Faleceu
no dia 06 de novembro, em São Paulo-SP, aos 83 anos de idade,
em consequência de insuficiência cardíaca. Irmã de sangue de
nossos dois confrades, Frei Carmelo e Frei Floriano, e nossa
irmã por vocação franciscana, afiliada à Ordem Primeira desde
1980, por iniciativa de Frei Antônio Alexandre Nader. Léa nasceu
no dia 5 de fevereiro de 1920, na cidade de São José do Rio
Pardo-SP, filha de Leopoldo Surian e Emília Guaraldo Surian.
O casal teve 13 filhos. Posteriormente a família mudou-se para
a São Paulo, com residência na Rua Riachuelo, aos fundos do
Convento São Francisco, onde os filhos cresceram na convivência
com os frades e na participação da vida da Igreja.
Léa Surian, juntamente com Alice da Silva Ramos e Olga Barone
faziam parte da equipe de catequistas da paróquia e, também
do grupo teatral. Com outras jovens, eram colaboradoras constantes
de Frei Dâmaso Venker e Frei Maximiliano Kaufhold. Da mesma
forma, seus irmãos e irmãs também cresceram neste ambiente franciscano
familiar. Seguiram-se os anos de estudo e profissionalização
destas jovens. Léa ingressou no Ministério Público em 1954,
como Secretária da Corregedoria Geral. Em 1970 ficou à disposição
da Secretaria do Trabalho e Administração no Governo de Abreu
Sodré. A partir de 1980, ficou à disposição do Gabinete da Secretaria
da Justiça.
Com Alice e Olga, mesmo durante o tempo de suas atividades profissionais,
Léa também continuava colaborando nos serviços de secretaria,
com Frei Ludovico Gomes de Castro (1945-1952) e, posteriormente,
com Frei Walter Kempf (1962-1968). Era pessoa da confiança dos
provinciais que confiavam a ela muitos dos serviços de redação,
revisão e correspondência oficial e comercial. No período em
que Frei Ludovico ocupou-se em tempo integral na supervisão
das obras de construção do Seminário de Agudos, Léa Marina já
lhe garantia sua ajuda com o trabalho em São Paulo.
Porém, ao lado da sua competência profissional, e ao longo dos
anos desenvolveu paralelamente seu talento em diferentes atividades
artísticas. Ainda menina, iniciou-se na "Arte de Dizer" (declamação
de poemas e textos teatrais), sob a orientação e o incentivo
de seu pai, Leopoldo Surian. Com a vinda da família para São
Paulo, Léa conquistou espaço e condições de estudo e aperfeiçoamento,
dedicando-se também às atividades de teatro, televisão e cinema.
Seu currículo artístico é extenso. Frequentemente era convidada
pelos frades para apresentações em nossas casas de formação.
Em 30 de junho de 1980, por ocasião da celebração do jubileu
de prata sacerdotal de seus irmãos Frei Floriano e Frei Carmelo,
em São Lourenço-MG, Frei Ildefonso Silveira, então Definidor
Provincial, em nome de Frei Basílio Prim, entregou o documento
da Cúria Geral da Ordem, concedendo à Léa Mariana Surian sua
afiliação à Ordem dos Frades Menores. Alguns dias depois, Léa
escreveu uma carta de agradecimento ao Ministro Provincial Frei
Basílio Prim, da qual destaco dois pensamentos seus:
1) Ao agradecer-lhe, comovida, o privilégio, surgem à
retina de minha lembrança afetiva, as saudosas e inesquecíveis
figuras de Frei Dâmaso Venker, Frei Heliodoro Müller, Frei Walter
Kempf, e ainda do estimado Frei Ludovico Gomes de Castro, com
os quais tive a grata oportunidade de colaborar mais efetivamente,
e apenas apoiada na recordação desse passado, é que recebi humildemente
o DOM franciscano com que fui generosamente contemplada, pois
ele me encontrou, no presente, de "mãos vazias.
2) Quero reafirmar aqui a minha gratidão, a minha fidelidade
e o meu amor à sempre querida Ordem do Seráfico Pai, envovendo
a todos os caríssimos "confrades"...
Revestida com o hábito franciscano, Léa Marina foi velada na
nossa Igreja e Santuário de São Francisco, já na primeiras horas
da manhã do dia 6, acompanhada com as orações de sua irmã Maria
José e de inúmeros sobrinhos(as) e familiares. Frei Floriano
estava em Agudos visitando o irmão Frei Carmelo, e chegou em
tempo da missa exequial.
Às 12 horas teve início a missa presidida por Frei Augusto Koenig
e concelebrada por Frei Floriano, pelo Visitador Frei Antônio
Schauerte, pelos Definidores reunidos no Congresso Capitular
e pelos demais confrades da fraternidade local. O texto escolhido
do evangelho foi o da parábola das dez jovens (Mt 25, 1-13).
Na homilia, Frei Augusto ressaltou que o "óleo da lâmpada" é
a vivência das virtudes, acumulado ao longo de toda a vida,
e que isto se constitui na verdadeira vigilância, para a qual
a morte não representa ameaça, ruptura ou fim. Aplicou a mensagem
à nossa irmã Léa que, como franciscana, encheu a 'lâmpada' de
sua vida com o óleo da caridade!
Num segundo momento da reflexão, Frei Regis Daher recordou alguns
aspectos da pessoa e da vida franciscana de Léa Surian, mencionados
neste artigo. Lembrou ainda as palavras que Frei Basílio Prim
escreveu na carta de congratulação por ocasião da afiliação
de Léa à Ordem Franciscana:
Sei que não é somente agora que lhe soou 'a hora de São Francisco'.
Ele já faz muito tempo fazia parte de sua vida. Mas, o fato
de estar agora oficialmente agregada à Ordem significa de algum
modo que São Francisco lhe dá pela segunda vez o santo Evangelho.
Que, na expressão de Frei Egídio, daqui em diante, toda vez
que pronunciar o nome de Francisco, sinta uma grande doçura!
É esse o meu desejo.
Da palavra de Frei Basílio destaquei algumas idéias: >> Léa,
Frei Carmelo e Frei Floriano e ao demais irmãos e irmãs, nasceram
e cresceram num lar verdadeiramente cristão e religioso, iluminados
pelo exemplo e testemunho dos pais. Nasceram e cresceram num
"lar franciscano". A mãe, D. Emília viveu para a família, para
os pobres e para os leprosos. Em 1974 ingressou na OFS. Da família
Léa 'recebeu pela primeira vez o Evangelho'.
. Da sua convivência com os frades e pelo serviço que
prestou à Igreja e à Província, em especial, pelos anos vividos
à sombra do Convento São Francisco, Léa 'recebeu pela segunda
vez o Evangelho'.
. Por ocasião da morte de sua mãe, D. Emília, em 11.06.1978,
Léa Marina "sentindo o desenlace, foi-lhe dizendo ao ouvido
as últimas estrofes do Cântico do Sol até adormecer no Senhor".
Agora, na sua "hora", Léa 'recebeu pela terceira vez o Evangelho',
no seu encontro definitivo com o Cristo, através da irmã Morte,
e esta, "não lhe fará mal"!
Ao final da missa, Frei Floriano, em nome de Frei Carmelo e
da família, agradeceu a Deus, o dom da vida e da arte com que
Léa anunciou o Evangelho. Frei Augusto rezou as orações da encomendação
e, às 15 horas seguiu-se o sepultamento no Cemitério do Morumbi,
no jazigo da família. Que Deus seja tua recompensa e teu descanso!