demais, tudo! Tememos
perder certas estruturas "de segurança"
também quando são empecilho à
nossa caminhada contemplativa. Amamos mais a
conservação que a contemplação!
Continuamos a confiar nos meios mais tradicionais,
mais imediatos, sem nos perguntarmos se tais
meios têm necessidade de um novo espírito.
Este é um campo em que a ajuda recíproca
entre irmãos e irmãs poderia devolver
força e entusiasmo à nossa vida
e, sobretudo, reavivar o desejo de busca e de
adesão ao Senhor, que só uma profunda
espiritualidade bíblica pode oferecer.
Acolher, conceber, guardar, gerar a Palavra,
a exemplo da Virgem Maria, são elementos
indispensáveis para uma vida consagrada
vivida em profundidade e autenticidade.
Para a reflexão
1. Em 1991, preparando o oitavo centenário
do nascimento de Santa Clara (1993), dirigindo-se
às enclausuradas franciscanas, os Ministros
gerais escreviam: "Nenhuma tutela paternalista
da parte dos frades, mas um serviço recíproco
em minoridade e verdadeira fraternidade que
enriquece uns e outras... Por que não
intensificar o relacionamento informativo e
também formativo da parte das irmãs
para os, irmãos, como fazia o próprio
Francisco desde o início de sua vocação
evangélica?" (Clara de Assis, mulher
nova, 51). Que caminho fizemos nestes últimos
anos?
2. É a Palavra, e particularmente o
Evangelho, o critério de discernimento
e de resposta aos desafios, às situações,
às mudanças da vida comunitária
quotidiana?
3. Como conseguimos harmonizar a tensão
valores-estruturas? E que meios usamos, pessoal-
mente e em Fraternidade, para avaliar a caminhada?
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