Homilia do Vigário Provincial, Frei Vitório Mazzuco Filho, na Celebração Eucarística do Capítulo das Esteiras, no dia 04/11, pelos 800 anos de fundação da Ordem Franciscana. Antes, Frei Vitório pediu durante o Ato Penitencial que a Regra de Vida dos Frades Menores fosse passada de mão em mão de cada frade e, no final da celebração, cada frade ganhou uma Bíblia, impressa exclusivamente para este Capítulo.
Agudos (SP) - Quero saudar nosso digníssimo Ministro Geral, Frei José Rodríguez Carballo; o Definidor para América Latina, Frei Nestor Schwerz; saudar nosso Visitador, Frei Flaerdi Valvassori; o Ministro Provincial, Frei Augusto Koenig; e todos os confrades que vieram para este Capítulo das Esteiras. Todos os formandos, desde os nossos seminaristas, aspirantes, postulantes, os nossos queridos noviços, os novos confrades filósofos e teólogos. Queria saudar a ministra da OFS aqui presente e sua fraternidade, todos os familiares dos confrades aqui presentes.
Também gostaria de dizer que nós fizemos uma escolha fraterna nesta tarde, já a caminho do anoitecer, porque aqui está a Comissão Preparatória deste Capítulo das Esteiras. Quando sentamos para programar este Capítulo, nós ficamos pensando neste momento celebrativo. Quem estaria sobre este altar: nosso Ministro Geral, o Definidor, nossos confrades bispos? Mas nós resolvemos fazer uma restituição, de um modo especial à toda Ordem e ao nosso Ministro Geral. De que modo?
Nesse momento, nós queremos recapitular a mística, a espiritualidade presente em todos esses anos, quando em 2006 começamos a caminhada até 2009, esse grande ano jubilar. Esse grande momento de preparação que nos tocou e nos levou a uma grande convicção. Não é possível instaurar uma paixão por alguém se nós não apaixonarmos pelo mesmo que este alguém ama. Por isso que nós tivemos a Regra em nossas mãos no momento penitencial, a tocamos, a saudamos, pedimos perdão e a louvamos.
Porque ela representa o Evangelho e o Evangelho representa a vontade do Senhor. E essa é a nossa grande paixão. Hoje nós estamos aqui exatamente por causa dessa paixão comum. Somente uma paixão comum consegue reunir um número grande de frades. Não sei se o Ministro Geral tem notícia ou o nosso Definidor para América Latina, mas quem sabe este seja o último grande momento celebrativo no mundo desse grande jubileu na conclusão deste 2009.
Mas é isso que nos trouxe aqui. O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o modelo de vida de nosso Pai São Francisco e essa decisão de seguir de forma radical o Evangelho conforme o Senhor revelou. Isto está no Testamento.
E nós queríamos recapitular a mística e a espiritualidade presentes em todas as falas do Nosso Ministro Geral desde 2006, em todos os documentos da Ordem, que nos motivou em cada fraternidade.
Por isso, eu estou aqui não como Vigário Provincial, mas como Moderador da Formação Permanente e como Comissão Preparatória. Porque isso foi a nossa escolha. Lembrar que nós estamos aqui num grande momento celebrativo e recapitular esses pensamentos que criaram realmente a força e o espírito desse tempo do jubileu da Ordem: celebrar o dom da vocação e acolher a graça das origens.
Nós não somos viajantes solitários, mas somos acompanhados pela humanidade que compartilha da nossa história. De 2006 a 2009 foi para nós como um tempo sabático para discernir o que o Senhor está pedindo em nível individual e institucional. Examinar tudo e reter tudo o que é bom, segundo a Carta aos Tessalonicenses. E fazer soar em nós e tomarmos a palavra de São Francisco com a pergunta: "Senhor, o que queres que eu faça?"
Isso aconteceu em 1206 e, por isso, daquele tempo até aqui esta pergunta vem nos tocando: Quem pode nos dar mais, o Senhor ou o servo? Irmos à Legenda dos Três Companheiros e fazer aquele regresso, voltar à terra de Assis, voltar ao nosso lugar, entrar na caverna da solidão, pedir ao Senhor que ilumine as trevas do nosso coração. E lembrar que o nosso Pai Francisco é um convertido e nós temos de fazer essa memória de convertidos e fazer um caminho interior de conversão. E nós sabemos que a conversão de Francisco não é só a metanóia grega, que influenciou tanto o judaísmo e o cristianismo, uma mudança de mentalidade.
Mas a verdadeira conversão franciscana é uma mudança de lugar. E nesse tempo nós procuramos também, a partir desta memória de convertidos, buscar um novo estusiasmo ao que prometemos em nossa profissão. E que, amanhã, a profissão solene de nossos jovens confrades renove a nossa profissão, a nossa escolha.
E nós estamos aqui para acolher o espírito, nascer de novo. Voltar ao essencial. Escolher definitivamente o Senhor e o seu Evangelho. Isso o Ministro Geral chamava de fidelidade criativa. Libertar-nos de todas aquelas malhas enferrujadas de individualismo e da rotina, e partir para aceitar esse novo grito da história que nos convoca: entrar na história e mostrar a ela que nós precisamos suscitar uma nova vida. O Ministro Geral lembrava ainda hoje à tarde que este é o nosso moratório: fazer uma parada no caminho, entrar na gruta com Francisco e sair para um caminho da verdade e da autenticidade. Sermos atingidos pelas exigências da nossa forma de vida que professamos.
De 2006 a 2009, o tempo de graça. Este é um ano da graça. Este momento do Capítulo das Esteiras é um tempo de graça. Pôr-se a caminho, exortando-nos uns aos outros. Admoestando os que estão desorientados, reanimando os que perderam a coragem e erguendo os cacos.
E olhando tanto as reflexões, os sermões, os documentos, os subsídios, devemos lembrar que restituir é mais uma vez também reconstruir a casa interior. Foi lembrado hoje para nós que o mundo fragmentado no qual vivemos divide as pessoas interiormente. Há uma infinidade de desejos que o mundo cria para nós, mas onde está o nosso desejo?
Onde está aquela convocação de nosso pai? "É isto que eu quero, é isto que eu desejo, é isto que eu procuro de todo coração". Essa é a nossa orientação mais intíma. Esse é o encaminhamento da nossa escolha. Qual é o meu desejo? Criar em nós a cultura da interioridade. A fidelidade criativa exige uma contemplação criativa. Pregar a paz que se vive dentro de si para levar. É um momento de leitura, de meditação, de encontro com a Palavra de Deus. E de cada vez mais escutar a convocação do dom da vocação.
Reconstruir a casa da fraternidade. Muita vida em comum nós temos, mas pouca relação interpessoal. Temos muito discurso de vida fraterna, pouca comunhão autêntica de vida. Por isso, nós temos que, ao reconstruir a casa da fraternidade, fazemos isto juntos e com fé. Criar o dia da fraternidade, o tempo da fraternidade. A prioridade é da fraternidade. Santidade pessoal não basta. O nosso Visitador dizia que encontrou muitos frades santos. Nós acreditamos nisso, mas acreditamos que também não basta uma santidade pessoal. É preciso uma santidade comunitária, que crie essa harmonia entre estruturas e valores entre a evangelização e a vida fraterna que cria a nossa qualidade de vida em comum.
Frade menor perfeito não se encontra em único frade. Isto está lá em "Espelho da Perfeição", cap. 85. E nem uma Província perfeita se encontra numa única entidade, ou numa única experiência. A diversidade de experiências numa fraternidade provincial é a sua maior riqueza. Por isso, é tempo de reconstruir:
a oração comum, a vida fraterna, a evangelização que nasce na fraternidade, vai à comunidade e retorna à fraternidade. E por último, esses anos todos convocaram de um modo direto a reconstruir a casa do mundo. A casa do mundo está em ruínas. Ir com a força da nossa interioridade para botar novamente o mundo em pé. Jacques de Vitry assim descreve: "Durante o dia entra nas aldeias e cidades, dedicando-se à vida ativa do apostolado. À noite, voltam aos seus eremitérios, e se retiram para a solidão da vida contemplativa.
O estar no mundo, o estar com Deus. É assim que nós reconstruimos a casa no mundo. Uma coisa é ir à evangelização pastoral, à missão, ao apostolado. Uma coisa é ir aos pobres, outra coisa é ir com o Cristo que habita em nós, com a fome de vida que habita em nós.
Reconstruir e cuidar da criação. A justiça, paz e integridade da criação. Reconstruir a vida onde ela mais precisa de cuidado, e de modo especial neste tempo também nos provocou, além de toda a provocação que nós recebemos hoje tarde na fala do nosso Ministro Geral. Cuidar dos jovens, ajudar o jovem a crescer é transformar o mundo. É ter vocações. Uma entidade, como nós repetimos isso no nosso último Fórum de Formação, que não cuida bem de seus jovens e que não cuida bem de jovens, não merece vocações.
Assim, fizemos uma síntese da mística e da espiritualidade, que caminhou conosco, de 2006 a 2009. E essa celebração é uma gratidão, mas é também a nossa maneira de voltarmos a esse espírito de conversão, gratidão ao nosso Ministro Geral porque convocou a Ordem, as famílias todas da Ordem, os provinciais todos para este momento celebrativo. E nós temos a graça de tê-lo aqui conosco já na conclusão deste ano jubilar. Mas também agradecer por todas as vezes que a nossa forma de vida, a fonte primária que é o Evangelho, e todas as fontes fundacionais e todos os nossos documentos que edificaram e criaram em nós esse novo ardor, esse novo entusiasmo e essa nova renovação de vida.
É isso que nós como Comissão Preparatória para o Capítulo das Esteiras pensamos em restituir para todos nesta tarde. Que assim seja! |