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07/10/2008
Reconstruir a Igreja

Frei Bertolino Tholl, OFM (*)

Irmãos e irmãs, ao celebrarmos a festa de São Francisco, nos preparando para celebrar em 2009, os 800 anos do Carisma franciscano, temos a ocasião de reacender em nós a chama deste Carisma, o sopro do Espírito, que um dia irrompeu em Francisco e Clara, suscitando em torno deles a numerosa família franciscana. Todos somos chamados a reviver o sonho de Francisco.

Numa época em que todos, até mesmo a Igreja de Jesus Cristo, à deriva do Evangelho, estão ocupados com conquistas e guerras, expansão de seu poder, acúmulo de dinheiro e riquezas, Francisco vive e propõe a paz, a simplicidade voluntária e a moderação no uso dos bens deste mundo.

Francisco de Assis, fundador e pai dos Frades Menores, das Senhoras Pobres (Clarissas) e da Ordem dos Irmãos da Penitência (OFS), é reconhecido como um dos santos mais conhecidos e amados e, entre todos os santos, o mais evangélico. Ele foi suscitado pelo Espírito Santo para renovara Igreja e o mundo.

Francisco redescobre o Evangelho que a Igreja havia perdido e O devolve ao povo sedento de Deus. Se Francisco não tivesse nascido naquela época, Deus precisaria suscitá-lo para salvar a sua Igreja que estava em ruínas. Francisco e seus frades foram um dom enviado por Deus à sua Igreja, para a salvação do mundo.

Por isso Francisco não é mais de Assis, dos franciscanos, do cristianismo. Francisco é da Humanidade. Wlademir Lênin, o grande líder da Revolução Russa, do seu leito de morte, teria confessado a um amigo: “Eu me enganei... Para salvar nossa Rússia – agora é tarde demais para voltar atrás – precisaríamos de dez Francisco de Assis”. Ele, mais do que ninguém, soube compreender o Amor do Pai e o seu plano de Salvação do homem, a paternidade de Deus e a fraternidade humana. Ele soube compreender que o jugo de Cristo é suave e seu peso, leve.

O que faz de Francisco este homem notável e qual a razão do fascínio que ele exerce sobre todos? Donde lhe vem tudo isso? Será que era um privilegiado e dotado de qualidades extraordinárias?

Todos os seus biógrafos afirmam que a origem de tamanha grandeza de Francisco estaria no profundo encontro com Deus. Ele mesmo compreendeu sua vida e buscou vivê-la como seguimento do Evangelho de Jesus Cristo, após o encontro com o Senhor. “Foi o Senhor que me mostrou o caminho e o que deveria fazer”. Ele apenas quis seguir radicalmente os passos de Jesus Cristo.

As Fontes Franciscanas nos narram que o primeiro encontro pessoal com Jesus Cristo ter-se-ia dado dentro de uma penosa solidão. Foram meses de completa escuridão. Quantas vezes na igreja de São Damião ele se perguntou: “Senhor, que queres que faça”? E quantas vezes dirigiu a Jesus esta prece, quando seus sonhos de glória e honrarias estavam em ruínas: “Iluminai, Senhor, as trevas de meu coração”. É num encontro de coração a coração que Deus lhe fala: “Francisco, não vês que minha casa está destruída? Vai, portanto, e restaura-a para mim”.

Mendigar e carregar pedras para reconstruir templos foi, sem dúvidas, um dos segredos deste homem. Somente quando ele faz o encontro consigo mesmo, o encontro com os pobres, encontro com o leproso, encontro com o Crucificado, encontro com o Evangelho e encontro com os irmãos, é que descobre a sua missão: aproximar o homem a Deus. É por isso que o Papa João Paulo II, logo após sua eleição, dirige-se ao túmulo de São Francisco e assim reza: “A Igreja constrói-se aproximando Cristo dos homens, a fim de que Cristo possa ser Caminho, Verdade e Vida para o homem de nosso tempo”.

Francisco mostra ao mundo que Deus não é apenas um mistério insondável. Quanto mais abraçarmos o mundo e colocarmo-nos ao lado de suas criaturas, mais nos aproximamos de Deus e nos encontraremos com Ele. Francisco descobre que Deus é humilde e amável e tem compaixão para com o mundo. E diante da humanidade e despojamento de Deus, Francisco escolhe a pobreza como sua amada e entrega-se totalmente a ela com todo o seu ser. Por saber-se pecador, entrega-se a duras mortificações e jejuns, que o tornam feliz e agradecido por ter nascido. Chora com o Amor Crucificado e alegra-se com as visitas de Deus, a ponto de exclamar: “Deus é alegria, Deus é beleza”. Francisco foi capaz de esculpir em cada criatura o rosto amoroso de Deus e por isso as chama de irmãs.

Francisco permanece porque se deixou interpelar pelo Evangelho. Acolheu a graça que lhe foi dada de maneira única e irrepetível. Somente ele é Francisco de Assis. A grandeza de Francisco está em ser plenamente humano. E nós estamos sendo chamados a viver esta utopia de Francisco em nossos dias. Utopia de ter tudo em comum, utopia de ser irmão, de viver uma religião alegre, utopia da confraternização com a natureza, utopia da pobreza, da liberdade e utopia da alegria.

Nós só reconstruiremos a Igreja de Cristo quando nos reconhecermos criaturas e não nos colocando como senhores neste mundo; quando vivermos a fraternidade com todos os seres criados, quando formos irmãos de verdade e quando nos colocarmos ao lado dos leprosos e excluídos de nossos dias. Vamos juntos viver esta utopia, para que deixe de ser utopia e se torne realidade. Assim seja.

(*) Frei Bertolino Tholl, OFM, é Reitor do Santuário Nossa Senhora da Penha


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