V. Textos e temas vocacionais
CARACTERÍSTICAS DA VIDA RELIGIOSA
Em torno do feminino na vida consagrada
1. Nesta página de textos e temas vocacionais gostaríamos de tecer algumas considerações a respeito de características da vida religiosa feminina. Digo bem, umas poucas considerações. O espaço desta nossa coluna nesta Revista Eletrônica não nos permite fazer uma análise mais abrangente. De outro lado também, as distinções psicológicas entre feminino e masculino, feitas de forma pouco criteriosa, são questionadas em nossos tempos. Houve exagero numa certa maneira de considerar as características do homem e da mulher. O trabalho profissional da mulher e tantas conquistas alcançadas por ela nos últimos tempos estão a nos dizer que a mulher é forte, decidida, não é feita apenas para ficar em casa, para ter filhos, para as tarefas domésticas. Se de um lado se diz que ela é delicadeza, intuição, coração, seria injusto dizer que os homens não teriam também algumas destas marcas. Assim, na vida religiosa consagrada não se pode, honestamente, fazer uma distinção tão nítida entre vocação para a vida consagrada de homens e de mulheres. Para uns e outros valem as palavras da Instrução Partir de Cristo (2002): “Se, de fato, é verdade que todos os cristãos são chamados à santidade e à perfeição no próprio estado, as pessoas consagradas, graças a uma nova e especial consagração, têm a missão de fazer com que resplandeça a forma de vida de Cristo, por meio do testemunho dos conselhos evangélicos para sustento da fidelidade de todo o Corpo de Cristo” (n.12).
2. Homens e mulheres, fascinados pela pessoa de Cristo, por aquele que se desenha aos seus olhos como tudo, passam a caminhar na vida no seu seguimento radical. “O fundamento evangélico da vida consagrada há de ser procurado naquela relação especial que Jesus, durante sua existência terrena, estabeleceu com alguns de seus discípulos, convidando-os não só a acolherem o Reino de Deus na sua vida, mas também a colocarem a própria vida a serviço desta causa, deixando tudo e imitando mais de perto a sua forma de vida (...). Numa tal existência, a consagração batismal é levada a uma resposta radical no seguimento de Cristo pela assunção dos conselhos evangélicos, sendo o vinculo sagrado da castidade o primeiro e mais essencial deles” (n.14). O Espírito continua suscitando vocações para tal caminho.
3. Podemos dizer que masculino e feminino se opõem? Certamente que não; eles se completam. F.J.J. Buytendijk, num célebre livro La Femme, opõe o modo de ser do homem ao da mulher, como a oposição que existe entre a ação e a preocupação, este último termo tomado no sentido de cuidado e solicitude. Pelo trabalho, pela ação há uma transformação da realidade exterior, uma humanização da natureza: seria a tarefa do masculino. A preocupação, por sua vez, diria respeito ao crescimento. Esse respeito revela sempre a beleza misteriosa e a mulher quer viver na beleza. Não se pode dizer que essa distinção deva ser levada ao extremo. A preocupação feminina se manifesta habitualmente na atenção que presta a tudo o que é frágil: a criança, o doente, o idoso.
4. Gertrud Von Le Fort, poetisa e escritora alemã, reflete sobre o feminino a partir da figura de Maria. Seu horizonte é o do símbolo. No seu A Mulher Eterna escreve: “O símbolo do véu confere à mulher, antes de tudo, o invisível: tudo o que pertence à esfera do amor, da bondade, da piedade, da solicitude e da proteção, ou seja, tudo o que é escondido. O véu esconde e preserva tudo o que é precioso. Quando, por exemplo, a mulher toma o véu da consagração quer dizer que o íntimo de sua pessoa se entrega a Deus. O sentido da vida se decide no coração que se considera ligado por uma relação exclusiva a Deus. O véu da esposa afirma que o corpo se reserva para o dom da vida. O seu desvelamento se realizará sob a proteção do sacramento. A transmissão da vida conserva sempre o anonimato do véu. Poder-se-ia dizer que à mulher se confere um significado simbólico geral: a interioridade da vida. Enquanto ao homem se atribui a ação criadora e transformadora, à mulher é reservado o sentido da vida em seu mistério de acolhida, de germinação e de fecundidade. Se à interioridade da vida corresponde a noção de afetividade, podemos dizer que ao homem convém a afetividade como impulso conquistador, enquanto à mulher como dimensão mais interior.
5. Muitas mulheres se consagraram e continuam se consagrando a Deus na vida contemplativa e na vida ativa. Nos últimos tempos muito se tem escrito a respeito de Clara de Assis, em sua feminilidade e maternidade, em sua vida no claustro de São Damião. As religiosas contemplativas, de maneira especial, se colocam na posição de esposas de Cristo, nessa vida escondida geradora da vida e sustentadora dos membros frágeis do Corpo Místico.
6. Irma Sadra Maria, Clarissa, no fascículo dos Cadernos Franciscanos 4, fala da feminilidade de Clara: “A força da personalidade de Clara encanta e ilumina. Isto porque traz a marca de uma profundidade e de um equilíbrio grandiosos. Clara demonstra ser, desde muito jovem, uma mulher firme e decidida. A decisão com a qual enfrenta oposições à sua decisão e posteriormente ao seu ideal de pobreza absoluta define estes traços de firmeza e decisão na psicologia clariana. Acima de tudo, mostra em si a dinâmica de quem sabe envolver atitudes radicais numa serenidade constante e comovente, advinda de sua objetividade, clareza, realismo e linearidade de ideais. O seu perfil feminino, maternal e “sorelal” (de irmã) se delineia especialmente na sua capacidade de compreensão, acolhimento, ternura, afeto. As fontes revelam em abundância suas atitudes e sua postura amorosa, atenta, serviçal. Coloca-se como serva humilde de suas irmãs, lava seus pés, serve-as à mesa, levanta-se à noite para cobri-las, tem cuidado para com as enfermas. Em sua feminilidade autêntica, bonita e elegante, possuidora de sensibilidade profunda, soube crescer em maturidade psicológica, integrando a radicalidade do amor a Deus com as mais puras expressões do amor humano (...). Madura, despojada, pobre e livre, Clara é o protótipo da mulher disponível diante da plenitude de Deus. Porque está aberta totalmente em sua psicologia integrada e sensível, é capaz de experimentar-se como peregrina, caminhante em busca do Reino que vem. Exatamente todo o seu ser de mulher é colocado à disposição deste Reino que já se faz presente na comunhão de vida que ela vive com suas irmãs, com todos os homens e com as criaturas todas de Deus” (p.47-48).
7. Podemos, assim, compreender que uma jovem de nossos dias queira consagrar-se a Deus na vida contemplativa seja ela carmelita, clarissa, beneditina ou outra modalidade. Essas religiosas privilegiam a vida de oração, de meditação, vida esponsal. Trabalham também com as mãos e com a mente. Mulheres formadas em universidades se sentem bem nesses espaços de contemplação que são a casa de Deus entre nós. Creio que possa dizer que, de alguma forma, a vida contemplativa esteja em alta. A impressão que se tem é que ali, no silêncio do claustro, as mulheres que tiverem vocação efetiva poderão se realizar e a muitos apontar o caminho da plenitude. Num mundo de agitação e falta de harmonia no interior, mulheres podem querer buscar a vida contemplativa, não como fuga, mas como espaço de profunda entrega.
8. A vida contemplativa é como um subir ao monte da Transfiguração, conforme Vita Consecrata. “No Evangelho, são muitas as palavras e gestos de Cristo, que iluminam o sentido desta vocação especial de consagração. No entanto, para se abarcar numa visão de conjunto os seus traços essenciais, revela-se particularmente útil, fixar o olhar no rosto resplandecente de Cristo, no mistério da Transfiguração. A este ícone faz referência toda a tradição espiritual antiga quando relaciona a vida contemplativa com a oração de Jesus “no monte”. Mas de algum modo pode-se espelhar lá também as dimensões “ativas” da vida consagrada, visto que a Transfiguração não é só revelação da glória de Cristo, mas também preparação para enfrentar a cruz. Implica um “subir ao monte” e um “descer do monte”: os discípulos que gozaram da intimidade do Mestre envolvidos durante alguns momentos pelo esplendor da vida trinitária e da comunhão dos santos, como que arrebatados até o limiar da eternidade, são reconduzidos logo a seguir à realidade cotidiana, onde vêem apenas Jesus na humildade de sua natureza humana, e são convidados a regressar ao vale para partilharem com ele o peso do desígnio de Deus e empreender corajosamente o caminho da cruz” (n.14).
9. Tempos houve em que incontáveis cristãs ingressavam nas fileiras da vida consagrada ativa. Um sem-número de congregações religiosas surgiram nos séculos XIX e XX: educadoras, professoras, religiosas que se ocupavam de crianças órfãs, enfermeiras...Houve o tempo de grandes obras de assistência e de misericórdia, de educação e de cuidados pela saúde. As religiosas (também os religiosos) foram transformando pequenos postos de atendimento e escolinhas em grandes hospitais, mesmo em redes, e em colégios grandiosos, em redes de colégio. Houve uma imensa transformação em todo esse campo. Algumas religiosas continuam com essas obras, sendo que os professores e enfermeiros são leigos. Muitos religiosos e religiosas não sabem o que fazer com seus imensos prédios que perderam um pouco de sua primeira finalidade. Será que hoje há muitas vocações femininas para esses campos? Há, no entanto, essas religiosas que, vivendo em casas modestas, se ocupam de postos de saúde, de asilos de idosos, de serviços de caridade, de catequese nas paróquias. Que lugar existe hoje para a vida religiosa feminina ativa? São perguntas que fazemos? Que novo desponta no horizonte de tantos institutos de vida religiosa diocesanos.
10. Podemos imaginá-las vivendo simples e pobremente no meio do povo, em comunidades pequenas, cheias de simplicidade e marcadas pela alegria de convivência com os menores da terra. Podemos também vê-las professoras em universidades e institutos de teologia, competentes em sua atividade profissional e sempre especialistas na arte da oração e da contemplação. Não padece dúvidas de que muitas mulheres continuam belamente dando seu testemunho de vida religiosa no meio do mundo. Tudo indica que as grande obras, prédios, institutos femininos (e também masculinos) ficam difíceis de serem levados adiante nesse tempo de redimensionamento da vida religiosa. Uma jovem que hoje coloca a questão do seguimento de Cristo na vida consagrada ativa devera examinar cuidadosamente todos os ângulos de uma tal opção. Uma leitura serena da Exortação Apostólica Vita Consecrata será de grande utilidade para todas as jovens que se sentem chamadas à vida religiosa.
11. Inspirando-me em texto de Patricio García Barruiso, publicado na revista espanhola Vida Religiosa, vol. 60, 1986, p. 325-331) diria que os religiosos do futuro são pessoas boas, simplesmente boas. Não são sábios, nem ricos Destilam bondade e nunca fazem o mal. Iluminam onde não há claridade: crianças, enfermos, idosos, marginalizados, pessoas solitárias, que vivem sem horizonte. Junto deles as pessoas não sentem frio nem fome. Esses religiosos deixam o perfume de uma presença, de um consolo e de um perdão. São seres que amam. E como amam emigram sempre na direção dos lugares onde falta amor. Serão pessoas que não se imporão. Serão pessoas ternas, de gestos doces sua presença como a de um delicado orvalho. Simplesmente pessoas boas, vivendo com os outros, simplesmente boas.