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São Paulo, 13/02/2012
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19 de fevereiro de 2010

CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO JEJUM
Mateus 9, 14-15

O evangelho desta sexta-feira das cinzas traz a famosa questão dos jejum. Os fariseus estranham que os discípulos de Jesus não jejuem. Jesus afirma que enquanto ele, o esposo, o noivo, estiver no meio dos homens não há razões para o jejum.  Aproveitamos o texto para refletir sobre o  sentido do jejum.

Enzo Bianchi, Prior da Comunidade de Bose, na Itália, escreve: “Conhecemos muito bem essa atmosfera que reina no Ocidente. Ressoam, obsessivamente, mensagens que pedem “tudo, cada vez mais e logo”. Os modelos visam essa voracidade que se denomina “consumo de massas”, onde reinam  “novos  deuses e novos senhores” que impõem comportamentos fechados sobre eles mesmos e narcisistas, mascarando um egoísmo que não reconhece mais o outro, e, menos ainda, entre outros, os últimos e os que estão necessitando.  Digamos a verdade:  as raras vezes em que se pede o jejum aos cristãos, ele é praticado sob a forma – ameaçada pela hipocrisia -  de uma refeição sacrificada em favor das vítimas da fome ou como engajamento pela paz. É muito pouco! Como quer que seja, o jejum cristão, aquele ordenado, - sim, ordenado! – por Jesus e pela Igreja primitiva, é outra coisa, que se trata, por outras circunstâncias, de não confundir com o jejum praticado pelo muçulmanos durante o mês de Ramadã”.

Por que, então, o jejum cristão?  É preciso dizer que é necessário praticá-lo para compreendê-lo e para atingir suas razões profundas. Para começar, jejuar significa impor uma disciplina à oralidade. Os monges, em particular, tiveram consciência de que o alimento traz consigo uma dimensão  afetiva extraordinariamente poderosa. A anorexia e bulimia são indícios de perturbações afetivas com repercussões  sobre a alimentação. Eis por que o comportamento alimentar do homem recebe um “extra” de sentido.  Não depende somente das necessidades fisiológicas, mas pertence ao registro da afetividade e do desejo. A oralidade, então, exige uma disciplina para passar da necessidade ao desejo, do consumo à atitude eucarística do agradecimento, da necessidade individual à comunhão. É aqui que a Eucaristia ensina ao cristão o exercício e a experiência da comunhão, da partilha.   Eis a razão do jejum antes da Eucaristia. Trata-se não de uma mortificação em vista de se tornar digno, não de uma penitência meritória, mas de uma dialética  jejum-Eucaristia, de uma disciplina do desejo, a fim de discernir o que é verdadeiramente necessário para viver, além do pão. Através do jejum, trata-se de dominar o vetor do consumo para favorecer o da comunhão” (Enzo Bianchi, Dar sentido ao tempo, Ed.Loyola, São Paulo 2007, 45ss).
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