Estamos percorrendo as plagas da Quaresma. O primeiro domingo é sempre aquele em que a Igreja coloca diante de nossos olhos a tentação de Jesus no deserto. Bem no início deste tempo de vivência da ascese somos lembrados de que será preciso fazer escolhas. Viver é sempre um desafio. Estamos sempre diante de escolhas que podem marcar para sempre nossa vida. Nós somos o resultado das opções que fazemos ao longo da vida. Sabemos perfeitamente disto. O homem religioso sempre tem diante de seus olhos o caminho do bem e do mal. O inimigo está sempre atento para nos afastar do caminho que leva a Deus. Compreende-se que a Igreja tenha escolhido o evangelho da tentação de Jesus no deserto para começar o caminho de preparação dos que queriam ser batizados, do tempo áureo do catecumenato.
Lucas começa seu relato fazendo duas alusões ao Espírito na vida de Jesus. “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto ele era guiado pelo Espírito”. Cristo vence todas as tentações que lhe são apresentadas. Não é escravo de si mesmo e de seus interesses, mas sempre está interessado em fazer a vontade do Pai. Haverá curvas e voltas delicadas em sua vida. Conhecerá a incompreensão das massas, das autoridades, de seus próprios discípulos. No alto da cruz pedirá que o Pai tão silencioso não o abandone. Mas sempre ficou fiel. |
Que palavra bonita e que realidade insondável: fidelidade a Deus, fidelidade a um Palavra dada, a um olhar que se recebeu, a um dom que nos foi outorgado. A verdadeira libertação não fazer ou realizar aquilo que aparentemente pode nos dar satisfações imediatas. Estamos sempre sendo convidados a vencer o egoísmo que nos solicita, o acúmulo dos bens materiais, sede de poder, vontade de dominar outras liberdades. Sim, são muitas as tentações que espreitam os cristãos ontem e hoje: “A comunidade dos remidos, a Igreja, luta pela libertação da humanidade das forças do mal: miséria, ignorância, ódio e violência,hedonismo e febre de consumo, egoísmo e falta de amor” (Missal Dominical da Paulus, p. 216).
Assim, não é possível excluir a ascese de nossas vidas. Aqueles que foram tocados por Cristo sabem que precisam continuar a luta. A ascese deverá ser compreendida antes de tudo como discernimento. Trata-se de levar uma vida com sabedoria. Saber dizer sim quando é sim, e não quando é não. Dizer não a todos os convites idolátricos e egoístas que contradizem nossas relações com Deus, com os outros, com as coisas e conosco mesmos. Enzo Bianchi, falando da ascese, assim se exprime: “Esta disciplina é certamente laboriosa. Mas é graças a ela que o esforço chega a se tornar beleza, qualidade de vida autêntica e de verdadeira vida em comum. |