Frei
Ildefonso, já nos últimos anos, vinha lutando com dois problemas
graves de saúde: artrose na coluna cervical e leucemia. Com
os respectivos tratamentos (acupuntura, hidroginástica e quimioterapia)
conseguia ainda levar sua vida com relativa normalidade, apesar
das dores e a perda da articulação do pescoço. Na quinta-feira,
dia 21, pela manhã, ainda trabalhou como de costume, mas já
dava sinais de fraqueza pois não estava se alimentando com normalidade.
Na tarde deste dia, foi levado a Curitiba, para uma avaliação
com seu médico, tendo sido internado no Hospital N. Sra. das
Graças. Na sexta-feira seu estado geral piorou: coração fraco
e início de pneumonia, tendo sido internato na UTI. No sábado,
alertado pelo médico, dada a gravidade de seu estado, o guardião
Frei Pedro da Silva e Frei Jaime Spengler foram visitá-lo e
administraram a unção dos enfermos. Estava semi-consciente.
Na manhã do domingo seu estado permanecia grave. Por volta das
18h20 veio a comunicação de seu falecimento. Levado para Rondinha,
a partir das 00h30, seu corpo foi velado na capela. A missa
exequial foi celebrada às 16h00 do dia 25, seguindo-se seu sepultamento.
DADOS
PESSOAIS E FORMAÇÃO Natural:Palhoça-SC ( 80 anos incompletos) 1936-1943:
Seminário São Luiz de Tolosa - Rio Negro-PR 1944:
Noviciado - Rodeio-SC (1ª profissão: 21.12.44): 58 anos de vida
franciscana 1945-1946:
Filosofia, em Curitiba-PR 1947-1951:
Teologia, em Petrópolis-RJ (Profissão solene: 21.12.1947) 25/07/1950:
ordenação presbiteral (52 anos de sacerdócio)
ESTUDOS
DE ESPECIALIZAÇÃO E ATIVIDADES 1952:
Lages - professor e vice-prefeito do Colégio 1953-1957:
estudos de especialização em História - Roma julho-57-1967:
Petrópolis-RJ - professor, vice-mestre, vice-reitor, redator
Grande Sinal 1968-1973:SP-S.Francisco - Vigário Provincial 1974-julho/76:
Petrópolis - professor agosto/76-jun/77:
ano sabático na Itália e Portugal (pesquisa) julho/77-1982:
Petrópolis - professor 1980-junho/81:
Definidor provincial (residindo em Petrópolis) junho/82-1983:SP-São Francisco - Vig. Provincial (em substituição
a D. Lino) 1983-1990:
Rondinha - professor e vigário da casa 1991-julho/97:Bragança Paulista - IFAN - vigário da casa 1997-2002:
Rondinha - professor
O FRADE
MENOR
Frei Ary Pintarelli, em conversa com os frades estudantes, destacou
dois aspectos marcantes de Frei Ildefonso, nos seus últimos
anos: sua alegria e bom humor apesar do constante sofrimento
e limitação física; trabalhou até o último momento, antes de
sua internação, nas suas pesquisas, aulas, etc. Entre os confrades
estudantes de Rondinha sempre foi uma presença boa e amiga.
Aliás, é bom recordar que ele foi um dos idealizadores daquela
casa, incentivando uma formação franciscana, própria e específica,
para o tempo da profissão temporária.
E foi do primeiro grupo de frades formadores na primitiva residência
na Aldeia Franciscana, já no final de 1982, participando com
entusiasmo desta nova fase da formação na Província. Pediu para
retornar a Rondinha, depois de sete anos, como que para concluir
sua 'obra', lecionando até o final do ano passado.
Pesquisador sério e profundo da história e da espiritualidade
franciscanas, multiplicou seu conhecimento ao traduzir, em linguagem
acessível, as fontes e a história franciscana. Foi ele quem
coordenou a edição do volume São Francisco de Assis - Escritos
e biografias - Crônicas e outros testemunhos do primeiro século
franciscano (Vozes, 1ª edição, 1981). Foram muitos os seus artigos
e livros, e o último (análise histórica de documentos franciscanos)
foi entregue à Vozes no final de 2001.
A pesquisa e o magistério não fizeram dele um intelectual de
gabinete. Frei Ildefonso nunca perdeu a raiz de sua simplicidade.
Gostava de dizer que era um "caboclo de Palhoça"! Isso transparecia
no seu gosto pelas coisas simples da vida: cuidar dos pássaros,
mexer na terra e cultivar suas plantas; sua criação de peixes
na lagoa de Rondinha e, nos últimos tempos, descobriu o hobby
da culinária, fazendo suas experiências na cozinha. E os confrades,
comiam...
Outro traço significativo de sua rica personalidade era o modo
como lidava com a crítica histórica dos documentos e fontes:
como cientista e técnico, não fazia concessões no método de
pesquisa; como frade menor, sabia burilar o essencial na interpretação
dos fatos, resgatando o valor primordial das coisas. Certamente,
este equilíbrio do bom senso brotava de sua espiritualidade
pessoal, cultivada na oração, na palavra de Deus e na eucaristia.
Numa geração de confrades, seus alunos em Petrópolis na década
de 70, ficou conhecido como "Costinha", pela semelhança física
com o humorista. Mas, mais do que isso, era seu bom humor e
sua alegria que o tornaram alguém estimado por todos; porque
Frei Ildefonso conseguiu fazer de sua vida aquela síntese da
qual fala S. Francisco no primeiro Elogio das Virtudes: "Salve,
rainha sabedoria, o Senhor te guarde por tua santa irmã, a pura
simplicidade"! Descanse em paz!
MEMÓRIA
DE UM HISTORIADOR
No dia 24 de fevereiro, a Província e a Ordem perdiam um ilustre
pesquisador, Frei Ildefonso Silveira.
Relatar a presença fraterna de Frei Ildefonso em nosso meio
é difícil: não podemos fazer "florilégios" demasiados, uma vez
que temos de respeitar a memória de um historiador que, em suas
fontes de estudo, sabiamente empregava uma minuciosa crítica
histórica.
Frei Ildefonso sofria de duas graves doenças: leucemia e artrose
cervical, que o faziam sofrer muito! Sofrimento que aprendeu
a suportar em silêncio, até o fim. E até o fim manteve o seu
jeito extrovertido, testemunho de sua felicidade e, acima de
tudo, de um frade realizado. Nos últimos dias, a única coisa
que ele dizia de seu estado de saúde era: "A minha cabeça está
pesada".
O professor Frei Ildefonso era um querido "velho chato" em suas
exigências acadêmicas. Verdade esta constatada pelo fato de
que poucos, ou raríssimos estudantes conseguiram um dez na matéria
ministrada por ele. Costumava dizer: "Você está contente com
isso?", ou ainda, "Será que não haveria algo a mais a dizer
sobre esse texto?" - características próprias de um verdadeiro
mestre que queria levar o aluno a dar o máximo de sua capacidade.
Três foram os "xodós" de Frei Ildefonso: sua biblioteca particular
(jamais esquecia para quem emprestava um de seus livros), seus
cachimbos que davam um odor particular às suas coisas, e seus
canários, que ele fazia questão de tratar pessoalmente todos
os dias. Nos últimos anos, Frei Ildefonso trabalhou com afinco
em pesquisas e auxiliou na tradução de alguns textos das Fontes
Franciscanas. Parte de suas pesquisas estão por ser publicadas.
Apesar de suas várias obras e de seu conhecimento, Frei Ildefonso
era uma pessoa simples em todos os aspectos.
Recordando sua pessoa podemos citar São Boaventura: "A simplicidade
é a porta para a sabedoria". Frades Estudantes 2002