1. Seguir o Cristo, ser “agarrado” por ele. Que belas expressões. Não se trata apenas de se filiar a uma denominação religiosa, a uma Igreja, a uma congregação de vida consagrada. Trata-se de seguir um Mestre que vai de canto em canto, de aldeia em aldeia, de horizonte em horizonte. Trata-se de ter bem claro diante dos olhos a figura de Cristo ressuscitado que chama, convoca, “exige” o seguimento. Escrevi a palavra exige com aspas. Ele, o mestre ressuscitado, respeita a liberdade e, ao mesmo tempo, quando interpela, não gosta de adiamentos.
2. Há o seguimento cristão. Alguém, batizado em criança, num determinado momento de sua trajetória, passa a levar a sério o cristianismo. Impressionado com o testemunho de vida deste ou daquele, desta ou daquela, o católico tradicional passa a querer ser discípulo de Cristo, ou seja, colocar seus pés nos pés daquele que não tem domicílio, nem mesmo uma pedra para reclinar a cabeça. A força do olhar e a graça interior da chegada do Messias numa vida provocam verdadeira revolução.
3. O Documento de Aparecida, descrevendo o discipulado, diz: “A pessoa amadurece constantemente no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre, se aprofunda no mistério de sua pessoa, de seu exemplo, de sua doutrina. Para esse passo são de fundamental importância a catequese permanente e a vida sacramental, que fortalecem a conversão inicial e permitem que os discípulos missionários possam perseverar na vida cristã e na missão em meio ao mundo que os desafia” ( n. 278, c). Os que respondem ao chamamento vão se aprofundando no amor do Mestre. Não se pode perder tempo quando Alguém nos chama.
4. O que é convocado, como este Levi da coletoria de impostos, vai atrás de Cristo. Uma vez chamada, a pessoa tem que abandonar o estilo de vida anterior. O que é velho fica para trás. O discípulo é arrancado de sua relativa segurança de vida e lançado à incerteza completa. Pensamos aqui no Francisco jovem que, num determinado momento, só tinha uma questão: Senhor, o que queres de mim? O discípulo é levado à incerteza completa. Mas não há caminho de volta. Bonhoeffer fala que as pontes atrás foram destruídas e não dá para voltar. O discípulo é arrancado do calculável, para entrar na aventura de Deus e nas possibilidades daquele que é maior do que nossos projetos tão eivados de busca de nós mesmos. Ser discípulo nada mais é do que estar ligado a Jesus, tão somente a Jesus numa subversão de valores. Por Jesus ser o único conteúdo, não pode haver qualquer outro. Ao lado de Jesus não há mais quaisquer outros conteúdos neste caso, pois ele é o próprio conteúdo. O discipulado é um comprometimento com Cristo.
5. Ubaldo Terrinoni em seu excelente Projeto de pedagogia evangélica (Paulinas), comentando textos evangélicos vocacionais, escreve a respeito de algumas características do chamado: é o rabi, o Mestre que busca, que chama, que interpela o discípulo. O discípulo é “agarrado” pelo Mestre. Os que são chamados não podem perder tempo. Há uma urgência. Trata-se de não perder essa feliz oportunidade. O Senhor é impaciente.
6. O “deixar” as coisas, os bens, não é um fim em si mesmo, mas está em função do seguir. O que caracteriza o discípulo é o verbo seguir e não “aprender” ou “deixar’. “O desapego, o abandono, o deixar constituem o momento negativo; ao contrário, o momento positivo é constituído por aquilo que se tem em contrapartida. Deixa-se uma existência por outra; abandona-se todo o resto para vivera aventura da seqüela Christi. A pessoa divina de Jesus investe e envolve de tal modo o chamado que lhe muda o projeto de vida, o modo de viver, de pensar e de agir. Lentamente, o discípulo se encontra com um novo estilo de vida, um novo modo de escolher e de avaliar as coisas, as pessoas e os acontecimentos. O mestre Jesus exerce sobre o discípulo tal poder de atração que se torna irresistível!” ( Terrinoni, p. 47).
7. Assim, uma moça ou um rapaz, um homem ou uma mulher, começam a se sentir propriedades de Cristo, com toda a liberdade. Alguns sentirão o desejo de serem religiosos: viver na dependência da vontade do Senhor, levando um estilo de vida pobre e mesmo muito pobre, sem ter o coração dividido afetivamente e, sobretudo, numa vontade ilimitada de irem ao encontro dos que precisam de uma palavra, de um casaco quente, de um horizonte de vida e daqueles que precisam conhecer um Mestre chamado Jesus.
8. Vale, neste contexto, transcrever algumas linhas de uma antiga biografia de São Francisco, escrita por São Boaventura falando dos que iam chegando para seguir a Cristo à maneira de Francisco: “Muitos não somente atraídos à vida de piedade, mas ansiosos pela perfeição cristã, desprezavam todas as vaidades humanas, para seguirem os passos de Francisco. Cada dia os via crescer em número e não tardou que se lançassem à conquista das extremidades da terra, possuindo como único tesouro a Santa Pobreza, estavam sempre prontos a partir, valentes e lépidos caminheiros, porque libertos de toda bagagem. Nenhum bem material, nenhum apego, nenhuma perda a temer; seguros em toda a parte, jamais paralisados por qualquer apreensão, nem distraídos por qualquer cuidado, viviam de alma em paz, e reduziam as preocupações do amanhã ao abrigo para pernoitar”.