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10. POSSUIR O ESPÍRITO DO SENHOR: ORAÇÃO E ENTREGA TOTAL
Por temperamento, Clara era uma pessoa contemplativa. Como seu irmão e amigo, Francisco, também ela estava marcada pelo espírito de oração e doação. Assumindo uma palavra dele, escreveu na Regra, que as Irmãs deviam “ter em mente, acima de tudo, o desejo de possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”( Regra de Clara 10,9).
Em espírito de solidariedade com os seus contemporâneos mais pobres, a realização de trabalhos corporais penosos foi para Francisco um dever ao qual procurava obedecer sempre e que defendia apaixonadamente. Pelo mesmo motivo, também Clara nunca parou de trabalhar, tecendo e bordando, apesar de ficar tão doente a partir de 1224, que quase não podia mais deixar a cama. Para os dois, a contemplação é a condição fundamental para executar qualquer trabalho. Pois, a dignidade do ser humano, criado por Deus, consiste na possibilidade de direcionar-se para Deus. Em outras palavras: consiste na “devotio” (cf. “votum” = entrega consciente e total) e na “oratio” (= oração).
Não deve acontecer que o ser humano trabalhe simplesmente por trabalhar, e assim perca a sua dignidade (1Ct; cf. 1Rg 5).
De certa forma, a convicção de Francisco e Clara é intermediária entre a convicção de São Bento e a nossa concepção moderna. O ideal beneditino expressa-se pela fórmula: “ora et labora” (= reza e trabalha). Para o beneditino, a oração é o eixo em torno do qual gira, sobretudo, também o trabalho. Isto se entende melhor, quando comparado com a opinião que dominava no mundo antigo. Na Antiguidade, a mais legítima condição humana se realizava fora do âmbito do trabalho. “Ocio” (= lazer) e não “negotio” (= trabalho; ou, em outras palavras: a negação do lazer) era o ideal que, de direito, cabia exclusivamente ao homem livre. Por isso, todo trabalho corporal, pesado e penoso, era deixado aos escravos. Sendo um ato vital, de dimensões eminentemente mentais e espirituais, a oração foi classificada entre as funções mais nobres do “ócio”, ou seja, no setor da vida onde o ser humano experimenta livremente a sua própria humanidade. Por este motivo, cabia o primeiro lugar à oração, enquanto que o trabalho corporal marcou o pólo oposto na escala de valores. Na tradição beneditina, porém, o trabalho era, sobretudo, trabalho cultural, a transmissão da cultura antiga à posteridade. Portanto, não se tratava tanto de trabalho corporal, que nos mosteiros beneditinos cabia aos irmãos conversos (= irmãos leigos nos mosteiros medievais) ou aos servos.
Pelo contrário, Francisco e Clara consideravam o penoso trabalho corporal como uma dimensão essencial da solidariedade humana e cristã. Isto era absolutamente novo na sua época. A oração não devia acontecer antes ou depois do trabalho, mas bem incluído nele. O espírito de oração e de entrega a Deus não devia apagar-se nunca, mas devia entrar plenamente na execução do trabalho. Não duas atividades lado a lado, mas a integração de oração e trabalho marca o programa de vida da família franciscana.
Desde então, a humanidade chegou a dar mais um passo. Através do tempo, os cristãos descobriram que o trabalho não é somente uma carga penosa mais uma graça (1Rg 5, 1), participação no ato criativo de Deus. Deus não criou um mundo pronto, totalmente acabado, mas fez o ser humano participar na sua atividade criadora. Em conseqüência, o moto beneditino “ora et labora”, foi se transformando em “labora et ora”. Hoje, o eixo em torno do qual tudo gira, é o trabalho, ao qual a oração se subordina. Portanto, facilmente acontece que se dê tanto valor ao trabalho, que se chega a esquecer ou até mesmo a omitir a oração, considerando-a uma mera “perda de tempo” e que nos afasta indevidamente do trabalho. De fato, a valorização do trabalho chegou a ocupar o ponto central, de modo que o valor da pessoa humana se mede pelo trabalho que realiza. Em conseqüência, a pessoa desempregada está ameaçada de perder a sua dignidade e sua realização pessoal.
Possivelmente estamos hoje diante de um novo passo decisivo a dar na história da humanidade. Uma vez que, até mesmo no mundo industrializado, aumenta sempre mais o número dos desempregados e se prevê que futuramente será impossível providenciar trabalho assalariado para todos, o conceito “trabalho” tem que ser reformulado e novos campos de atividades devem surgir. Possivelmente, a fórmula “ora et labora” receberá um novo conteúdo, pois o tempo disponível para o lazer, para a contemplação, vai aumentando e o trabalho vai abrir novas frentes nos mais variados setores ocupacionais (cf. a Lição 21). Por este motivo, a atitude contemplativa, ou seja, a capacidade de se abrir ao mistério, terá que entrar em muitas novas atividades.
Entretanto, continua válido: o trabalho não recebe o seu sentido cristão a partir do “espírito de oração e devoção”, nem a partir de uma prévia “boa intenção”, mas através daquilo que o trabalho, ou as respectivas formas de atividades representam, a saber, a participação na criatividade de Deus, a participação no plano salvífico do Cristo e a preparação do Reino de Deus para a humanidade inteira, O destino do trabalho é a construção da “cidade de Deus”. Portanto, o próprio trabalho é um culto prestado a Deus. Isto é possível somente se o trabalho ficar envolto no ato contemplativo.
“A síntese a ser feita é a oração durante o trabalho, dentro do trabalho e através do trabalho. Não se trata de em parte rezar e em parte agir nem se trata de uma oração fora do engajamento cristão no mundo, mas se trata, isto sim, de oração durante qualquer trabalho e de total engajamento, ou seja, da experiência de um encontro com Deus durante o encontro com os homens. Para que tal síntese seja efetiva, completa e duradoura, ela precisa tornar-se útil e aplicável a todo o reino da oração (sentido como encontro privilegiado com o Senhor), bem como desenvolver o valor religioso do trabalho e do engajamento empreendido por amor à Justiça e à Fraternidade” (Cardeal Aloísio Lorscheider).
Desta forma, deve a contemplação levar sempre à prática, ao trabalho, ao engajamento pela justiça e pela Paz, à libertação dos pobres de estruturas injustas, à educação e à formação, de maneiras variadas e específicas, por sermos pessoas humanas, com características asiáticas, africanas, européias, latino-americanas e norte-americanas.
Matéria de contemplação é, portanto, também, o assim chamado ambiente profano. Não basta contemplar e meditar sobre a vida de Jesus Cristo, sobre os mistérios de Deus, sobre os textos espirituais ou acontecimentos da Sagrada Escritura. Antes, importa contemplar atentamente as pessoas que a gente encontra na vida, o trabalho que se realiza, o pedacinho do mundo que nos é confiado. Talvez seja justamente isso que teremos que aprender hoje em dia de Francisco e Clara. |
Este
curso é promovido pela Família Franciscana
do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de
Petrópolis e sua realização acontece
nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25
fascículos. Quem se interessar por esta coleção,
deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br |
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"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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