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       São Paulo, 07/01/2009, 15:02          
 
   
 

II - Reciprocidade e complementaridade

"Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas" (LegCl 45).

Complementaridade teocêntrica

"Pois, quando o santo, logo depois de sua conversão, sem ter ainda irmãos ou companheiros, estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o mundo, numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que o Senhor veio a cumprir mais tarde" (TestCl 9-11).

Este é um quadro profundamente significativo que, exatamente no fim da vida de Clara, exprime muito bem o laço espiritual que une na contemplação de Deus os irmãos menores e as "damas pobres". A caminhada evangélica de Francisco e Clara, suas duas histórias, são interdependentes. Se, por um lado, Clara se define a "plantinha" de Francisco, este, segundo a antiga tradição, nos momentos mais difíceis de sua vida, recorre a ela e se deixa guiar, confia-lhe dúvidas e preocupações, às vezes envia-lhe seus Frades (cf. ProcC 2,15). Francisco está na origem da vocação de Clara e de suas Irmãs; Clara pede a assistência dos Frades, protestando até diante de Gregório IX, quando este quereria proibir a todos os Frades que se dirigissem aos mosteiros das Clarissas sem licença sua (Cf. LegCl 37).

Com satisfação, Clara nota que a contemplação das Damas pobres é parte originária do carisma, quando Francisco "não tinha frades nem companheiros" (TestCl 9); e depois da morte de Francisco, os Frades descobrem em Clara a guarda do projeto evangélico originário, pois "um só e mesmo espírito tinha tirado deste mundo tanto os frades quanto aquelas senhoras" (2Cel 204). Francisco constitui o momento inspiracional da comum vocação; Clara, na sua fidelidade, garante a continuação do primitivo projeto de vida de Francisco. Da clausura de São Damião, ela e suas Irmãs sustentam e animam os seguidores da forma de vida franciscana.

Nestes anos, a partir da renovação promovida pelo Concílio Vaticano II, recuperamos muito da riqueza deste relacionamento, que penso ser indispensável para a nossa identidade carismática.

O ponto focal deste relacionamento são as "palavras santas" ou o "falar de Deus", segundo a estupenda expressão dos Fioretti (cf. Pior 15). Trata-se de uma comunicação "extática", isto é, que nos leva para fora de nós mesmos, com o centro para o "alto": daqui nasce a complementaridade e a reciprocidade que dão plenitude humana e divina à nossa vocação. A experiência desta comunhão obriga-nos a ir além de qualquer "compensação afetiva": não nos aproximamos por "estratégias pastoral-vocacionais ou pela necessidade de "apoiar-nos uns às outras, de "sentir- nos bem" uns ao lado das outras. Aproximamo-nos para comunicar-nos "alguma coisa nova a respeito do Senhor", para acelerar o passo em direção a Ele. É uma busca em comum, trêmula e sincera, daquele que está na origem de nossa aventura. Nossas palavras, então, não serão apenas desejo de falarmos reciprocamente, mas sobretudo efusão de "centelhas ardentes", que brotam de um coração feito "fornalha" pelo amor de Deus. É Deus que fala em nós e através de nós para fazer de todos os nossos diálogos uma teofania, uma manifestação sempre mais clara de sua presença e vontade.

O ideal é muito alto e sua conquista nem sempre certa! Na Regra, Francisco pôs seus Frades de sobreaviso quanto a possíveis desvios que, talvez, já estivessem se manifestando (cf. RegB 11,1-2). Talvez uma interpretação demasiadamente dura desta passagem tivesse provocado a reação de Clara em relação ao Papa, pois ela queria salvar a complementaridade a todo o custo (cf. LegCl 37). Viver este tipo de relacionamento é sempre um desafio, exige um equilíbrio seguro, uma sabedoria humana e espiritual, uma formação sólida de uma e de outra parte; mas nem por isso podemos renunciar a ela: é vontade evidente de Clara e Francisco.

Entre os testemunhos do processo de canonização de Clara lemos que "tendo ficado doente de insânia, um certo frade da Ordem dos Frades Menores, que se chamava Frei Estêvão, São Francisco mandou-o ao mosteiro de São Damião, para que Santa Clara fizesse sobre ele o sinal da cruz. Quando o fez, o frade dormiu um pouco no lugar onde a santa madre costumava rezar; depois, quando acordou, comeu um pouco e foi embora curado" (ProcC 2, 15). É um fato narrado também por outras fontes (cf. BuIC 14; ProcC 3, 12; LegCl 32) e revela que a colaboração entre os dois santos e entre as duas Ordens foi muito importante: com confiança, Francisco envia a Clara os Frades com dificuldades especiais, pois talvez só ela podia curá-los; o próprio Francisco fizera a experiência nos momentos difíceis de sua existência. Esta exigência espiritual "relativiza" todas as estruturas ordinárias, como o sono reparador de Frei Estevão no oratório de Clara. Também nós, hoje, somos vítimas de tensões, do estresse e da depressão que ameaçam nossa "saúde" espiritual. Talvez, uma das tarefas das Irmãs de Santa Clara, hoje, poderia ser a de ajudar-nos a reencontrar a harmonia dos valores franciscano-clarianos, a gratuidade e a beleza de nossa vida, sem pretensões de eficiência. E fácil sermos instrumentalizados pelas necessidades imediatas e perdermos a visão de conjunto, a capacidade de discernir aquilo que é urgente daquilo que é necessário; preocupamo-nos com os muitos projetos que programamos ou que nos são propostos pelo mundo consumista em que vivemos e corremos o risco de esquecer o compromisso primário de ser "projeto de Deus". Creio que seja urgente, hoje, renovar e continuar a colaboração entre Clara e Francisco para evitar qualquer forma de "insânia", de "esquizofrenia" que destrói a própria vida consagrada.

Dou graças ao Senhor por todas as vezes que, exatamente ao lado de um mosteiro, desde frade jovem pude fazer a experiência da "cura", recolocando em ordem harmoniosa os valores evangélicos de minha vocação e missão, graças à ajuda das Irmãs Clarissas. Muitas vezes pedi hospitalidade em seus mosteiros para dar novo tom espiritual à minha vida. Obrigado a todas vós, Irmãs Clarissas, por esta função "terapêutica", tão importante para a caminhada vocacional de uma pessoa consagrada.

Complementaridade construída sobre a Palavra de Deus

"Por meio de devotos pregadores, [Clara] cuidava de alimentar as filhas com a Palavra de Deus e não ficava com a parte pior" (LegCl 37).

Francisco jamais foi um "ouvinte surdo da Palavra" (2Cel 22); por sua vez, "Clara gostava muito de ouvir a Palavra de Deus" (ProcC 10, 8), vive-a, "espelha-se" nela, deixa-se transformar por ela e a reflete sobre as Irmãs e sobre o mundo, consciente de que esta é a missão própria das Damas pobres (cf. TestCl 21).

Francisco e Clara são criadores de uma espiritualidade construída a partir da escuta e da imediata obediência à Palavra. Desarmados, deixam-se surpreender por esta Palavra; deixam-se "desestabilizar" para iniciar caminhos sempre novos, sem saber, como Abraão, para onde levarão (cf. Hb 11,8).

Deixam-se atrair (ad trahere), plasmar pela Palavra para se conformarem a suas exigências, sem se deixar distrair (dis-trahere) por nada; finalmente tornam-se eles próprios palavra viva e profética para o mundo em que vivem.

Um dos sinais mais evidentes destes anos pós-conciliares é certamente a redescoberta da centralidade da Palavra de Deus para uma experiência espiritual que queira chamar-se de cristã. A Igreja exorta-nos continuamente a entrar nesta riqueza e nos convida a formar-nos e a renovar-nos nesta fonte de água viva. "O primado da santidade e da oração não é concebível senão a partir de uma renovada escuta da Palavra de Deus" (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 39). Os fiéis leigos, sobretudo os movimentos jovens, as novas comunidades religiosas nascidas nos últimos anos, puseram como estrutura básica de sua vida espiritual a escuta e o confronto com a Palavra de Deus. Para nós deveria ser uma volta às nossas origens: "nutrido" com esta Palavra, o coração tornar-se-ia uma "fornalha ardente" como o de Frei Junípero, e nossas palavras readquiririam uma força "incendiária". A Palavra de Deus provoca sempre uma reestruturação espiritual pessoal: obriga-nos a rever nossos hábitos, nossos esquemas; cria uma dinâmica de busca e de adesão que muda nosso estilo de vida no Espírito, como aconteceu com Francisco e Clara. Talvez por isso, com freqüência, em nossos ambientes é possível notar uma certa resistência e, assim, continuamos na rotina, sepultura de todo o entusiasmo. Tememos que Deus exija demais, tudo! Tememos perder certas estruturas "de segurança" também quando são empecilho à nossa caminhada contemplativa. Amamos mais a conservação que a contemplação! Continuamos a confiar nos meios mais tradicionais, mais imediatos, sem nos perguntarmos se tais meios têm necessidade de um novo espírito. Este é um campo em que a ajuda recíproca entre irmãos e irmãs poderia devolver força e entusiasmo à nossa vida e, sobretudo, reavivar o desejo de busca e de adesão ao Senhor, que só uma profunda espiritualidade bíblica pode oferecer. Acolher, conceber, guardar, gerar a Palavra, a exemplo da Virgem Maria, são elementos indispensáveis para uma vida consagrada vivida em profundidade e autenticidade.

Para a reflexão
1. Em 1991, preparando o oitavo centenário do nascimento de Santa Clara (1993), dirigindo-se às enclausuradas franciscanas, os Ministros gerais escreviam: "Nenhuma tutela paternalista da parte dos frades, mas um serviço recíproco em minoridade e verdadeira fraternidade que enriquece uns e outras... Por que não intensificar o relacionamento informativo e também formativo da parte das irmãs para os, irmãos, como fazia o próprio Francisco desde o início de sua vocação evangélica?" (Clara de Assis, mulher nova, 51). Que caminho fizemos nestes últimos anos?

2. É a Palavra, e particularmente o Evangelho, o critério de discernimento e de resposta aos desafios, às situações, às mudanças da vida comunitária quotidiana?

3. Como conseguimos harmonizar a tensão valores-estruturas? E que meios usamos, pessoal- mente e em Fraternidade, para avaliar a caminhada?




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