Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 04/02/2012
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Por Moacir Beggo

O primeiro professo solene da Missão Franciscana de Angola, Frei Afonso Katchekele Quessongo, 34 anos, foi convocado pelo governo provincial para participar do Capítulo das Esteiras e do Capítulo Provincial. Para ele, esse momento ficará marcado para sempre na sua vida. Segundo Frei Afonso, o que antes era história nas Fontes Franciscanas quando lia sobre o Capítulo das Esteiras, pôde sentir muito próximo na grande comunhão de irmãos em Agudos. Nesta entrevista, ele fala da preocupação com a falta de perseverança nas vocações da Missão de Angola, embora tenha esperança de um novo tempo no seu renascido país, e conta como foi o seu discernimento vocacional, em plena guerra que tomou mais da metade de sua vida.    

Site Franciscanos - Você acabou de participar pela primeira vez do Capítulo das Esteiras e ficará em Agudos até sexta-feira para o Capítulo Provincial. Como foi esta experiência?
Frei Afonso - Foi um evento muito especial e maravilhoso. Quando a gente lê na história sobre o Capítulo das Esteiras, quando Francisco reuniu muitos frades em Assis, a tendência é de mitificá-lo, como se fosse um mito e não um fato real. Agora, vendo a multidão de frades em Agudos, com diversidade de culturas, idades, o florir promissor dos frades jovens no meio de frades mais idosos, transmitindo experiência de vida, o misticismo imaginário desapareceu e fez crescer a força e a vontade de buscar cada vez mais vivenciar, sem reservas, o espírito fraterno franciscano. Me deu mais esperança e força para continuar. Como frade da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola, acostumado a ver um número reduzido de frades reunidos, vi como poderá ser o futuro da Fundação. Senti no Capítulo das Esteiras esperança de crescimento da pequena planta franciscana colocada nas terras de Angola. No início, a Província também tinha um pequeno número de frades e hoje cresceu. Um dia a Fundação será assim.

Site Franciscanos - Como você vê a Missão Franciscana hoje, próxima de comemorar 20 anos de sua fundação?
Frei Afonso - A gente se entusiasma porque agora a Missão vive um outro tempo do que quando chegou. A realidade é outra. A gente estranha pelo fato de ter apenas dois professos solenes e um noviço, um número muito pequeno. Na minha visão, é muito reduzido em 20 anos. Muitas congregações que chegaram depois de nós têm um número maior. Mas por outro lado, a gente não vai culpar o nosso jeito de formar, o nosso modo de estar ali. Isso tem muito a ver com a perseverança dos nossos vocacionados, que me leva, às vezes, a tirar algumas ilações. Por quê? Tivemos realidades difíceis no nosso país e muitos, talvez - não quero afirmar, é só uma suposição - vinham ali movidos por um espírito oportunista. Queriam segurança, estudo, para que quando alcançassem um nível mais alto, abandonassem. Outros, talvez, assustaram-se com a novidade que a paz trouxe e romperam com a sua própria vocação. Por isso, dependemos muito dos frades missionários da Província da Imaculada, a quem nós, os angolanos, somos muito gratos.

Site Franciscanos - Quais os desafios e perspectivas da Missão para o futuro?
Frei Afonso - A maior preocupação é com relação às vocações. Temos 3 postulantes que vão fazer o Noviciado no ano que vem. Mesmo assim, esse número não me agrada ainda. Éramos em cinco na minha turma que fez Noviciado. No total, desde a primeira turma, 11 fizeram o noviciado, mas dois somente seguiram. Falta perseverança. Quanto ao futuro, a gente não se sente mais como aquele que vem longe, mas como aquele que faz parte e o prepara, para melhorá-lo. Além disso,  havia uma certa limitação geográfica porque não poderíamos ir mais longe no trabalho vocacional. A situação não permitia e, às vezes, as regiões onde estávamos instalados eram muito fracas para vocações. Faço parte da promoção vocacional e estamos voltados mais para o interior, que tem mais vocações. Não sei como é nos outros países, mas as grandes cidades angolanas não são celeiros vocacionais. No interior, há um número considerável de jovens vocacionados que querem ser frades. Mas temos dificuldades e notei que não é um problema só nosso mas está também na Província, como o número reduzido de formadores. Para acolher mais jovens, é preciso mais formadores. Se mais jovens acolhermos, maior o número de perseverantes. Mas creio que esse comportamento que havia anteriormente, do espírito oportunista, já não existe, porque a sociedade tem mais ofertas para a juventude. Quando um jovem se manifesta para essa vida é porque realmente temos de acreditar nesta manifestação. Estou animado e esperançoso.

Site Franciscanos - O fato de você ser o primeiro professo chega a lhe fazer pressão?
Frei Afonso - Pressiona sim. É uma responsabilidade. Muitos pensam que ser o primeiro é um privilégio. Mas não é para mim. Não sei como é a tradição aqui, mas lá, o primeiro filho é o segundo pai da família. A responsabilidade que escapa do pai, cai logo sobre o primeiro filho. Ele tem que assumir as responsabilidades que a família atravessa na ausência do pai. E o mesmo se passa comigo na nova família. Sinto uma grande responsabilidade, por isso me preocupo com o número. Ser o primeiro e continuar sem perspectiva de novos membros, acho que é pesado. Mas a graça de Deus e do Espírito Santo me dá forças para não dizer não. Nunca, na verdade, cheguei a este ponto de dizer não, porque assim foi desde o início de minha vocação.

Site Franciscanos - E como foi este início de vocação?
Frei Afonso - Eu comecei sozinho, de uma forma, digamos assim, meio estranha. Aqueles que me receberam também acharam estranha a maneira de como surgi na Ordem. Mas depois, refletindo um pouquinho com a história, intui que também os primeiros frades ingressaram assim na Ordem. Eu vim sem avisar ninguém, nem ao menos uma carta. Não conhecia nenhum frade, nem sabia como se vestiam, nada. Logo que escutei falar deles, a única coisa que veio na mente era Santo Antônio, porque a minha aldeia tem como padroeiro o santo franciscano. Quando vi que eles estavam em Angola, fui procurá-los. Mas fui com tudo, com todos os documentos e de malas feitas. Cheguei numa noite a Kibala, depois de duas semanas de viagem. O Frei Valdir Nunes  e os frades estranharam. A primeira entrevista foi com o Frei Antônio Mazzuco. Dizia para ele: "Vim para ficar em definitivo". Ele perguntou: "Tem algum problema familiar?". Disse que não tinha, contei como era minha vida. Eu era estudante e negociante, não vivia junto do pai, pois fazia os meus próprios negócios. Não estava carente, nem material ou economicamente, porque tinha meu dinheiro. Mas mesmo assim não passei segurança aos frades. O Frei Valdir disse: "Para ter segurança, vou até a sua cidade, donde ele veio". Os caminhos eram difíceis devido à guerra, mas ele arriscou e foi até a minha paróquia buscar informação sobre mim. Ao chegar lá, disseram para me receber. Sempre fui ativo na igreja, como acólito, no grupo coral, no acolhimento paroquial... Isso me dá uma certa segurança de que "ser primeiro e sozinho" (aspas porque agora não estou sozinho), não me assusta e nem me tira a segurança vocacional que tenho. Se quero, eu faço. Os meus pais estranharam isso, porque eu não expliquei a eles. Pensaram que eu ia para uma área de diamantes. Mas depois entenderam a minha decisão, embora para as pessoas, eles diziam que fui ao norte atrás de diamantes, para não dar lugar às pessoas que pensavam que fui me entregar à vida militar.

Site Franciscanos - Quantos anos você tem?
Frei Afonso - Tenho 34 anos.

Site Franciscanos - Então você conheceu a guerra de perto?
Frei Afonso - Eu nasci na guerra, cresci na guerra. Eu até pensava que ia morrer na guerra. Por pouco não morri nesta guerra. Aos três anos acusaram meu pai de estar no outro lado, da Unita. Isso porque tinha um primo meu na Unita, filho da irmã mais velha do meu pai, que vivia na casa do meu pai. Uma certa noite vieram para matar o meu pai e eu estava na mesma cama com meu pai. Lá somos muito solidários: um sinal estranho é o suficiente para se comunicarem. E avisaram meu pai que havia uma movimentação estranha na aldeia. Então, ele levantou mais cedo e saiu de casa. Quando eles entraram, viram alguém dormindo e deram um tiro na minha direção. Mas desci um pouco e o tiro não me acertou. Outra vez foi quando estava no Seminário. Frei Samuel foi nos buscar na escola e quando chegamos no centro da cidade, começaram a jogar bombas. Escondemos-nos na catedral, mas mesmo deitado, o estilhaço (pedaço) da bomba passou a milímetros da minha cabeça e bateu na parede; até hoje tenho esse estilhaço guardado comigo. Quanto estava no Seminário foi nos pedido para ir à vida militar. Os frades resistiram e argumentaram que não podiam nos liberar porque estávamos sob sua responsabilidade. Como ficariam diante dos pais desses jovens? Então, os frades disseram para a gente ir para as casas dos pais, mas achei que não deveria. Os meus pais estavam conscientes da minha escolha e não viriam cobrar os frades. Quando eu vim para o seminário, tinha consciência de que não iria encontrar um mar de rosas. E se essa era uma dificuldade que tinha de enfrentar, então eu iria. Ficamos à espera do dia que seríamos chamados para servir à tropa. Por sorte, o bispo fez acordo com o comandante e nós fomos dispensados para podermos continuar com estudos. A guerra era muito intensa e muitos queriam ir para Luanda, onde não havia tantos conflitos. Nós preferimos ficar no meio da guerra. Enquanto os frades ficarem, nós também ficaremos. Não adiantava fugir da guerra em Luanda, enquanto nossos pais estavam no meio dela. E todos acabamos não indo para Luanda. Terminamos o segundo grau e viemos ao Brasil fazer o Noviciado. A paz só veio quando estávamos aqui, em 2002.

Site Franciscanos - Como foi viver esse tempo todo na guerra e hoje não ter traumas?
Frei Afonso - Eu digo que tenho uma admiração pelo meu povo. Porque teve situações difíceis, anos e anos. Alguns só conheceram o lado negativo de um partido. Há aqueles que vivenciaram os dois lados. Como no meu caso. Isso deixou mágoas e feridas, mas as feridas foram curadas rapidamente. Mesmo aqueles que perderam familiares ou ficaram mutilados. Eu mesmo sou um deles. Eu tenho um primo que foi levado à força e até hoje não sabemos se ele morreu. E não podemos realizar o óbito. Hoje, famílias rivais vivem juntas. Por isso, tenho admiração. Claro, algumas marcas sempre ficam. Aquela tendência de portar armas, brinquedos de armas, ainda existe. Vai demorar um pouco para acabar essa cultura de guerra. Como franciscanos, estamos dando essa contribuição com as campanhas. O Frei Angelo é um dos promotores dessas campanhas e dá prêmios para quem traz brinquedos de armas. Os frades produziram milhares de folhetos, adesivos e camisetas com intuito de renúncia à violência e ao uso de armas distribuindo esse material nos eventos e transportes públicos. O próprio governo está lutando pelo desarmamento da população, porque tem muita gente com armas em casa. Mas a gente sabe que isso vai se apagar da mente das pessoas. Os jovens terão um outro país pela frente. Angola é hoje um dos países que mais se desenvolveram, tanto econômica como estrutalmente. As faculdades começam a se abrir para outros cursos, atraindo os jovens para os estudos. Isso dá muita esperança para o futuro.

Site Franciscanos - Você disse que não conhecia os franciscanos e hoje é frade. O que é ser franciscano?
Frei Afonso -  Viver com o irmão, com o diferente, sem fronteira. Então, é certamente isso: Romper com as diferenças. Viver na universalidade cristã e ter essa abertura simples, não nos apegar com as coisas materiais. Porque isso de certa maneira é fraqueza.

Site Franciscanos - Que mensagem você deixaria para os jovens angolanos que querem seguir a vida religiosa franciscana?
Frei Afonso - Quando sentir esse chamado franciscano, trabalhe para desarmar  tendências divisórias. Seja mais aberto à própria formação e desapegado de certos comportamentos que podem impedir o crescimento na vida franciscana, para que amanhã ou depois sejamos verdadeiramente franciscanos, seguidores de Francisco e, no fundo, são outra coisa. Que tenham mais coragem de tomar decisões. Que sejam homens de palavra. A segurança deve ser o próprio Deus.

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