Corremos, todos corremos demais. É preciso fazer muita coisa, coisas demais. Nosso programa é intenso, intensíssimo e não temos mais tempo para receber serenamente a visita de quem nos queira visitar. A televisão está ligada, os audiofones nos ouvidos, a internet antenada. “Senhoras e senhores, a vida não pode parar”. Estamos sempre com a agenda cheia, cheiíssima. As pessoas que chegam nos perturbam, atrapalham nossos projetos. É assim...
Conhecemos sobejamente este evangelho de Marta e Maria que recebem a visita de Jesus. Jesus é um forasteiro que quer ser recebido em nossa intimidade. O Missal Dominical da Paulus assim explica o evangelho deste dia: “Jesus não se comporta como hóspede comum, também quando é recebido por amigos de longa data, como Marta e Maria, ele exige atenção especial à sua mensagem e à sua pessoa. Acolher Cristo hóspede é principalmente ouvi-lo, pôr-se em atitude de receptividade, mais do que de dar. É ouvindo-o que se entra em comunhão com ele e se é transformado (Maria). Quem se preocupa mais com as coisas a dar (Marta) do que com a pessoa com quem se comunica, fica distante” (p. 1183).
Jesus é um forasteiro diferente. Não tem como primeira preocupação tomar um prato de sopa ou comer uma fatia de pão, mas quer encontrar o interior do homem preparado, liberado para que seu amor possa aí se instalar. Continuando com a reflexão do Missal: Jesus “é o forasteiro que veio aos seus e os seus não o receberam (Jo 1,11). Aquele que morre na cruz é o “forasteiro” por excelência, rejeitado por todos; tão forasteiro que, depois da sua ressurreição, os peregrinos de Emaús não o reconhecem no caminho, mas só quando lhe oferecem hospitalidade”.
|
Há muitas formas e maneiras de exercer a hospitalidade. Há os hóspedes que acolhemos em nossa casa: desligamos a televisão, preparamos a melhor comida e lhes oferecemos as melhores condições de alojamento. Há crianças sem pai, nem mãe, nem teto que poderiam fazer parte de “nossa família”. Há pessoas de outras ideologias ou religiões que precisam de nosso acolhimento hospitaleiro. Podemos dizer que a primeira e primordial característica da hospitalidade é a do acolhimento.
Os comentaristas deste trecho do evangelho sempre advertem para o perigo do ativismo que nos impede de sentir a presença dos outros e do Outro. Johan Konings escreve: “Gente ocupada é o que menos falta. Mas sabemos muito bem que toda essa ocupação não gira em torno daquilo que é fundamental. Dá até pena ver certas pessoas complicarem sua vida com mil coisas que dizem que simplificam a vida. Ao lado delas encontramos o pobre, o lavrador, o índio, vivendo uma vida simples, mas com mais conteúdo e sobretudo com um coração sensível e solidário. Importa acolher ( a Deus, a Jesus e aos outros) em primeiro lugar no coração.
Só então as demais ações terão sentido. Isso vale na vida pessoal e também na vida comunitária. Comunidades que giram exclusivamente em torno das preocupações e reivindicações materiais acabam esvaziando-se em brigas de personalismo e ambição. Mas comunidades que primeiro acolhem com carinho a palavra de Jesus num coração disposto saberão desenvolver os projetos certos para pôr a palavra de Jesus em prática” (Liturgia Dominical, Vozes, p. 436)..
|