II. Patrimônio franciscano
Vinte e cinco memoriais sobre a vida espiritual
de São Boaventura
(continuação do 1º capítulo)
Continuamos a publicar os Memoriais especiais sobre a vida espiritual de São Boaventura, iniciados no número precedente desta revista eletrônica.
11. Da solidão e das vigílias: Ansioso pela santa e pacífica solidão considera como preciosa a prática das vigílias, ofertando nelas a Deus as tuas orações com atenção nas palavras, com fervorosa devoção e com profunda humildade.
12. Do divino ofício: Ao rezares o ofício divino, recolhe-te em ti mesmo de tal sorte que te esqueças de tudo o que é terrestre, e concentrado o teu espírito na contemplação dos mistérios celestes, o recites com tamanha devoção, respeito, jubilo e temor como se estivesses no meio dos coros angélicos e juntamente com eles oferecesses os louvores à divina majestade.
13. Da devoção à gloriosa Virgem: Com grande afeto e veneração afeiçoa-te sempre à gloriosa rainha, Mãe de Nosso Senhor, e a ele volve, como a um refúgio seguríssimo, em todos os instantes, tribulações, necessidades, pedindo-lhe apoio do seu patrocínio, tomando-a por advogada e confiando-lhe devota e seguramente a tua defesa, pois ela é a Mãe da misericórdia. Todos os dias procura oferecer-lhe algum obséquio particular. E para que a tua devoção lhe seja agradável, e aceita a tua veneração, empenha-te em imitar-lhe os exemplos de humildade e mansidão, conservando solicitamente incontaminada em ti a virtude de sua castidade na alma e no corpo.
14. Evita a companhia de mulheres, e procura um diretor espiritual - Em toda parte evita estar com mulheres e com jovens imberbes, exceto em caso de necessidade ou necessidade manifesta. Onde quer que te encontres busque um único diretor espiritual que seja um varão santo, discreto, manso e piedoso, mais douto pela experiência da virtude que pela sublimidade da doutrina. Que ele te instrua e te inflame no divino amor com palavras e exemplos eficazes e abrasados. A ele acolhe em todas as necessidades para teu consolo espiritual.
15. Da fuga da indolência e da tristeza – Repelindo com energia toda indolência e tristeza nas quais se esconde o caminho da perturbação que conduz à morte, vive sempre tranqüilo e sereno, interior e exteriormente. A nada contradigas ou te oponhas, mas, concorda com todos, em tudo e por tudo, desde que não seja contra a glória de Deus e o bem das almas.
16. Aceita o bom exemplo dos outros - Conforma todos os teus afetos com a vontade divina. Tudo te edifique e nada neste mundo perturbe a graça da pureza e inocência que te outorgou a bondade divina. Não te manches com as imundícies alheias, escandalizando-te dos defeitos dos outros, acrescentando iniqüidade a iniqüidade. Não suceda que, procurando salvar a outrem, caias tu mesmo naquele abismo ainda pior. O melhor é cobrires caridosamente aquelas faltas que não podes remediar sem dano próprio e as abandonares às mãos da grande Sabedoria que mesmo do mal sabe tirar o bem. Destarte, com a permissão do Senhor, poderás reunir proveito espiritual não só de todos os bens, mas ainda de todos os males.
17. Da guarda do coração - Vigiando com solicitude o teu coração e dedicando-te exclusivamente a exercícios espirituais, não consintas que se imprimam neles as imagens das coisas visíveis, a fim de que, abstraído de todas as criaturas, possas abandonar-te desembaraçadamente ao Criador de todas.
18. Da caridade para com o próximo - Considerando em todos os homens a imagem e semelhança da divina majestade, ama-os com afeto de uma genuína caridade. Interessa-te por todos, especialmente pelos enfermos e necessitados, contanto que daí não te nasça alguma distração prejudicial às coisas espirituais. Ama-os, como uma boa mãe ama o seu filho único.
19. Da oração e da santificação do trabalho - Mantém a tua alma constantemente voltada para Deus de tal sorte que toda obra e exercício quer mental, quer material, seja uma oração. Desempenha todos os teus ofícios, sobretudo os mais humildes, com tamanho fervor e caridade como se os prestasses a Cristo em pessoa. Podes e deves pensar que assim efetivamente é, porquanto ele mesmo diz no evangelho: Tudo o que fizestes e algum dos meus irmãos, a mim é que fizeste.
(Continua no nº 3 do mês de março)