Rondinha, 02/09/2010, 17:32
 
 

02.07.09





Por Frei Geovany Mendonça

No final do mês de junho, a Fraternidade São Boaventura, de Rondinha, teve a alegria de acolher o grande liturgista, escritor renomado, Frei Alberto Beckhäuser. Frade Menor da Província da Imaculada Conceição, Frei Alberto é professor do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (ITF). Em 1967, obteve a láurea para o Doutorado em Liturgia e Música Sacra, com especialização em Liturgia, pelo Pontifício Ateneu de Santo Anselmo, Roma, Itália. Autor de 25 livros publicados, 10 livros publicados em parceria, 6 obras traduzidas, 182 artigos em revistas, além da colaboração em 18 livros de vários autores, 33 trabalhos apresentados em eventos e participação em 29 livros ou coleções, seja na coordenação, na montagem ou na revisão. Dentre os seus grandes trabalhos, destacam-se o auxílio prestado à Igreja Católica Apostólica em âmbito nacional, na montagem da Liturgia das Horas, na confecção do Lecionário Franciscano e na organização do Missal Romano. Afirma, ainda, Fr. Alberto, que, além de Liturgia, a sua grande paixão é a espiritualidade franciscana, à qual se dedica como incansável estudioso, além de ministrar palestras, seminários e trabalhar na confecção de suplementos franciscanos, orações franciscanas e atuar no meio do povo como vigário paroquial em Petrópolis (RJ).

Site Rondinha – Frei Alberto, qual é o panorama religioso atual brasileiro? Quais os desafios que a Igreja encontra frente a esta realidade?
Frei Alberto Beckhäuser – Estamos situados numa cultura de consumismo, que se reflete também na liturgia. Ninguém busca mais a religiosidade e a fé. Atualmente, os grandes templos procurados pelo povo não são mais as igrejas, mas sim, estádios de futebol e shopping centers. Em meio a esta realidade surge a grande questão: o domingo é Dia do Senhor ou do esporte e do lazer? O que fundamenta tais ações? Outro desafio é o crescimento qualitativo e quantitativo da Igreja Católica, onde se encontra de um lado uma concepção ritualista e tradicionalista, e do outro, uma corrente progressista, transformando os fiéis em platéias e o presbitério em palco de shows, esquecendo-se daquilo que é o fundamental: a celebração do Cristo Eucarístico. O padre, nesse sentido, tem de assumir o papel de comunicador da Boa-Nova de Cristo e não ser mero animador de espetáculo. Assim, denota-se que a grande problemática atual é a exploração das emoções e o não acolhimento de algumas mudanças propostas em 1971, nos documentos da Igreja Católica, que não foram acolhidas, como por exemplo, de se rezar todos juntos o “Por Cristo, com Cristo e Em Cristo...”, fazendo deste momento a experiência viva de Cristo e reconhecendo que a liturgia é a celebração da Vida. Caso contrário, esquece-se do rito ou ideologiza-se o rito. A homilia, não deve ser moral e ideológica, mas direcionada à abordagem da liturgia em sua espiritualidade. É preciso visualizar a teologia como fonte de revelação da fé, demonstrando aquilo que a Igreja crê. O importante é viver o mistério da liturgia, não desmerecendo o rito, pois a liturgia não existe sem os ritos, mas é preciso dar vida aos ritos, aos símbolos.

Site de Rondinha – Nos últimos anos, a Igreja Católica vem sofrendo com a crescente evasão da fé católica, onde fiéis que se declaravam católicos passaram a procurar outras religiões. Como o Sr. Analisa e se posiciona diante dessa situação que se depara a Igreja Católica na realidade brasileira?
Frei Alberto Beckhäuser – Na verdade, a Igreja Católica nunca teve esses fiéis, porque a Igreja Católica não se preocupou com a perseverança desses de seus fiéis. Eles são católicos porque são batizados, mas não vivem a fé que professaram e nem participam ativamente da vida da Igreja. Esta problemática que emerge diante de nossos olhos é uma questão que surgiu no Brasil em sua colonização, provinda da cultura de exploração que se fixou em terras brasileiras. Não houve a preocupação em estabelecer comunidades para o estudo da religiosidade, levando o cristão a uma experiência profunda da fé. Ao contrário, a cultura brasileira se findou na exploração onde todos querem tirar proveito. Não se tem o senso de bem comum, mas o que importa é o bolso! Esta é a cultura brasileira! Outro motivo para tantos egressos da fé cristã é a falta de pastores. Com isso, multiplicam-se os agentes pastorais e recomenda-se aos sacerdotes para estarem junto ao povo levando a mensagem do Evangelho: humanizar o povo de Deus! Há de se considerar que estamos numa crise de valores, onde a ciência e a criação de novos ídolos caracterizam os tempos atuais pelo relativismo; nada mais é absoluto. O absoluto para o homem é o gozo momentâneo. Por exemplo, o casamento. Não se pergunta mais qual é o valor do amor. Casa-se, hoje, para se divorciar amanhã! Da mesma forma, acontece na religião. Vai-se à igreja somente se der prazer! Para reverter esse quadro é preciso viver e testemunhar o evangelho e conceber uma nova forma de catequese. Uma catequese que não seja doutrinária, mas que seja iniciação à fé cristã, tendo como lugar privilegiado a própria liturgia.

Site de Rondinha – Vê-se, atualmente, a integração que a Igreja faz com os meios de comunicação como meios de propagação da mensagem cristã. Todavia, qual a contribuição que a liturgia pode possibilitar à comunicação social e ao uso desses meios comunicativos?
Frei Alberto Beckhäuser – O grande problema nesta relação é não entender o que é liturgia. Os meios de comunicação têm por missão favorecer a comunhão. Esta, por sua vez, vem da mesma raiz que a palavra comunicar: comunas. Isto para demonstrar a experiência de se tornar dois em um, em um mesmo projeto. É o que acontece com o mistério do esposo e da esposa. Assim, há de se compreender que a liturgia é o mistério da Encarnação, a realidade do amor divino-humano. Não é mistério intelectual, mas é realidade humana. Comunhão, portanto, é compromisso para entrar em Seu projeto, Corpo e Sangue, existindo uma reciprocidade da ação e da realização humana e divina.

Site de Rondinha – Frei Alberto, qual é a mensagem que você gostaria de deixar àqueles que visitam este site?
Frei Alberto Beckhäuser – Primeiramente, não use os meios de comunicação para provocar o consumo, mas sim, como instrumento de evangelização. Em segundo lugar, sinto que falta o sentido de amar e de vibrar com a Igreja. Se Jesus Cristo não é mais o sentido de nossa existência, de nada adianta. Falta, também, entusiasmo em acreditar no carisma franciscano, com todos os desafios que surgem, reconhecendo como grande ícone da evangelização São Francisco de Assis.


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