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V - "Siga o conselho
do Ministro geral"
"Não consinta em nada que queira
afastá-la desse propósito, que
seja tropeço no caminho... para ir com
mais segurança pelo caminho dos mandamentos
do Senhor siga o conselho de nosso venerável
pai, o nosso Frei Elias, ministro geral. Prefira-o
aos conselhos dos outros e tenha-o como o mais
precioso dom" (2CtIn 14-16).
Nesta parte de nossa reflexão, gostaria
de me deter em alguns pontos que querem ser
ocasião de busca e de diálogo
no relacionamento entre as nossas duas Ordens
e com a Família franciscana. Particularmente,
penso aprofundar dois temas: 1) a colaboração
entre os diversos Mosteiros e a Federação;
2) a formação e o particular relacionamento
desejado por Clara e Francisco entre a primeira
e a segunda Ordem. Trata-se de perspectivas
que serão desenvolvidas e retomadas segundo
as orientações da Igreja e em
continuação a objetivos já
alcançados. Espero que possa ser também
o início de uma reflexão que poderia
abrir novas formas de colaboração
para o bem de todos. Conhecemos as iniciativas
positivamente já iniciadas um pouco por
toda a parte: por exemplo, os programas de formação
para abadessas, formadoras, jovens professas;
os noviciados comuns nas Federações.
Tudo isso estimulou o crescimento vocacional
nas dimensões humanas, cristãs
e carismáticas. É claro que tudo
isso deve continuar. Sem dúvida, poderemos
acrescentar a formação dos Frades
da primeira Ordem e, sobretudo, dos Assistentes
das Federações, para aprofundar
o conhecimento da experiência espiritual
de Clara e das Clarissas. Neste campo não
se fez muito; no entanto, é uma caminhada
indispensável para poder dialogar com
as Irmãs contemplativas sem complexos
de superioridade ou inferioridade e assim evitar
qualquer expressão de paternalismo, em
vista de um relacionamento e de uma complementaridade
autenticamente evangélicos.
Autonomia e relacionamentos na vida de um
mosteiro
Num passado recente, sobretudo depois da celebraçáo
do centenário de nascimento de Santa
Clara (1993), notamos um crescimento de especializados
estudos dos escritos clarianos e das fontes
franciscanas, que levaram a um conhecimento
mais objetivo da figura de Clara e da espiritualidade
das Damas pobres. Estamos iniciando, podemos
crescer mais com a contribuição
e a ajuda recíproca, solicitando a contribuição
das próprias Irmãs.
Hoje, já não nos aproximamos
de Clara como se ela fosse uma simples "cópia"
de Francisco, mas como uma personalidade rica
em si mesma, em constante relacionamento com
Francisco, na reciprocidade e complementaridade
carismática. Francisco foi a palavra
evangélica viva que a inspirou e acompanhou
durante toda a sua vida; mas Clara conserva
sua originalidade, não é redutível
a Francisco. Este relacionamento de "identificação-diferença"
garante a identidade inspiradora do carisma.
Segundo Clara, depois da Palavra de Deus, a
palavra de Francisco e de quem lhe sucedeu no
governo da Ordem deve ser anteposta a qualquer
outra. Sabemos com que força esta idéia
é expressa na segunda carta a Inês
de Praga e na Regra, e sabemos a quem alude
quando fala de "qualquer outro"; sabemos
também que Elias não era certamente
a cópia de Francisco! No entanto, as
duas Ordens não devem ser separadas,
mesmo a custo de uma "greve de fome"
por parte das Damianitas (cf. LegCl 37).
As visitas que, nestes anos, tive a graça
de fazer às várias Federações
e o relacionamento mantido com os diversos mosteiros
em diferentes partes do mundo confirmaram minha
convicção de que existe um relacionamento
muito forte entre as duas Ordens; um comum e
convicto sentido de pertença à
mesma Família sustenta, com evidência,
esta complementaridade. Existe um grande desejo
de crescermos juntos nesta recíproca
ajuda. Onde faltar esta consciência, o
risco às vezes é grave: ou os
irmãos da primeira Ordem perdem a dimensão
contemplativa ou desaparece o carisma e a espiritualidade
nas Irmãs enclausuradas.
Nos últimos anos, fizemos uma boa caminhada,
ainda que haja muita estrada a percorrer. Embora
as Irmãs Clarissas não tenham
laços jurídicos definidos com
a primeira Ordem, como acontece com outras grandes
famílias espirituais (dominicanas, carmelitas,
por exemplo), espiritual e carismaticamente,
porém, vivemos a mesma aventura evangélica
na minoridade e corremos grande risco se abandonarmos
a complementaridade profunda que nos une sem
nada tirar da autonomia de cada mosteiro. A
justa autonomia, porém, não pode
ser entendida como pretensão de fazer
uma caminhada "isolada", totalmente
independente e quase "auto-suficiente".
Nem basta a presença de um franciscano
para o serviço pastoral-sacramental para
que esteja garantida a espiritualidade franciscano-clariana.
No fim de sua vida, Francisco promete ter "uma
solicitude especial)' (cf. RegCl 6,4; 2Cel 204)
pelas Irmãs Clarissas: é algo
muito amplo. Clara, por sua vez, confirma: "Recomendo
e confio minhas Irmãs, presentes e futuras,
ao sucessor do nosso bem-aventurado pai Francisco
e a toda a Ordem, para que nos ajudem a crescer
sempre mais no serviço de Deus e, principalmente,
a observar melhor a santa pobreza" (TestCl
50-51). Pode também acontecer que um
mosteiro se sinta "bem" porque se
tornou ponto de referência de algum movimento
carismático contemporâneo e do
qual, talvez, tenha recebido novas vocações;
isso pode fomentar um melhor clima interno do
mosteiro, mas a identidade carismática
pode correr o risco de "dissolver-se"
ou de ser substituída por outras espiritualidades
que Francisco e Clara não reconheceriam
como próprias (cf. LegPer 114; 3CtIn
16).
Num futuro próximo, ao menos em algumas
nações, seremos obrigados até
a uma reestruturação e a uma diminuição
dos mosteiros e também de outras formas
de presença franciscana e clariana. Portanto,
nestes momentos particularmente difíceis,
é indispensável a ajuda entre
mosteiros e entre a primeira e a segunda Ordem;
uma fraternidade serenamente vivida entre nós
pode contribuir para superar tensões
destrutivas ou sentimentos de culpa injustificados
por um fechamento visto como um fracasso. A
Igreja nos encoraja e nos diz que "a verdadeira
derrota da vida consagrada não está
no declínio numérico [também
de mosteiros], mas no desfalecimento da adesão
espiritual ao Senhor e à própria
vocação e missão"
(Vita consecrata, 63). Os três campos
fundamentais para a avaliação
da caminhada de fraternidade de um mosteiro
são os seguintes: a adesão ao
Senhor, a fidelidade à própria
vocação e a coerência com
a própria missão. Para isso somos
ainda pouco formados; também a experiência
das Federações está ainda
no início. A sobrevivência a todo
o custo, sem a seriedade de um discernimento
vocacional, é uma traição
à própria missão espiritual.
São outros os critérios a seguir:
cada mosteiro deve poder fomentar um crescimento
vocacional sério, e nem todos os mosteiros
estão em condições de fazê-lo;
antes, alguns não podem receber novas
vocações. Outras vezes, quem tem
vocações e meios econômicos,
pensa num tipo de vida ainda mais independente,
confunde a autonomia com a auto-suficiência,
com a auto-administração e a autodecisão,
sentindo-se quase justificado a desinteressar-se
pela Federação e a não
cuidar da caminhada da Ordem. Estas atitudes
são claramente contra o espírito
de fraternidade que deveria ser o coração
de nossa vocação.
A formação
[Clara] tinha cravado na Luz o dardo ardentíssimo
do desejo interior e, transcendendo a esfera
das realidades terrestres, abria mais amplamente
o seio de sua alma para as chuvas da graça"
(LegCl 19).
A pessoa humana é um ser que traz em
seu coração um mistério
muito maior que ela mesma: tudo se resume em
perceber, em ''cravar o dardo", como Clara,
no mistério-dom para encontrar Aquele
com o qual se pode viver em plenitude. O "cravar
o dardo" na Luz que habita uma criatura
finita se transforma progressivamente num desejo
de Deus e num esforço total da pessoa
para fazer-lhe espaço, para afastar qualquer
empecilho à união, para viver
diariamente este relacionamento em profundidade.
Trata-se de formar e formar-se na obediência
ao Espírito. Segundo Francisco e Clara,
[os frades e as irmãs] "devem desejar
acima de tudo ter o espírito do Senhor
e seu, santo modo de operar" (RegB 10,9;
RegCl 10,9). E o Espírito Santo que nos
recorda as palavras de Jesus e nos faz conhecer
a paternidade universal de Deus, que torna possível
nosso viver como irmãos e irmãs.
"O Espírito do Senhor, que habita
em seus fiéis" (Adm 1,13), nos ajuda
a discernir dia após dia as exigências
de nossa vocação e nos dá
a coragem de viver numa obediência radical
e recíproca. Não se trata, pois,
de educar para um obséquio formal em
relação aos ministros ou às
abadessas, mas submissão de todos ao
Espírito, de uma atitude funda de responsabilidade.
Lidos à luz do Espírito, todas
as relações humanas e todos os
acontecimentos da vida tornam-se para nós
uma ocasião de "obediência,
de discernimento da vontade de Deus e de acolhida
de seu plano para nós.
É preciso formar para uma radical expropriação.
Segundo Clara e Francisco, observar o santo
Evangelho significa viver "em obediência,
sem nada de próprio e em castidade"
(RegB 1,1; RegCl 1,2). É importante notar
que não se usa o termo "pobreza",
mas a expressão "sine proprio".
Não se trata somente de ter um relacionamento
equilibrado com as coisas, mas estamos diante
de uma atitude que deve caracterizar em profundidade
a identidade das Irmãs pobres e dos Frades
menores: viver "sine proprio" significa
renunciar a atribuir direitos às pessoas,
aos cargos que nos são confiados, ao
próprio Deus e à sua Palavra.
Tudo recebemos de Deus e tudo somos chamados
a restituir, se não quisermos nos tornar
"ladrões" dos bens que o Senhor
gratuitamente distribuiu. Esta atitude de expropriação
radical, de convicto e sem arrependimento dom
de si, exige uma constante conversão
e deve ser quotidianamente renovada, a partir
da contemplação extasiada daquilo
que Deus mesmo fez por nós: "Vede,
irmãos, que humildade a de Deus' nada
de vós retenhais para vós mesmos!"
(COrd 28-29; cf. 4Ctln 15.19-23). É o
grande esforço da formação!
E não é um caminho sem obstáculos:
o mais grave perigo é o da auto-suficiência,
a segurança de estar na estrada certa,
o medo de confrontar-se com os outros, a preguiça
da busca. Continua-se de acordo com alguns esquemas
dados como certos uma vez por todas, fiéis
a certas estruturas recebidas em herança
e consideradas imutáveis pelos séculos.
São João da Cruz escreve: "Bem-vindas
sejam todas as mudanças, Senhor Deus,
para que nos estabilizemos em Vós".
Qualquer mudança pode aparecer como uma
ameaça que gera medo, ou como um êxodo,
uma esperança para um futuro a ser criado
com o Espírito. Com freqüência,
temos medo de aventurar-nos por novos caminhos,
sobretudo se existiu alguma experiência
fracassada, como se também estas experiências
não pudessem tornar-se epifania de Deus
e constituir momentos de crescimento. Ou então
esquecemos de perguntar-nos periodicamente se
nossas estruturas estimulam a contemplação:
afinal, algumas estruturas podem ser mantidas
como estão, mas outras devem ser transformadas
com regularidade, enquanto outras ainda devem
ser criadas para responder com autenticidade
à nossa vocação. A tensão
entre estruturas e valores acompanhar-nos-á
até o túmulo, mas devemos saber
administrá-la e orientá-la com
sabedoria e paciência. Quem não
vê, por exemplo, a necessidade de formar-se
continuamente para um exercício fraterno
da autoridade? "A estrutura da segunda
Ordem, como a da primeira, não é
piramidal e não recria o grupo beneditino
reunido em torno do abade ou da abadessa como
a um alter Christus, mas é evangélica.
A atenção de todas - abadessa
e irmãs - converge para o Evangelho e
a ele obedecem".
Creio que todos podemos subscrever esta reflexão
de uma clarissa; mas, como se vive, em muitos
mosteiros, o exercício da autoridade?
Que atenção é dada à
formação para a responsabilidade
por parte das abadessas? Uma verdadeira caminhada
formativa torna-se impossível sem um
verdadeiro diálogo fraterno dentro dos
mosteiros, entre os mosteiros e nas Federações.
Ao contrário, não são raros
os casos de mosteiros que pensam não
ter necessidade da ajuda dos outros.
Neste campo, a colaboração entre
nossas duas Ordens depende das diversas áreas
geográficas: há muita, muitíssima
diversidade! Praticamente tudo é deixado
à boa vontade e ao espírito empreendedor
- mais ou menos cauteloso - das abadessas, dos
ministros provinciais, das presidentes das Federações,
mesmo que nas Constituições não
faltem algumas chamadas e recomendações
gerais, convidando à colaboração.
Sem prejudicar a autonomia de cada mosteiro,
e evitando também o perigo da dependência
dos Frades, é urgente definir melhor
este relacionamento tão importante, desejado
por Clara e Francisco, para garantir e aprofundar
nossa identidade franciscano-clariana. Somos
chamados a viver nossa
"unicidade" dentro de um relacionamento
sincero, na reciprocidade e complementaridade
em vista do
Reino.
Para a reflexão
1. "Somos uma Fraternidade contemplativa
com uma missão particular num mundo em
mudança". Como viver uma criativa
fidelidade ao nosso carisma de Ordens complementares?
2. Garantir a autenticidade de nossa espiritualidade
franciscano-clariana é fruto de um compromisso
seriamente assumido na confiança recíproca
por irmãos e irmãs. Como concretizá-lo
no país ou na região em que vivemos?
Como podemos obedecer hoje ao pedido do Crucifixo
de São Damião: "Vai e reconstrói
a minha casa"?
3. Como ajudar os mosteiros em dificuldades
e os demasiadamente "auto-suficientes"
a colocar-se mais na escuta do Espírito,
verdadeiro formador, e dos sinais dos tempos?
4. Para ser autêntica, uma formação
deverá mudar nosso estilo de vida, enraizando-se
na busca teórica e prática da
face de Deus. O que fizemos nos últimos
anos e que plano de formação temos
para o futuro? Para que nos formamos?
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