Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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-- Curso do Carisma --
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3. CLARA: “COM ENTREGA TOTAL...”

O modo pelo qual é possível viver a contemplação concretamente é demonstrado, sobretudo, pela vida que Clara de Assis levou. Era desejo dela viver como Francisco; porém, foi obrigada a retirar-se a um “lugar sagrado”, ou seja, à clausura de São Damião. O que a forçou a tomar essa resolução foram mais as conveniências de sua época do que a sua própria convicção.

Nessa clausura ela viveu por mais de 40 anos, junto com 50 irmãs. Repetidamente, durante o processo de sua canonização, foi testemunhado que sua vida estava marcada por longas fases de oração silenciosa e solitária, assim como também por intuições luminosas. As palavras que lia na Sagrada Escritura ou que ouvia na liturgia, ela as retinha de modo indelével na memória, até que se integrassem em uma visão mental da qual ficava impregnada durante horas inteiras.

Cuidava para que viessem bons teólogos ao mosteiro, capazes de interpretar o Evangelho, para depois aprofundar ainda mais por meio de longas meditações aquilo que tinha ouvido. A presença real de Cristo, na Eucaristia, também lhe era tão evidente que conseguiu contemplar o Senhor com olhos cheios de admiração, abraçando-o com um coração ardente. No ano 1220, quando o cardeal Hugolino veio a São Damião, ela o levou junto consigo até as profundezas da experiência mística. Numa carta impressionante, o próprio cardeal confirmou depois que durante meses ainda sentiu a dor de ter que voltar deste mergulho nas profundezas divinas. De fato, Clara experimentou a presença de Deus tão intensa e concretamente que chegou a formular expressões que sublinham de modo singular a dignidade humana.

Façamos uma tentativa de entrar nesta atmosfera contemplativa, pois para Clara a contemplação é essencialmente uma relação amorosa. Entre outras coisas, escreveu à sua amiga, Inês de Praga: “Ama totalmente aquele que totalmente se deu por teu amor, aquele cuja beleza o sol e a lua admiram e cuja generosidade, preciosidade e grandeza não têm  limites” (3ª Carta a Inês de Praga, 3).

Contemplação é o abraço dado ao amado, cuja beleza ultrapassa a magnificência da Criação. A união entre “beleza” e “amor íntimo” é a característica do tipo de contemplação, chamada também de “mística nupcial”, que impregnou a vida dos místicos daquela época. É um motivo que perpassa todos os Escritos de Santa Clara, começando com o “privilégio da pobreza”, que ela conseguiu do Papa Inocêncio III em 1216, em cuja formulação ele participou pessoalmente, terminando com o Testamento que escreveu quando a hora da sua morte já estava iminente.

Na mesma 3ª carta a Inês de Praga, que já citamos, foi acrescentado o motivo da clausura. Porém, Clara não utilizou esse termo importante à vida contemplativa, no sentido de “muralhas claustrais”, destinadas a protegerem a relação com Deus. Para ela, “clausura” é o próprio corpo da pessoa humana, ou antes, o “coração” humano. Este lugar mais íntimo do ser humano torna-se um “lugar sagrado”, torna-se habitação de Deus: “Pela graça de Deus, a alma do homem fiel, a mais digna criatura, é maior do que o próprio céu. Pois os céus e todas as outras criaturas não conseguem conter o Criador, mas somente a alma do homem fiel pode ser sua mansão e sua morada. Isto é apenas possível pela caridade, da qual estão privados os ímpios” (3ª carta a Inês de Praga, 4). Certamente, Clara teria sido incapaz de falar deste modo se a presença divina dentro dela não fosse para ela uma certeza plenificante.

“Beleza”, “amor íntimo”, “relação vivida com Cristo”, “mística nupcial”, “cohabitação de Deus na alma”, são as expressões mais importantes que marcaram a contemplação de Clara. Falta porém notar, que todas essas palavras-chave estão ligadas aos conceitos de “pobreza” e “sofrimento” (cf. Lição 19).

Basta um exemplo: “Observa, considera, contempla aquele que, por tua salvação, se fez o mais desprezado dos homens. Ó rainha muito nobre, não desejeis outra coisa, senão imitar o teu esposo... que foi rejeitado “( 2ª Carta a Inês de Praga, 3).

Um dos trechos mais impressionantes, onde Clara fala de contemplação, se encontra numa outra carta também dirigida a Inês de Praga: “Põe a tua mente naquele que é o espelho da eternidade, e a tua alma no esplendor da sua glória. Põe o teu coração naquele em quem o vigor de Deus se tornou visível e transforma-te, pela contemplação, em imagem perfeita da própria divindade”( 3ª carta a Inês de Praga, 3).

Resumindo, pode-se dizer: contemplação é a admiração que brota espontaneamente do coração, transformando-se em seguida em louvor e agradecimento. Significa igualmente, pacificar-se e mergulhar em Deus, com quem fomos reconciliados por Cristo. Contemplação é a ação de Deus em nós. Nós nos abrimos a Deus a fim de sermos transformados por ele. Contemplação significa admiração, reverência, bondade, emoção. Faz-nos reconhecer o nosso nada e experimentar o nosso vazio, fazendo-nos, entretanto, simultaneamente conscientes da nossa dignidade. Contemplação não é outra coisa do que uma total abertura de nosso coração diante de Deus.
Este curso é promovido pela Família Franciscana do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de Petrópolis e sua realização acontece nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25 fascículos. Quem se interessar por esta coleção, deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br
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  :: Cântico do Irmão Sol ::

"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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