Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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I. Leitura Espiritual
Os olhos de Simeão se arregalaram...

1. Maria e José se dirigem ao templo quarenta dias após o nascimento do Menino, para cumprimento de  um preceito religioso.  Aceitam cumprir as prescrições da lei pelo nascimento de seu menino. Esta ação é marcada por humildade e pobreza.  Entram no templo para oferecer o primogênito, mas também para a purificação da mãe. Gesto profundamente religioso, marcado pela confiança e pela entrega.  Podemos transpor a cena para nossos dias e pensar nesses pais e mães que, saindo da maternidade, se dirigem à igreja que freqüentam para apresentar seu filho ou sua filha a Deus. Os filhos não são propriedade dos pais, mas dom da vida. Os pais cristãos se dão conta, mesmo antes do nascimento dos filhos, que eles são responsáveis em preparar o coração de seus filhos para encontrarem o mistério de Deus e a ele se entregarem. As crianças não nascem para ser “amestradas” no sentindo de serem discípulas de uma sociedade de consumo e de individualismo. Elas devem se abrir para o mistério de Deus. Por isso, desde o começo são “apresentadas” ou “oferecidas” a Deus. Ao longo de suas vidas serão “treinadas” na arte da entrega.

2. Podemos imaginas alguns pormenores da cena da apresentação do Menino que não aparecem no texto de Lucas.  Maria, muito jovem, seu companheiro José. Ambos, de pés no chão, a criança de poucos dias enrolada em panos, a mãe  que é quase uma menina. Levam uma gaiola com dois pombinhos ou duas rolinhas.  A cena lembra essa  gente do interior que traz  ovos, frutas e legumes na hora das oferendas. A apresentação das oferendas das Igrejas de Angola, por exemplo, são vivas, alegres: mandioca, cabritos, laranja, tudo acompanhado com danças que exprimem coisas que vão no mundo do coração religioso.  A cena evoca também essas mulheres que, na hora das oferendas, tiram de seu lencinhos umas poucas moedas que possuem e as ofertam não como o que lhes sobra, mas tudo o que têm.

3. Lucas fala que no templo estava a veneranda figura de Simeão, o ancião de tantos anos, o ancião das barbas brancas, o ancião dos olhos que brilhavam com a luz que vinha dos olhos do menino. Era um homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel. A mãe tira os panos que envolviam o recém-nascido porque o Ancião para diante deles. Há um júbilo inaudito no coração do homem. Declara ele que tinha visto a salvação prometida a Israel e que, agora, o Senhor poderia despedi-lo em paz. E palavra chave deste texto e desta festa é a da luz.  O ancião das barbas brancas viu a luz que foi preparada desde toda eternidade para iluminar os caminhantes das trevas.  Maria, a jovem mãe e  José talvez pouco tenham entendido da “pequena teologia” de Simeão.  Na fragilidade da criança  estava a luz. Por isso,  a 2 de fevereiro nos lembramos  de Nossa Senhora das Candeias ou da Candelária.

4. Há uma pequena palavra de Simeão que nos faz sentir aperto no coração. “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te traspassará a alma”.  O Missal Cotidiano da Paulus, de maneira sintética” explica esta passagem: “Simeão, iluminado pelo Espírito, vê naquele menino o poder de Deus que, através do sofrimento e da morte,  realizará a salvação do mundo. Também a mãe é convidada a participar desta prova de amor, mediante a dor: “uma espada há de transpassar-te a alma”. A luz que ilumina as pessoas passa pela obscuridade da dor; esta permanece o mais seguro caminho para ser do número dos salvos e tornar-se salvador” (p. 109).

5. Misturam-se alegria e apreensão do coração, júbilo e sofrimento. Simeão esperava a Consolação de Israel.  Lucas evoca o Servo Sofredor marcado por abandono e dor. Esse Menino, que é apresentado no templo,  tem já as tintas e as cores daquele que perderá toda a beleza no alto do patíbulo.  Eloi Leclerc lembra que a expressão Consolação de Israel nada tem de adocicado na boca do ancião. O servo de Javé que seria a consolação “conheceria um destino trágico: rejeitado, injuriado, reduzido ao silêncio, será condenado à solidão, à humilhação, esmagado pelo sofrimento e condenado à morte. E contudo, essa morte, mais do que sua doutrina, seria caminho de luz e para todos.  O castigo que nos dá a paz pesou sobre ele e, graças às suas chagas, fomos curados...” (Is 53, 5)  (E. Leclerc, O povo de Deus no meio da noite, Ed. Franciscana, Braga 1979, p. 147).

6. Mais tarde, bem tarde, quando Maria não for mais a quase menina do Natal e da Apresentação, quando ela estiver ao pé da cruz, com o coração cheio de interrogações e perguntas, quando  suas unhas fincarem o madeiro da cruz, quando na terra inteira não houver dor igual à sua, nesse momento ela terá compreendido as palavras de Simeão. Na cena da Apresentação  começa “o mistério do sofrimento, que atingirá o cume aos pés da cruz. A cruz é a espada que traspassará a alma de Maria. Todo primogênito judeu era o sinal permanente e o memorial cotidiano  da “libertação”  da grande escravidão: os primogênitos do Egito haviam sido poupados. Jesus, porém, o  Primogênito por excelência, não será poupado, mas com seu sangue trará a definitiva libertação” (Missal Dominical da Paulus,  p. 1309).

7. E.Leclerc, admiravelmente, assim reflete: “Maria sentiu apertar-se-lhe o coração. Viera muito feliz apresentar o filho ao Senhor e oferecer-lhe o sacrifício de duas rolas. Mas as palavras do ancião e o Espírito que o inspirava projetaram de súbito em sua alma uma luz  trágica. Não ela não ficava desobrigada com as duas rolinhas brancas. Estas eram apenas uma figura pálida. A realidade era outra. “Não quiseste sacrifício nem oblação, mas preparaste-me um corpo. Os holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis-me aqui, porque de mim está escrito no livro: Venho ó Deus, para fazer a tua vontade”.  Maria contempla seu filho nos braços do ancião. A carne de sua carne seria um dia a vítima. O seu filho seria o Servo desfigurado que se obstinariam em abater e que se ofereceria à morte para a salvação de todos. Oh! Por que nela esta violência e dilaceração entre a carne e o espírito?... O silêncio era completo. Maria ouvia apenas as palpitações de seu próprio coração Acabava de entrar na noite de Deus. Jamais se sentira tão pobre, tão afastada do Senhor. E contudo nunca estivera dele tão próxima” (E.Leclerc, loc.cit., p.152-153).

8. R.Cantalessa  escreve que Simeão fala de sua morte. Mas vai mais além. “O Nunc dimittis” (hino que recitamos todos os dias nas Completas) não serve apenas para a hora de nossa morte e de nossos jubileus. Ele nos incita agora a viver e a trabalhar com este espírito, a libertar a casa que construímos, pequena ou grande de modo que possamos deixá-la com a serenidade e a paz de Simeão.  Vivendo com o espírito da páscoa, com a cintura cingida, o bastão na Mao, sandálias nos pés para abrir a porta para o Senhor quando ele chamar. Para poder fazer isto necessário também que estreitemos o menino em nossos braços. Tendo-o junto do coração será mais fácil.  Simeão olha com tanta serenidade sua própria morte porque sabe que agora voltará encontrar, para além da morte e que será um estar com ele de um outro modo” (Los mistérios de Cristo en la vida de la Iglesia).

9. No dia da apresentação do Senhor, 2 de fevereiro,  ocorre a passagem do dia dos religiosos.   No tempo das revisões dos papéis dos diferentes membros da Igreja não se pode diminuir a beleza e grandeza da consagração dos religiosos e religiosas. Leigos, solteiros ou casados, se consagram no meio do mundo.  A Irmã Noëlle Hausmann, num livro a respeito da vida consagrada (Où va la vie consacrée? Essai sur son avenir en Occident) fala a respeito da consagração dos religiosos: “ Na vida consagrada, a muitos títulos, é particular  a consagração a Deus que ai se realiza.  Antes de tudo porque é a profissão dos conselhos evangélicos, meio de uma tal consagração  (a vida consagrada a Deus pelos conselhos evangélicos, diz a expressão completa de Perfectae Caritatis 1);  entre os múltiplos conselhos que a tradição mais representativa canoniza nos três votos, a castidade é o primeiro, historicamente sem dúvida, ontologicamente, sem contestação: uma resposta total de amor é assim dada por alguns cristãos a um Amor que eles acreditam ser tal que  inclui todos os outros.  Particular, esta consagração o é no que tange a tal pessoa determinada, sob um modo difícil de descrever, e também de reproduzir, pode-se “copiar-colar” o Amor? Particular, esta forma de vida o é ainda no que ela  chama o regrupamento dessas experiências únicas e não repetíveis: a historia nos mostra como essas vocações  se atraem, se regrupam, se unem para a realização de projetos partilhados.  Esta consagração, enfim, tem um lugar todo especial na Igreja católica  que outras vocações paradigmáticas não esgotam: a de deixar aberto o lugar de uma experiência espiritual que não seja exclusivamente ministerial, como o sacerdócio, nem totalmente contingente como o casamento, mas simplesmente visível e identificável, como um sinal de Deus acolhido na vida de um homem. Há muitas vidas consagradas a Deus no universo cristão. Algumas delas  constituem um segredo que somente o Pai pode ver.  Outras, no entanto, manifestam desde o começo evangélico, que o Senhor já tomou posse de seu Reino, como canta a multidão do Apocalipse (Ap 19,6).  A Igreja percebe nessas vidas consagradas seu semblante de eternidade” (p. 159-160).

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