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       São Paulo, 07/01/2009, 19:54          
 
   
 

V - Os desafios
"Subindo ao muro da igreja, [Francisco] disse em voz alta e em francês para uns pobres que moravam ali perto: "Venham me ajudar na obra do mosteiro de São Damião, porque nele ainda haverão de morar umas senhoras, cuja vida famosa e santo comportamento vão glorificar nosso Pai celestial em toda a sua santa Igreja"" (TestCl 12-14).

Esta positiva projeção de Francisco em relação ao futuro das Damianitas, estimula também a nós a alargar o olhar para além dos horizontes do presente, a fim de perscrutar possibilidades evangélicas ainda não expressas e construir dinamicamente uma dimensão contemplativa autêntica sempre, mais profunda e evangelizadora para o amanhã. E uma exigência fortemente percebida por nosso mundo, orientado para uma cultura da exterioridade e da aparência, como conseqüência da globalização. As pessoas contemplativas podem oferecer a alternativa de uma cultura da interioridade e da experiência espiritual profunda de uma solidão habitada, que não é isolamento. Sabemos bem que uma dimensão contemplativa autêntica, enraizada no relacionamento trinitário, tem uma evidente função crítica diante de uma pseudo-religiosidade, que se assemelha mais a um consumismo religioso, a um cristianismo do "faça o que quiser", do que a uma verdadeira busca de Deus. O homem moderno descobre-se sempre mais "religioso" e sempre menos crente!

Falando de desafios, das tarefas sérias ou urgentes diante das quais nos coloca o Espírito, a lista é sempre relativa e, sobretudo, subjetiva. Já nos referimos a temas de vital importância, como a Palavra de Deus, a formação, o exercício evangélico da autoridade. Agora, nesta última parte, desejo destacar três aspectos, que considero desafios fundamentais e que, de certa forma, resumem tudo.

A formação do coração e a criatividade
O Cristo ressuscitado repreende a "dureza de coração" dos discípulos (cf. Mc 16,14; Lc 24,25), isto é, uma atitude de voltar-se para si mesmos, prisioneiros dos próprios esquemas, que julgamos bem
fundamentados, mas incapazes de abrir-nos à novidade de Deus.

A maior tentação de quem procura a Deus é sempre a de fechá-lo na própria expectativa; enquanto Deus quer superar nossas expectativas, alargar os horizontes de nossa existência. Deus nos surpreende porque confia em nós e nos pede sempre nova disponibilidade. Nós somos levados a voltar para o que "sempre se fez"; o Espírito, porém, impele-nos a inventar o que "devemos fazer hoje", nas novas situações que a existência nos propõe. A resistência à conversão nasce principalmente do desejo de conservar a tradição em si mesma, de um equilíbrio nivelado por baixo, que, com freqüência, expressa apego aos próprios esquemas e rejeição à renovação, mais que apreço pelo que temos recebido. A fidelidade evangélica é sempre fonte de audácia e criatividade, uma criatividade que não significa rejeição ao passado ou à riqueza recebida dos nossos santos; não significa desestruturar completamente nossa existência: é impossível viver sem estruturas e sem inserir-se numa história. Criatividade significa pôr "vinho novo em odres novos" (Mc 2,22), adaptar as estruturas à vida nova que se manifesta em nós dia após dia, torná-las mais expressivas e cônsonas com os sinais do tempo em que vivemos. É uma missão confiada a cada geração, a cada época, para tornar viva e vivificante a mensagem evangélica. Hoje vivemos numa cultura que estimula uma identidade centrada sobre o conhecimento intelectual ou sobre expressões psicológicas e emotivas, mais que sobre a formação do coração, que a Bíblia define como o centro da vida do homem novo, "o centro de integração, de abertura e de superação de todo o ser humano", O coração endurecido - em grego "sklerokardia" - é semelhante à esclerose das capacidades e possibilidades de amar, de abrir-se à confiança em Deus; a novidade do Espírito, porém, surpreende-nos e impede qualquer forma de obstinada da volta para nós mesmos, inclinada a administrar exclusivamente o que sempre se fez, por medo de perder o talento recebido: contentamo-nos em escondê-lo e conservá-lo (Mt 25,18). A resistência às mudanças pode significar resistência à conversão, a deixar-se guiar pelo Espírito para caminhos inéditos, que descobriremos enquanto andamos (cf. Hb 11,8). Tudo isso nos força a rever nossa vida diária, nosso estilo de vida, nossos esquemas e, até, nosso horário, que, embora demasiadamente fragmentário, pode dificultar uma dimensão contemplativa que necessita de espaços mais longos de diálogo pessoal e de silêncio com o Senhor, para melhor valorizar a oração comunitária. A preparação séria e criativa de espaços litúrgicos, comunitários e recreativos fomenta uma formação permanente para o relacionamento com Deus e com os outros. Sobretudo a autenticidade dos gestos, de uma palavra, harmoniosamente amadurecidos no silêncio e no tempo necessário, ajuda a construir uma personalidade verdadeira, livre, serena e acolhedora. Essa criatividade espiritual poderá continuar também quando o corpo estiver fraco ou doente: o exemplo de Clara, também neste ponto, deve nos ensinar a manter-nos vivos no amor e a jamais nos resignarmos, a não refugiar-nos no hábito que, inevitavelmente, adormece e paralisa qualquer espírito de iniciativa.

Uma espiritualidade bíblica, litúrgica e carismática
Creio que não seja necessário alongar-nos sobre os muitos documentos da Igreja e da Ordem que - há mais de 40 anos - falam da importância de uma sólida formação bíblica e litúrgica, sobretudo para as pessoas consagradas e, de modo particular, para as contemplativas. Mas que eco tiveram na VIDA de nossas comunidades? Um relacionamento prolongado com a Palavra de Deus não pode deixar de transformar certas "práticas de piedade" que vêm de séculos passados e estão ainda presentes em alguns (raros) mosteiros. Uma liturgia viva, bem preparada e participada não é contra o espírito da clausura; antes, deveria "formar" também o sacerdote celebrante, como pude experimentar em alguns mosteiros. Talvez nos tenhamos limitado a "sábias" conferências sobre a Bíblia ou sobre a Liturgia, pensando, assim, ter obedecido à Igreja. Mas uma vendade que não aquece o coração e não muda a vida não é verdadeiro conhecimento, não é verdadeira formação.

Depois, não devemos esquecer que toda a liturgia, como a própria palavra diz, é um serviço a todo o povo de Deus; por isso, é necessário refletir sobre a acolhida litúrgica aos fiéis leigos que desejam unir-se à oração de nossas comunidades. Todos os mosteiros de Clarissas do mundo recebem pedidos de oração, que lhes são dirigidos por homens e mulheres de perto e de longe; talvez, a partir dos que estão próximos à Família franciscana, seja sobretudo necessário ajudar os fiéis leigos a sentir mais profundamente a oração litúrgica das comunidades de Clarissas e de Frades como uma realidade que lhes diz respeito e não é estranha à sua vocação.

Este desafio, esta transformação na qual muitos mosteiros já estão empenhados será a verdadeira revolução copernicana que garantirá à contemplação sua frutuosa identidade. "Nossas comunidades devem tornar-se autênticas escolas de oração" (João Paulo II, Novo Millennio Ineunte 33).

Freqüentemente damos a impressão de considerar nossa vocação um dado adquirido uma vez por todas, esquecendo que o carisma não é somente uma herança recebida, mas é sobretudo uma responsabilidade de busca diante de Deus e do nosso mundo. Como conseguimos adaptar ou criar novas formas de oração, para fazer que se tornem "exemplo e espelho" (TestCl 19), evangelização e missão em nosso ambiente?

O sentido de pertença
"Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a viver sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos muito para que, de maneira alguma, vos afasteis dela pelo ensinamento de quem quer que seja" (RegCl 6,8-9).

A quem pertencemos? Talvez a resposta (decorada) poderia ser fácil. Mas perguntemo-nos novamente: para onde convergem nossos desejos, nossas preocupações, o que nos provoca sofrimento, em que investimos concretamente energias e tempo? Neste ponto, a resposta é um pouco mais difícil! Penso que muitas vezes não conseguimos concentrar-nos no essencial e nos perdemos no que é secundário, que pode ser a conservação de certas estruturas, a sobrevivência do mosteiro, a procura de vocações, a preço de fazê-las vir (improvisadas) de outros continentes, o "ciúme" territorial.

A quem pertencemos? Ao Espírito de Deus, que nos "inventa" cada dia com a nossa colaboração, ou a algum outro? "Em cada etapa da vida, o Senhor nos pede uma nova resposta" (Paulo VI). E nesta dinâmica de fazer espaço a Deus em nós, devemos dar prioridade ao Evangelho, ao carisma franciscano-clariano, à Família franciscana, mais do que ao mosteiro. Nossa missão tem horizontes amplos! Não é um sonho, mas a verdadeira dimensão de nossa vocação, que exige kénosis e contínua conversão. Exatamente nestes espaços de vida percebe-se mais claramente a necessidade de trabalharmos juntos, convertermo-nos juntos, caminharmos juntos: não nos tornamos santos cada um por si; seremos santos se nos ajudarmos todos juntos.

Formação para o relacionamento
"Amem sempre as suas almas e as de todas as suas irmãs, e sejam sempre solícitas na observância do que prometeram a Deus" (BenCl 14-15).

Hoje, ao falar de formação, é necessário pôr em particular evidência a capacidade de a pessoa se relacionar: relacionar-se consigo mesma, com a própria história, com a própria afetividade, com as próprias derrotas, com os próprios dons que devem ser restituídos ao Senhor. Este é o fundamento das relações com os outros e com Deus. Sobretudo nossa dimensão afetiva deve ser acolhida sem complexos; somente assim é possível chegar a uma serenidade fundamental e gerar uma incrível riqueza de vida que estimula o desenvolvimento harmonioso de uma personalidade. Por vezes vestimos o hábito religioso e pensamos que o resto virá por si. Quantos dramas se lêem em alguns rostos escondidos sob um véu! Dramas não resolvidos, que se tornam infinitas ocasiões de tensão, a ponto de destruir a paz de uma casa por meses e anos. Ao contrário, que "paraíso" a atmosfera de uma Fraternidade onde se aprendeu a conhecer-se, a dialogar consigo mesmo, com Deus, com os outros. "Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jo 13,35).

Temos esta responsabilidade como cristãos e como consagrados; devemos, pois, investir todos os nossos talentos para fomentar uma formação para o relacionamento fraterno e para o relacionamento com Deus. Não existem atenuantes: nem a idade, nem o caráter, nem as tradições podem dispensar desse compromisso.

Para a reflexão
1. Só uma fé "inteligente", a fides quaerens intellectum, iluminada, pode dar um fundamento adequado à opção de viver segundo o Evangelho. Que esforço fazemos e que meios utilizamos para aprofundar nossa fé? Somos capazes de utilizar da melhor forma os dons e os carismas de cada uma, e, neste caso, também sua preparação intelectual, para o bem de toda a Fraternidade?

2. "A Lectio divina faz tirar do texto bíblico a palavra viva que interpela, orienta e plasma a existência" (João Paulo II, NM1 39). Como nos deixamos "plasmar pela Liturgia das Horas, pelas celebrações litúrgicas, pela leitura orante da Palavra de Deus?

3. Quanto "investimos" para estimular uma formação bíblica, litúrgica e carismática, que envolva a vida na sua integralidade?

4. Que espaço damos à formação humana, à valorização de nossa afetividade na vida quotidiana em Fraternidade?




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