Eu, Inácio de Loiola, pretendo nestas linhas dizer algo a respeito de mim mesmo e acerca da tarefa dos jesuítas em nossos tempos, tendo por suposto que ainda hoje continuem sentindo-se identificados com aquele espírito que, no passado, em mim e em meus primeiros companheiros determinou os começos desta ordem.
Sabes que, como naquele tempo eu já dizia, meu desejo era de “ajudar as almas”, quer dizer comunicar aos homens alguma coisa acerca de Deus e de sua graça, de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, alguma coisa que fizesse com que eles recuperassem sua liberdade, fazendo com que sintonizassem com a liberdade de Deus. Desejava expressá-lo tal como sempre ensinou a Igreja, e realmente acreditava (e era uma convicção certa) que essas coisas tão antigas eu pudesse dizê-las de uma maneira nova. Por quê? Porque estava convencido de que, primeiro de um modo incipiente durante a minha enfermidade em Loiola e depois durante a minha permanência em Manresa eu havia me encontrado diretamente com Deus. Devia participar aos outros esta experiência, na medida do possível.
Quando afirmo ter tido uma experiência imediata de Deus, a única coisa que digo, é que experimentei a Deus, aquele que é inominável e insondável, o silencioso e, mesmo assim, muito próximo. Experimentei Deus também e sobretudo para além de toda imaginação plástica. Ele, quando por sua própria iniciativa se aproxima pela graça, não pode ser confundido com nenhuma outra coisa.
Semelhante convicção pode soar como coisa ingênua, mas no fundo se trata da experiência do tremendum. Havia encontrado de verdade a Deus, o Deus vivo e verdadeiro, o Deus que merece esse nome superior a qualquer outro nome.
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Repito; encontrei-me com Deus, experimentei o próprio Deus. Deus mesmo. Era Deus mesmo que eu experimentava e não apenas palavras a seu respeito. Deus e a surpreendente liberdade que o caracteriza. Insisto: as coisas aconteceram desta maneira.
Uma coisa continua valendo: Deus pode e quer tratar de maneira direta com sua criatura; o ser humano pode realmente experimentar como tal coisa sucede; pode captar o soberano desígnio da liberdade de Deus em sua vida.
Trata-se de alguma coisa antiga ou nova? É alguma coisa óbvia ou parece surpreendente? Trata-se de alguma coisa que tenha que se relegar a um segundo plano na Igreja de hoje e de amanhã, devido ao fato de que o homem quase não suporta a solidão diante de Deus e procura se refugiar numa coletividade eclesial, quando na realidade uma tal coletividade há de se edificar sobre a base de homens e mulheres espirituais que tenham tido um encontro direto com Deus e não sobre a base daqueles, no final das contas, que se utilizam da Igreja para evitar de ter com Deus e sua livre incompreensibilidade?
Uma coisa, no entanto, continua sendo certa: o ser humano pode experimentar pessoalmente a Deus.
O verdadeiro preço que se há de pagar por esta experiência a que me refiro é o preço do coração que se entrega com firme esperança ao amor do próximo.
(K. Rahner, Palabras de Ignacio de Loyola a un jesuíta de hoy, Sal Terrae, Santander 1978, pp. 4-8)
Primeira leitura própria: 1Cor 10,31-11,1 |