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       São Paulo, 07/01/2009, 18:20          
 
   
 

V - "Siga o conselho do Ministro geral"

"Não consinta em nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho... para ir com mais segurança pelo caminho dos mandamentos do Senhor siga o conselho de nosso venerável pai, o nosso Frei Elias, ministro geral. Prefira-o aos conselhos dos outros e tenha-o como o mais precioso dom" (2CtIn 14-16).

Nesta parte de nossa reflexão, gostaria de me deter em alguns pontos que querem ser ocasião de busca e de diálogo no relacionamento entre as nossas duas Ordens e com a Família franciscana. Particularmente, penso aprofundar dois temas: 1) a colaboração entre os diversos Mosteiros e a Federação; 2) a formação e o particular relacionamento desejado por Clara e Francisco entre a primeira e a segunda Ordem. Trata-se de perspectivas que serão desenvolvidas e retomadas segundo as orientações da Igreja e em continuação a objetivos já alcançados. Espero que possa ser também o início de uma reflexão que poderia abrir novas formas de colaboração para o bem de todos. Conhecemos as iniciativas positivamente já iniciadas um pouco por toda a parte: por exemplo, os programas de formação para abadessas, formadoras, jovens professas; os noviciados comuns nas Federações. Tudo isso estimulou o crescimento vocacional nas dimensões humanas, cristãs e carismáticas. É claro que tudo isso deve continuar. Sem dúvida, poderemos acrescentar a formação dos Frades da primeira Ordem e, sobretudo, dos Assistentes das Federações, para aprofundar o conhecimento da experiência espiritual de Clara e das Clarissas. Neste campo não se fez muito; no entanto, é uma caminhada indispensável para poder dialogar com as Irmãs contemplativas sem complexos de superioridade ou inferioridade e assim evitar qualquer expressão de paternalismo, em vista de um relacionamento e de uma complementaridade autenticamente evangélicos.

Autonomia e relacionamentos na vida de um mosteiro
Num passado recente, sobretudo depois da celebraçáo do centenário de nascimento de Santa Clara (1993), notamos um crescimento de especializados estudos dos escritos clarianos e das fontes franciscanas, que levaram a um conhecimento mais objetivo da figura de Clara e da espiritualidade das Damas pobres. Estamos iniciando, podemos crescer mais com a contribuição e a ajuda recíproca, solicitando a contribuição das próprias Irmãs.

Hoje, já não nos aproximamos de Clara como se ela fosse uma simples "cópia" de Francisco, mas como uma personalidade rica em si mesma, em constante relacionamento com Francisco, na reciprocidade e complementaridade carismática. Francisco foi a palavra evangélica viva que a inspirou e acompanhou durante toda a sua vida; mas Clara conserva sua originalidade, não é redutível a Francisco. Este relacionamento de "identificação-diferença" garante a identidade inspiradora do carisma.

Segundo Clara, depois da Palavra de Deus, a palavra de Francisco e de quem lhe sucedeu no governo da Ordem deve ser anteposta a qualquer outra. Sabemos com que força esta idéia é expressa na segunda carta a Inês de Praga e na Regra, e sabemos a quem alude quando fala de "qualquer outro"; sabemos também que Elias não era certamente a cópia de Francisco! No entanto, as duas Ordens não devem ser separadas, mesmo a custo de uma "greve de fome" por parte das Damianitas (cf. LegCl 37).

As visitas que, nestes anos, tive a graça de fazer às várias Federações e o relacionamento mantido com os diversos mosteiros em diferentes partes do mundo confirmaram minha convicção de que existe um relacionamento muito forte entre as duas Ordens; um comum e convicto sentido de pertença à mesma Família sustenta, com evidência, esta complementaridade. Existe um grande desejo de crescermos juntos nesta recíproca ajuda. Onde faltar esta consciência, o risco às vezes é grave: ou os irmãos da primeira Ordem perdem a dimensão contemplativa ou desaparece o carisma e a espiritualidade nas Irmãs enclausuradas.

Nos últimos anos, fizemos uma boa caminhada, ainda que haja muita estrada a percorrer. Embora as Irmãs Clarissas não tenham laços jurídicos definidos com a primeira Ordem, como acontece com outras grandes famílias espirituais (dominicanas, carmelitas, por exemplo), espiritual e carismaticamente, porém, vivemos a mesma aventura evangélica na minoridade e corremos grande risco se abandonarmos a complementaridade profunda que nos une sem nada tirar da autonomia de cada mosteiro. A justa autonomia, porém, não pode ser entendida como pretensão de fazer uma caminhada "isolada", totalmente independente e quase "auto-suficiente". Nem basta a presença de um franciscano para o serviço pastoral-sacramental para que esteja garantida a espiritualidade franciscano-clariana. No fim de sua vida, Francisco promete ter "uma solicitude especial)' (cf. RegCl 6,4; 2Cel 204) pelas Irmãs Clarissas: é algo muito amplo. Clara, por sua vez, confirma: "Recomendo e confio minhas Irmãs, presentes e futuras, ao sucessor do nosso bem-aventurado pai Francisco e a toda a Ordem, para que nos ajudem a crescer sempre mais no serviço de Deus e, principalmente, a observar melhor a santa pobreza" (TestCl 50-51). Pode também acontecer que um mosteiro se sinta "bem" porque se tornou ponto de referência de algum movimento carismático contemporâneo e do qual, talvez, tenha recebido novas vocações; isso pode fomentar um melhor clima interno do mosteiro, mas a identidade carismática pode correr o risco de "dissolver-se" ou de ser substituída por outras espiritualidades que Francisco e Clara não reconheceriam como próprias (cf. LegPer 114; 3CtIn 16).

Num futuro próximo, ao menos em algumas nações, seremos obrigados até a uma reestruturação e a uma diminuição dos mosteiros e também de outras formas de presença franciscana e clariana. Portanto, nestes momentos particularmente difíceis, é indispensável a ajuda entre mosteiros e entre a primeira e a segunda Ordem; uma fraternidade serenamente vivida entre nós pode contribuir para superar tensões destrutivas ou sentimentos de culpa injustificados por um fechamento visto como um fracasso. A Igreja nos encoraja e nos diz que "a verdadeira derrota da vida consagrada não está no declínio numérico [também de mosteiros], mas no desfalecimento da adesão espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão" (Vita consecrata, 63). Os três campos fundamentais para a avaliação da caminhada de fraternidade de um mosteiro são os seguintes: a adesão ao Senhor, a fidelidade à própria vocação e a coerência com a própria missão. Para isso somos ainda pouco formados; também a experiência das Federações está ainda no início. A sobrevivência a todo o custo, sem a seriedade de um discernimento vocacional, é uma traição à própria missão espiritual. São outros os critérios a seguir: cada mosteiro deve poder fomentar um crescimento vocacional sério, e nem todos os mosteiros estão em condições de fazê-lo; antes, alguns não podem receber novas vocações. Outras vezes, quem tem vocações e meios econômicos, pensa num tipo de vida ainda mais independente, confunde a autonomia com a auto-suficiência, com a auto-administração e a autodecisão, sentindo-se quase justificado a desinteressar-se pela Federação e a não cuidar da caminhada da Ordem. Estas atitudes são claramente contra o espírito de fraternidade que deveria ser o coração de nossa vocação.

A formação
[Clara] tinha cravado na Luz o dardo ardentíssimo do desejo interior e, transcendendo a esfera das realidades terrestres, abria mais amplamente o seio de sua alma para as chuvas da graça" (LegCl 19).

A pessoa humana é um ser que traz em seu coração um mistério muito maior que ela mesma: tudo se resume em perceber, em ''cravar o dardo", como Clara, no mistério-dom para encontrar Aquele com o qual se pode viver em plenitude. O "cravar o dardo" na Luz que habita uma criatura finita se transforma progressivamente num desejo de Deus e num esforço total da pessoa para fazer-lhe espaço, para afastar qualquer empecilho à união, para viver diariamente este relacionamento em profundidade.

Trata-se de formar e formar-se na obediência ao Espírito. Segundo Francisco e Clara, [os frades e as irmãs] "devem desejar acima de tudo ter o espírito do Senhor e seu, santo modo de operar" (RegB 10,9; RegCl 10,9). E o Espírito Santo que nos recorda as palavras de Jesus e nos faz conhecer a paternidade universal de Deus, que torna possível nosso viver como irmãos e irmãs. "O Espírito do Senhor, que habita em seus fiéis" (Adm 1,13), nos ajuda a discernir dia após dia as exigências de nossa vocação e nos dá a coragem de viver numa obediência radical e recíproca. Não se trata, pois, de educar para um obséquio formal em relação aos ministros ou às abadessas, mas submissão de todos ao Espírito, de uma atitude funda de responsabilidade. Lidos à luz do Espírito, todas as relações humanas e todos os acontecimentos da vida tornam-se para nós uma ocasião de "obediência, de discernimento da vontade de Deus e de acolhida de seu plano para nós.

É preciso formar para uma radical expropriação. Segundo Clara e Francisco, observar o santo Evangelho significa viver "em obediência, sem nada de próprio e em castidade" (RegB 1,1; RegCl 1,2). É importante notar que não se usa o termo "pobreza", mas a expressão "sine proprio". Não se trata somente de ter um relacionamento equilibrado com as coisas, mas estamos diante de uma atitude que deve caracterizar em profundidade a identidade das Irmãs pobres e dos Frades menores: viver "sine proprio" significa renunciar a atribuir direitos às pessoas, aos cargos que nos são confiados, ao próprio Deus e à sua Palavra. Tudo recebemos de Deus e tudo somos chamados a restituir, se não quisermos nos tornar "ladrões" dos bens que o Senhor gratuitamente distribuiu. Esta atitude de expropriação radical, de convicto e sem arrependimento dom de si, exige uma constante conversão e deve ser quotidianamente renovada, a partir da contemplação extasiada daquilo que Deus mesmo fez por nós: "Vede, irmãos, que humildade a de Deus' nada de vós retenhais para vós mesmos!" (COrd 28-29; cf. 4Ctln 15.19-23). É o grande esforço da formação! E não é um caminho sem obstáculos: o mais grave perigo é o da auto-suficiência, a segurança de estar na estrada certa, o medo de confrontar-se com os outros, a preguiça da busca. Continua-se de acordo com alguns esquemas dados como certos uma vez por todas, fiéis a certas estruturas recebidas em herança e consideradas imutáveis pelos séculos. São João da Cruz escreve: "Bem-vindas sejam todas as mudanças, Senhor Deus, para que nos estabilizemos em Vós". Qualquer mudança pode aparecer como uma ameaça que gera medo, ou como um êxodo, uma esperança para um futuro a ser criado com o Espírito. Com freqüência, temos medo de aventurar-nos por novos caminhos, sobretudo se existiu alguma experiência fracassada, como se também estas experiências não pudessem tornar-se epifania de Deus e constituir momentos de crescimento. Ou então esquecemos de perguntar-nos periodicamente se nossas estruturas estimulam a contemplação: afinal, algumas estruturas podem ser mantidas como estão, mas outras devem ser transformadas com regularidade, enquanto outras ainda devem ser criadas para responder com autenticidade à nossa vocação. A tensão entre estruturas e valores acompanhar-nos-á até o túmulo, mas devemos saber administrá-la e orientá-la com sabedoria e paciência. Quem não vê, por exemplo, a necessidade de formar-se continuamente para um exercício fraterno da autoridade? "A estrutura da segunda Ordem, como a da primeira, não é piramidal e não recria o grupo beneditino reunido em torno do abade ou da abadessa como a um alter Christus, mas é evangélica. A atenção de todas - abadessa e irmãs - converge para o Evangelho e a ele obedecem".

Creio que todos podemos subscrever esta reflexão de uma clarissa; mas, como se vive, em muitos mosteiros, o exercício da autoridade? Que atenção é dada à formação para a responsabilidade por parte das abadessas? Uma verdadeira caminhada formativa torna-se impossível sem um verdadeiro diálogo fraterno dentro dos mosteiros, entre os mosteiros e nas Federações. Ao contrário, não são raros os casos de mosteiros que pensam não ter necessidade da ajuda dos outros.

Neste campo, a colaboração entre nossas duas Ordens depende das diversas áreas geográficas: há muita, muitíssima diversidade! Praticamente tudo é deixado à boa vontade e ao espírito empreendedor - mais ou menos cauteloso - das abadessas, dos ministros provinciais, das presidentes das Federações, mesmo que nas Constituições não faltem algumas chamadas e recomendações gerais, convidando à colaboração. Sem prejudicar a autonomia de cada mosteiro, e evitando também o perigo da dependência dos Frades, é urgente definir melhor este relacionamento tão importante, desejado por Clara e Francisco, para garantir e aprofundar nossa identidade franciscano-clariana. Somos chamados a viver nossa
"unicidade" dentro de um relacionamento sincero, na reciprocidade e complementaridade em vista do
Reino.

Para a reflexão
1. "Somos uma Fraternidade contemplativa com uma missão particular num mundo em mudança". Como viver uma criativa fidelidade ao nosso carisma de Ordens complementares?

2. Garantir a autenticidade de nossa espiritualidade franciscano-clariana é fruto de um compromisso seriamente assumido na confiança recíproca por irmãos e irmãs. Como concretizá-lo no país ou na região em que vivemos? Como podemos obedecer hoje ao pedido do Crucifixo de São Damião: "Vai e reconstrói a minha casa"?

3. Como ajudar os mosteiros em dificuldades e os demasiadamente "auto-suficientes" a colocar-se mais na escuta do Espírito, verdadeiro formador, e dos sinais dos tempos?

4. Para ser autêntica, uma formação deverá mudar nosso estilo de vida, enraizando-se na busca teórica e prática da face de Deus. O que fizemos nos últimos anos e que plano de formação temos para o futuro? Para que nos formamos?




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