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27/03/2009
A Quaresma




A Quaresma só pode ser entendida e vivida à luz do Tríduo Pascal da Paixão, Sepultura e Ressurreição de Cristo. Fundamentalmente, o Tríduo Pascal é a comemoração da morte e da ressurreição de Cristo, a Cabeça, e dos cristãos, os seus membros. É a festa batismal da Igreja. No Cristo morto e ressuscitado ela celebra o novo nascimento dos que são batizados e renova a Aliança batismal dos que já foram batizados. Para esta festa batismal, a Igreja se dispõe pela penitência: a primeira penitência catecumenal dos que vão ser batizados, a penitência de conversão dos pecadores e a penitência renovadora dos que desejam aprofundar sua vida batismal. Por isso, os dois grandes temas da Quaresma são o batismo e a penitência: a primeira e a segunda conversão. Para isso ela tem sua linguagem, seus exercícios de conversão, seus ritos. A Igreja se abre à pregação de Cristo; acompanha sua vida pública, para com ele subir a Jerusalém e com ele morrer e ressuscitar na Semana Santa e na Páscoa.

O exercício quaresmal da oração
Toda a nossa vida deveria ser uma oração, ou seja, uma comunicação com o divino em nós. A oração constitui uma abertura para Deus, para o próximo e para o mundo; um sim de acolhimento, de louvor. É na oração que o homem melhor cultiva seu relacionamento de Filho com Deus, que se revela como Pai.
Durante a Quaresma, a Igreja convoca os fiéis a se exercitarem intensamente na oração, a fim de que toda a sua vida se transforme em oração. Ela evoca o Cristo em oração diante do Pai no deserto e nas montanhas, onde ele passava noites em colóquio. Evocando o Cristo orante, a Igreja torna-se prolongamento da presença do Cristo orante entre os homens.
Se os fiéis souberem viver a autêntica comunhão com Deus na oração durante a Quaresma, conseguirão viver durante o ano todo em oração, transformando também as outras dimensões da vida, como o relacionamento com o próximo e com o mundo, em oração de atitude ou verdadeira devoção.

O exercício quaresmal do Jejum
Se a oração atinge o relacionamento do homem com Deus, o jejum o celebra no seu relacionamento com os bens criados na virtude da esperança.
No seu relacionamento com a natureza criada, o homem é chamado a ser livre, a ser senhor da criação. Acontece, porém, que muitas vezes se escraviza a ela. Por isso, a Igreja convida o homem a realizar um gesto de liberdade e de respeito em relação aos bens criados, através do rito do jejum.
Jejuar é abster-se de um pouco de comida ou de bebida. É estabelecer o correto relacionamento do homem com a natureza criada. A atitude de liberdade e de respeito diante do alimento torna-se símbolo de sua liberdade e respeito para com tudo quanto o envolve e o pode escravizar: os bens materiais, qualidades, opiniões, idéias, apegos e assim por diante.
Jejuar significa fazer espaço em si. Fazer espaço para Deus, fazer espaço para o próximo, fazer espaço para os valores que permanecem.
Jejuando, a Igreja evoca o Cristo jejuando quarenta dias no deserto, o Cristo em sua atitude de liberdade e de domínio sobre a natureza e sobre o mal.

O exercício quaresmal do Jejum
A esmola celebra o relacionamento do homem com o seu próximo, na virtude teologal da caridade.
O que significa a esmola? Dar esmola significa dar de graça, dar sem interesse de receber de volta, dar sem egoísmo, em atitude de compaixão. Nisto ele imita o próprio Deus no mistério da criação e a Jesus Cristo, no mistério da Redenção.
O homem recebeu tudo de seu Criador. Tudo quanto tem, possui-o porque recebeu. Ora, se Deus dá de graça e se o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, se Cristo se doou totalmente, dando sua vida, também ele será capaz de dar de graça.
Quando a Igreja convoca todos os fiéis na Quaresma a darem esmola, ela comemora aquele que por excelência exerceu a esmola: Jesus Cristo. Convida o homem à atitude de abertura ao próximo, convida-o a dar de si mesmo, convida-o a servir o próximo com generosidade e desprendimento. Ora, neste momento a esmola começa a significar toda esta atitude de doação gratuita. Não só de bens materiais, mas o tempo, o interesse, as qualidades, o serviço, o acolhimento, a aceitação.
A Igreja sabe muito bem que não é pela esmola em si que ela vai resolver os problemas sociais e realizar a promoção humana, mas sabe também que é pelo que a esmola significa que ela vai realizar uma verdadeira promoção humana. Não é a quantia que importa, mas que o gesto ou o rito da esmola significa.
Descobrimos, então, que no exercício da esmola está contida a atitude de conversão em relação ao próximo.

(Do livro de Frei Alberto Beckhäuser: Celebrar a vida Cristã. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 201-206)


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