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V - Os desafios
"Subindo ao muro da igreja, [Francisco]
disse em voz alta e em francês para uns
pobres que moravam ali perto: "Venham me
ajudar na obra do mosteiro de São Damião,
porque nele ainda haverão de morar umas
senhoras, cuja vida famosa e santo comportamento
vão glorificar nosso Pai celestial em
toda a sua santa Igreja"" (TestCl
12-14).
Esta positiva projeção de Francisco
em relação ao futuro das Damianitas,
estimula também a nós a alargar
o olhar para além dos horizontes do presente,
a fim de perscrutar possibilidades evangélicas
ainda não expressas e construir dinamicamente
uma dimensão contemplativa autêntica
sempre, mais profunda e evangelizadora para
o amanhã. E uma exigência fortemente
percebida por nosso mundo, orientado para uma
cultura da exterioridade e da aparência,
como conseqüência da globalização.
As pessoas contemplativas podem oferecer a alternativa
de uma cultura da interioridade e da experiência
espiritual profunda de uma solidão habitada,
que não é isolamento. Sabemos
bem que uma dimensão contemplativa autêntica,
enraizada no relacionamento trinitário,
tem uma evidente função crítica
diante de uma pseudo-religiosidade, que se assemelha
mais a um consumismo religioso, a um cristianismo
do "faça o que quiser", do
que a uma verdadeira busca de Deus. O homem
moderno descobre-se sempre mais "religioso"
e sempre menos crente!
Falando de desafios, das tarefas sérias
ou urgentes diante das quais nos coloca o Espírito,
a lista é sempre relativa e, sobretudo,
subjetiva. Já nos referimos a temas de
vital importância, como a Palavra de Deus,
a formação, o exercício
evangélico da autoridade. Agora, nesta
última parte, desejo destacar três
aspectos, que considero desafios fundamentais
e que, de certa forma, resumem tudo.
A formação do coração
e a criatividade
O Cristo ressuscitado repreende a "dureza
de coração" dos discípulos
(cf. Mc 16,14; Lc 24,25), isto é, uma
atitude de voltar-se para si mesmos, prisioneiros
dos próprios esquemas, que julgamos bem
fundamentados, mas incapazes de abrir-nos à
novidade de Deus.
A maior tentação de quem procura
a Deus é sempre a de fechá-lo
na própria expectativa; enquanto Deus
quer superar nossas expectativas, alargar os
horizontes de nossa existência. Deus nos
surpreende porque confia em nós e nos
pede sempre nova disponibilidade. Nós
somos levados a voltar para o que "sempre
se fez"; o Espírito, porém,
impele-nos a inventar o que "devemos fazer
hoje", nas novas situações
que a existência nos propõe. A
resistência à conversão
nasce principalmente do desejo de conservar
a tradição em si mesma, de um
equilíbrio nivelado por baixo, que, com
freqüência, expressa apego aos próprios
esquemas e rejeição à renovação,
mais que apreço pelo que temos recebido.
A fidelidade evangélica é sempre
fonte de audácia e criatividade, uma
criatividade que não significa rejeição
ao passado ou à riqueza recebida dos
nossos santos; não significa desestruturar
completamente nossa existência: é
impossível viver sem estruturas e sem
inserir-se numa história. Criatividade
significa pôr "vinho novo em odres
novos" (Mc 2,22), adaptar as estruturas
à vida nova que se manifesta em nós
dia após dia, torná-las mais expressivas
e cônsonas com os sinais do tempo em que
vivemos. É uma missão confiada
a cada geração, a cada época,
para tornar viva e vivificante a mensagem evangélica.
Hoje vivemos numa cultura que estimula uma identidade
centrada sobre o conhecimento intelectual ou
sobre expressões psicológicas
e emotivas, mais que sobre a formação
do coração, que a Bíblia
define como o centro da vida do homem novo,
"o centro de integração,
de abertura e de superação de
todo o ser humano", O coração
endurecido - em grego "sklerokardia"
- é semelhante à esclerose das
capacidades e possibilidades de amar, de abrir-se
à confiança em Deus; a novidade
do Espírito, porém, surpreende-nos
e impede qualquer forma de obstinada da volta
para nós mesmos, inclinada a administrar
exclusivamente o que sempre se fez, por medo
de perder o talento recebido: contentamo-nos
em escondê-lo e conservá-lo (Mt
25,18). A resistência às mudanças
pode significar resistência à conversão,
a deixar-se guiar pelo Espírito para
caminhos inéditos, que descobriremos
enquanto andamos (cf. Hb 11,8). Tudo isso nos
força a rever nossa vida diária,
nosso estilo de vida, nossos esquemas e, até,
nosso horário, que, embora demasiadamente
fragmentário, pode dificultar uma dimensão
contemplativa que necessita de espaços
mais longos de diálogo pessoal e de silêncio
com o Senhor, para melhor valorizar a oração
comunitária. A preparação
séria e criativa de espaços litúrgicos,
comunitários e recreativos fomenta uma
formação permanente para o relacionamento
com Deus e com os outros. Sobretudo a autenticidade
dos gestos, de uma palavra, harmoniosamente
amadurecidos no silêncio e no tempo necessário,
ajuda a construir uma personalidade verdadeira,
livre, serena e acolhedora. Essa criatividade
espiritual poderá continuar também
quando o corpo estiver fraco ou doente: o exemplo
de Clara, também neste ponto, deve nos
ensinar a manter-nos vivos no amor e a jamais
nos resignarmos, a não refugiar-nos no
hábito que, inevitavelmente, adormece
e paralisa qualquer espírito de iniciativa.
Uma espiritualidade bíblica, litúrgica
e carismática
Creio que não seja necessário
alongar-nos sobre os muitos documentos da Igreja
e da Ordem que - há mais de 40 anos -
falam da importância de uma sólida
formação bíblica e litúrgica,
sobretudo para as pessoas consagradas e, de
modo particular, para as contemplativas. Mas
que eco tiveram na VIDA de nossas comunidades?
Um relacionamento prolongado com a Palavra de
Deus não pode deixar de transformar certas
"práticas de piedade" que vêm
de séculos passados e estão ainda
presentes em alguns (raros) mosteiros. Uma liturgia
viva, bem preparada e participada não
é contra o espírito da clausura;
antes, deveria "formar" também
o sacerdote celebrante, como pude experimentar
em alguns mosteiros. Talvez nos tenhamos limitado
a "sábias" conferências
sobre a Bíblia ou sobre a Liturgia, pensando,
assim, ter obedecido à Igreja. Mas uma
vendade que não aquece o coração
e não muda a vida não é
verdadeiro conhecimento, não é
verdadeira formação.
Depois, não devemos esquecer que toda
a liturgia, como a própria palavra diz,
é um serviço a todo o povo de
Deus; por isso, é necessário refletir
sobre a acolhida litúrgica aos fiéis
leigos que desejam unir-se à oração
de nossas comunidades. Todos os mosteiros de
Clarissas do mundo recebem pedidos de oração,
que lhes são dirigidos por homens e mulheres
de perto e de longe; talvez, a partir dos que
estão próximos à Família
franciscana, seja sobretudo necessário
ajudar os fiéis leigos a sentir mais
profundamente a oração litúrgica
das comunidades de Clarissas e de Frades como
uma realidade que lhes diz respeito e não
é estranha à sua vocação.
Este desafio, esta transformação
na qual muitos mosteiros já estão
empenhados será a verdadeira revolução
copernicana que garantirá à contemplação
sua frutuosa identidade. "Nossas comunidades
devem tornar-se autênticas escolas de
oração" (João Paulo
II, Novo Millennio Ineunte 33).
Freqüentemente damos a impressão
de considerar nossa vocação um
dado adquirido uma vez por todas, esquecendo
que o carisma não é somente uma
herança recebida, mas é sobretudo
uma responsabilidade de busca diante de Deus
e do nosso mundo. Como conseguimos adaptar ou
criar novas formas de oração,
para fazer que se tornem "exemplo e espelho"
(TestCl 19), evangelização e missão
em nosso ambiente?
O sentido de pertença
"Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho
a viver sempre nessa santíssima vida
e pobreza. Guardai-vos muito para que, de maneira
alguma, vos afasteis dela pelo ensinamento de
quem quer que seja" (RegCl 6,8-9).
A quem pertencemos? Talvez a resposta (decorada)
poderia ser fácil. Mas perguntemo-nos
novamente: para onde convergem nossos desejos,
nossas preocupações, o que nos
provoca sofrimento, em que investimos concretamente
energias e tempo? Neste ponto, a resposta é
um pouco mais difícil! Penso que muitas
vezes não conseguimos concentrar-nos
no essencial e nos perdemos no que é
secundário, que pode ser a conservação
de certas estruturas, a sobrevivência
do mosteiro, a procura de vocações,
a preço de fazê-las vir (improvisadas)
de outros continentes, o "ciúme"
territorial.
A quem pertencemos? Ao Espírito de Deus,
que nos "inventa" cada dia com a nossa
colaboração, ou a algum outro?
"Em cada etapa da vida, o Senhor nos pede
uma nova resposta" (Paulo VI). E nesta
dinâmica de fazer espaço a Deus
em nós, devemos dar prioridade ao Evangelho,
ao carisma franciscano-clariano, à Família
franciscana, mais do que ao mosteiro. Nossa
missão tem horizontes amplos! Não
é um sonho, mas a verdadeira dimensão
de nossa vocação, que exige kénosis
e contínua conversão. Exatamente
nestes espaços de vida percebe-se mais
claramente a necessidade de trabalharmos juntos,
convertermo-nos juntos, caminharmos juntos:
não nos tornamos santos cada um por si;
seremos santos se nos ajudarmos todos juntos.
Formação para o relacionamento
"Amem sempre as suas almas e as de todas
as suas irmãs, e sejam sempre solícitas
na observância do que prometeram a Deus"
(BenCl 14-15).
Hoje, ao falar de formação, é
necessário pôr em particular evidência
a capacidade de a pessoa se relacionar: relacionar-se
consigo mesma, com a própria história,
com a própria afetividade, com as próprias
derrotas, com os próprios dons que devem
ser restituídos ao Senhor. Este é
o fundamento das relações com
os outros e com Deus. Sobretudo nossa dimensão
afetiva deve ser acolhida sem complexos; somente
assim é possível chegar a uma
serenidade fundamental e gerar uma incrível
riqueza de vida que estimula o desenvolvimento
harmonioso de uma personalidade. Por vezes vestimos
o hábito religioso e pensamos que o resto
virá por si. Quantos dramas se lêem
em alguns rostos escondidos sob um véu!
Dramas não resolvidos, que se tornam
infinitas ocasiões de tensão,
a ponto de destruir a paz de uma casa por meses
e anos. Ao contrário, que "paraíso"
a atmosfera de uma Fraternidade onde se aprendeu
a conhecer-se, a dialogar consigo mesmo, com
Deus, com os outros. "Nisto conhecerão
todos que sois meus discípulos: se vos
amardes uns aos outros" (Jo 13,35).
Temos esta responsabilidade como cristãos
e como consagrados; devemos, pois, investir
todos os nossos talentos para fomentar uma formação
para o relacionamento fraterno e para o relacionamento
com Deus. Não existem atenuantes: nem
a idade, nem o caráter, nem as tradições
podem dispensar desse compromisso.
Para a reflexão
1. Só uma fé "inteligente",
a fides quaerens intellectum, iluminada, pode
dar um fundamento adequado à opção
de viver segundo o Evangelho. Que esforço
fazemos e que meios utilizamos para aprofundar
nossa fé? Somos capazes de utilizar da
melhor forma os dons e os carismas de cada uma,
e, neste caso, também sua preparação
intelectual, para o bem de toda a Fraternidade?
2. "A Lectio divina faz tirar do texto
bíblico a palavra viva que interpela,
orienta e plasma a existência" (João
Paulo II, NM1 39). Como nos deixamos "plasmar
pela Liturgia das Horas, pelas celebrações
litúrgicas, pela leitura orante da Palavra
de Deus?
3. Quanto "investimos" para estimular
uma formação bíblica, litúrgica
e carismática, que envolva a vida na
sua integralidade?
4. Que espaço damos à formação
humana, à valorização de
nossa afetividade na vida quotidiana em Fraternidade?
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