Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
     FR. ALMIR R. GUIMARÃES
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V. Textos e temas vocacionais
POR QUE TORNAR-SE
HOJE RELIGIOSO
FRANCISCANO?

A conversão é um dinamismo que deve ser renovado nos diversos momentos da existência, nas diferentes idades, e sobretudo quando o tempo que passa conduz o cristão a se adaptar ao mundanismo, a ser vencido pela fadiga, a perder o sentido e o objetivo de sua vocação, e a viver a fé numa espécie  de esquizofrenia  (Enzo Bianchi, Dar sentido ao tempo, Loyola, p. 34)

Inegavelmente os que buscam o caminho da vida consagrada são pessoas que estão em estado de conversão. São jovens dispostos a não perderem o sentido de um chamamento.  A vida religiosa não é apenas um “estado”, mas um dinamismo que leva aqueles que a abraçam a se vincularem ao Senhor através de um vínculo esponsal de entrega. Algumas províncias franciscanas no Brasil e no mundo conhecem sérias dificuldades de  recrutamento. Outras, mesmo com poucos novos candidatos vão renovando suas fileiras sem a pretensão numérica. Uma Pastoral Vocacional precisará sempre atuar com lucidez. O que pode explicar ou como entender as motivações de alguém que, hoje, de modo particular em nossa Província, deseja ser frade menor?  Será que formandos e formadores  têm condições de responder a esta questão?  A Vida Religiosa e também o caminho franciscano hoje não são realidades evidentes. Precisaremos dar ao mundo as razões de nossa esperança, ou de nossas opções. Ao longo do tempo da formação, os jovens franciscanos precisarão exprimir as razões pelas quais dão esse sentido à sua vida. Em todo caso, os que ingressam em nossas fileiras, querem descobrir a verdade de seu próprio ser.

Pode-se  pensar que um autêntico vocacionado seja uma pessoa interiormente inquieta, que não se satisfaz com uma morna religiosidade expressa em alguns gestos piedosos, meia dúzia de orações e uma atividade feita sem alma.  Os que querem ser religiosos franciscanos  vivem um processo de deslumbramento diante de Deus e de desejo de se distanciar de toda sorte de mediocridade.  Fundamentalmente são pessoas generosas.

Seria uma pessoa “picada” por uma misteriosa presença ( de Cristo ) que chama, convoca e questiona: realmente um  vocacionado. Procurando esclarecer sua estrada de Damasco, o rapaz que quer se tornar religioso franciscano fará o delicado trabalho do discernimento.

Será uma pessoa que não quer viver uma existência banal mas fazer penetrar todos os momentos de sua vida cotidiana de um vigor que lhe vem de fora: abomina a mediocridade.  Não quer apenas ser missionário não se sabe onde, em que terra longínqua, mas toda sua pessoa se fará presente nesse cotidiano que pode parecer banal mas que é o terreno da heroicidade: cuidados caseiros, trabalhos pastorais, vontade constante de sair do centro da passarela.

Será  uma pessoa que, através de leituras, experiências e retiros, começa a compreender que precisa dar lugar em si ao Outro e aos outros: quer ser para... Não entra na vida religiosa para olhar num espelho qualquer narcisisticamente.

Seja um jovem que queira viver o Evangelho, que não admite uma religião minimalista: como Francisco tem qualquer coisa de radical.

Seria uma pessoa que deseja fazer, ao longo da vida, uma profunda experiência de Deus na oração e no serviço do Cristo de modo especial  presente nos mais excluídos.  Não admitirá que seus passos e suas ações sejam feitos automaticamente, sem uma referência, ao Bem, sumo Bem, todo o Bem.  Os formadores haverão de propiciar aos jovens formandos ocasiões de fazerem “profundas” experiências de Deus, sem o que não poderão autorizar que estes façam profissão.

Os jovens, no tempo da formação, estão bem conscientes de há um mundo novo em gestação. Sabem que a nossa Ordem busca caminhos novos e eles, na sinceridade de suas vidas,  trazem aos que já fizeram uma parte da caminhada o novo que nos permite a todos viver conforme Francisco queria e não sobreviver. Os que entram não são convidados simplesmente a ocupar o lugar em postos que os antigos não podem mais ocupar.  Os vocacionados não poderão esperar que os que já avançaram no caminho possam lhes dar “receita” pronta. Será preciso criar. Os que ingressam em nossa Provincia precisam fazer suas as palavras do Ministro Geral : “Não podemos contentar-nos em cantar as glórias do passado, nem as de nossos mártires e santos, não podemos contentar em exaltar as obras de nossos antepassados;antes devemos inspirar-nos nelas para realizar a tarefa que nos é confiada; antes devemos inspirar-nos nelas para realizar a tarefa que nos é confiada em nosso fragmento de história (Documento Final do Capítulo de Assis, de 2003).

Os que ingressam em nossas fileiras sabem que não entram numa “firma”, não querem alimentar ou viver o carreirismo, sabem que são servos chamados a entregar-se ao Senhor, não querem viver “tranquilamente”, apenas isso.  Há no coração dos jovens retos um duplo desejo: entregar-se ao Senhor através de um compromisso amoroso de um sim que atinge todo o ser ser  e, ao mesmo tempo, enquanto houver fôlego em seu peito, querem ser missionários.

Não desejam apenas  realizar uma ou outra tarefa “paroquial”, mas cheios do fogo de Deus serão pastores solícitos, inventivos e criativos. Os vocacionados não se concebem como “funcionários” do sagrado, tranqüilos, sem preocupações, garantidos. Quem está garantido? Esses jovens sinceros que fizeram faculdade, que trabalharam duro na vida. Os que ingressam não são nem aventureiros nem nostálgicos. Acreditam na força do Espírito nesse processo de fidelidade criativa.  Eles se exprimiriam com estas palavras do Ministro Geral: “Agarrar-nos ao passado, chorá-lo nostalgicamente, levar-nos-ia  a uma inevitável decadência. Não se trata de sermos aventureiros. Não há alternativa para a vida consagrada e franciscana senão a de abrir-nos ao Espírito. Só  a força do Espírito evitará que existam entre nós vidas pela metade, sufocadas pela rotina e pela inércia, sujeitas ao funcionamento das estruturas”  (Relatório feito ao Capítulo de 2006).

Os que entram são jovens que querem ou deveriam querer ser simples no falar, no vestir, no ser. Pessoas desejosas de fazer experiência de fraternidade com outros na certeza de que os franciscanos são peregrinos e itinerantes que existem para louvar a Deus e a bem querer os irmãos.

Vale, neste contexto, transcrever algumas linhas de recente documento da Ordem sobre a formação permanente: “Em seu Testamento, Francisco fez uma leitura de sua vida como um itinerário progressivo movido pela iniciativa gratuita de Deus e selado pela sua misericórdia. Um tal caminho o levou ao encontro do Senhor Jesus e de seu Evangelho através de um processo de discernimento e de transformação que conheceu também  crises, passagens dolorosas, momentos de dificuldade e de incerteza. Em tudo isso Francisco cresceu no desejo de alcançar um cada vez mais radical e apaixonado seguimento de Cristo pobre e crucificado. Quando se olha para Francisco, “forma minorum” , a vocação do Frade Menor se apresenta como um caminho em constante devir e nunca acabado, até o encontro com nossa “irmã morte”. Nesse crescimento, o Frade é guiado pelo Espírito do Senhor, do Evangelho e da Regra, cujas Constituições Gerais oferecem uma releitura para o mundo atual, apresentando sempre de novo os elementos essenciais do carisma franciscano: “... os irmãos são obrigados a levar uma vida radicalmente evangélica, isto é, viver  espírito de oração e de devoção e em comunhão fraterna; dar testemunho de penitência e minoridade; anunciar o Evangelho ao mundo inteiro em espírito de caridade para com os homens; pregar por obras de reconciliação, a paz e a justiça; e mostrar o respeito pela criação”  (Doc. sobre a Formação Permanente na Ordem dos Frades Menores, 2008, n.1).

Afinal de contas quais o motivos que fazem com que tenhamos ingressado na Ordem dos Frades Menores? O que queremos de nossa vida?

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