Vila Velha, 17/03/2010, 20:16 | FALE CONOSCO |

22/08/2008
SER OU NÃO SER: EIS A QUESTÃO!

Frei Bertolino Tholl, OFM (*)

Em muitas ocasiões, Jesus condenou a duplicidade, o fingimento e a impostura dos fariseus e escribas. E seria um erro pensar que esta postura foi monopólio dos mesmos. Todo cristão é candidato a este sistema hipócrita e mentiroso que se manifesta na dicotomia entre crença e conduta: optando por uma religião formalista sem interioridade pessoal; refugiando-se numa estreita observância legal e esquecendo a conversão do coração; cedendo ao orgulho de se acreditar bom e desprezar os que por qualquer motivo falham; supervalorizando a letra da lei sobre o espírito da mesma; alegando como título diante de Deus o mérito das boas obras como fez o fariseu na parábola do mesmo e do publicano (Lc18,9-14); respirando e bebendo os ares através da ortodoxia teológica, moral e cultural e relegando ao esquecimento o amor ao próximo; repetindo empedernidamente orações como fórmulas vazias; proclamando, quando convém, a primazia da própria consciência por meio de privilégios e epiquéias, enquanto defende ferrenhamente a exata aplicação da lei para os outros.

Aparentar virtude, ciência e poderio, oprimir e humilhar os outros, é um esporte favorito de muitos. Valer-se de títulos que têm ou inventam, sobressair pelo valor, idéias e iniciativas é algo que agrada muito. Cristo, porém, disse: “O primeiro entre vocês será o criado dos outros. Aquele que se enaltece será humilhado, e aquele que se humilha será exaltado”.
 O ataque e a denúncia de Jesus a letrados e fariseus se concentram em duas acusações, que ele pinta à base de traços breves e pinceladas exatas: duplicidade e ostentação.

a) Dupla vida: “Não fazem o que dizem”. Ensinam, interpretam e aplicam a lei muito rígida e minuciosamente para os outros, mas eles não se sentem obrigados em sua vida pessoal pelo que ensinam; “Amarram fardos pesados e insuportáveis e os colocam nos ombros do povo; mas eles não estão dispostos a mover um dedo para levá-los” (MT 23,4). Seguem a lei hipócrita do funil: a parte estreita para os outros e a larga para si.

b) Egocentrismo: “Tudo o que fazem é para serem vistos pelo povo”. Sua religiosidade e honradez são de vitrina e de palco. Cultivam um vedetismo arrogante em seu porte e a ostentação, incham-se de vaidade querendo ser chamados de mestres.

Se quisermos ser cristãos maduros não podemos entender nossa fé como um simples assentimento intelectual a algumas verdades reveladas por Deus, nem sequer como uma ideologia ou um modo de pensar; mas como uma força ativa que, longe de ficar flutuando perdida na suposta esfera sobrenatural, tem projeção no mundo e se encarna em nível da corriqueira realidade cotidiana. Por fidelidade à Palavra de Deus, a fé do homem deve ser ação; fé e amor a Deus e ao próximo devem caminhar unidos sem emenda.

É incontável o número dos que entendem seu cristianismo como ideologia, quando na realidade é práxis. Daí surge o divórcio entre fé e vida, entre crer e agir, entre dizer e fazer. É por isso que o Concílio Vaticano II lamenta este fato da dupla vida e diz que é fonte de anti-testemunho e causa de ateísmo e descrença (GS 43). Diz mais: “Nós, cristãos, velamos com freqüência, mais que revelamos, o genuíno de Deus” (GS 19,3).

Jesus previu isto quando desqualificou a fé que fica num palavrório e não compromete a vida pessoal e pública ao compasso do querer divino: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus; mas sim, aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus” (MT 5,21). É por isso que o apóstolo São Tiago nos alerta contra a permanente tentação do formalismo religioso que se alimenta de ilusões (Tg 1,17s). Ele diz que a religião pura e que agrada a Deus é visitar órfãos e viúvas em suas tribulações e não se manchar as mãos com este mundo (Tg 1,27). Somente quem traduz a escuta e aceitação da Palavra para a prática da mesma, está no caminho da religião autêntica. Impossível manter uma dupla personalidade cristã: a daquele que diz e não faz, a daquele que escuta a Palavra, crê e depois não pratica. Temos de ser cumpridores, e não ouvintes da Palavra que é capaz de nos salvar.

O cristianismo não é mera religião de culto litúrgico e de sacramentos: batismo, primeira eucaristia, missa dominical, casamento, funeral e enterro pela Igreja. Menos ainda se tudo isto não passa de mero ritualismo social, vazio de fé, sentimentalismo espiritual de pura tradição ou, o que seria pior, hipocrisia religiosa. Todas as devoções que temos, a Eucaristia que participamos, devem transformar nossas vidas. Não podemos dizer que somos cristãos se não vivemos os ensinamentos deixados por Cristo. Ser cristão tem um preço: viver o Evangelho.

Pensemos com carinho, durante o mês de setembro, mês da Bíblia, se de fato somos “novas criaturas” e “buscamos as coisas do Alto”. Se somos cristãos autênticos ou se vivemos na hipocrisia religiosa.

(*) Frei Bertolino Tholl, OFM, é Reitor do Santuário Nossa Senhora da Penha


Untitled Document

• O CONVENTO

  Histórico
  Cronologia
  Frei Pedro Palácios
  Ladeira da Penitência
  Museu de Nossa Sra da Penha 
  Festa da Penha 2008
  AACP 

NOTÍCIAS

REFLEXÕES

HORÁRIOS

COMO CHEGAR

NOVENA

IMAGENS

PENHA EM VERSOS


[Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil] - Copyright © 2008 Franciscanos.org.br
Todos os direitos Reservados.