Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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-- Curso do Carisma --
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4. A RETIRADA: DEIXAR O MUNDO, PERMANECENDO NO MUNDO

Ao tratar-se de contemplação, é necessário esclarecer um mal-entendido que, repetidas vezes, ocorreu também na tradição cristã. No seu Testamento, Francisco fala de “ter deixado o mundo”. Essa expressão pode ser interpretada de modo platônico ou dualista Neste caso, o que se entende por “platônico” e “dualista”?  Atrás dos dois termos se esconde uma visão do mundo que contradiz a concepção cristã (cf. Lição 1).

Tal cosmovisão vê as coisas materiais, visíveis e corporais que existem no mundo, como sendo, de um modo global, moralmente inferiores ou até más. Portanto, acreditam ser preciso fugir delas e manter distância. A meta dos cristãos, que aderem a esse tipo de cosmovisão, consiste em renunciar ao mundo, separando-se dele para se retirar a um lugar remoto, no cimo de uma montanha isolada ou num deserto inóspito, para aí procurar unicamente a Deus. Chegando a esse ponto, essas pessoas passariam então a viver totalmente indiferentes ao mundo real, às suas preocupações e alegrias.

Tal atitude é estranha à fé cristã, mesmo se ainda há pessoas que se deixam seduzir pela tentação do dualismo; pois, nós cremos no Deus-feito-Homem, no mistério insondável que se fez carne, que se inseriu dentro da história humana e que, por isso mesmo, só o podemos encontrar no mundo em que vivemos. Para a convicção  cristã, o conceito central é “o Reino de Deus”, ou seja, um mundo que Deus quer criar, chamando-nos a colaborarmos com ele. Esta convicção nos leva a uma frase maravilhosa, pronunciada por um teólogo evangélico do século XVII: “O Fim de todos os caminhos de Deus é o corpo” (J.C.Oetger).

Portanto, o que é que Francisco quer dizer quando fala da necessidade de “deixar o mundo”? E Clara, como entende a sua vida em São Damião, retraída do mundo? Pois, o conceito “mundo” pode ter vários significados:

>>  O mundo como criação, universo, cosmos, “céus e terra”, tudo
“Omnia” (= tudo) na famosa frase do santo: “Meu Deus e meu tudo” (cf. C8, p.14). Com essa palavra se expressa uma convicção de fé: o mundo é visto como Criação, isto é, o mundo não tem sentido em si, nem tira este sentido de si, ele foi criado. Nisto se fundamenta a sua dignidade. E desta Criação não podemos excluir-nos, e isso pelo simples fato de nós mesmos fazermos parte dela. Em Francisco, a fé no mundo como Criação é muito concreta, assim como demonstra o seu Cântico do Irmão Sol. E Clara se expressa no mesmo sentido, numa curta oração que formulou antes da sua morte: “Ó Senhor, seja louvado porque me criaste!” (Vida de Clara, 46). Os dois santos chegam a igualar “pobreza” com “ter sido criado”, ser criatura. Pobreza significa ser dependente, não ter recebido a vida de si próprio. No Cântico do Irmão Sol, essa consciência de sentir-se criatura passa a ser o denominador comum para todos os seres que existem.

>> O mundo na sua ambigüidade
Por um lado, o mundo é o lugar onde Deus atua; é a Criação de Deus. Por outro lado, é o lugar onde o homem se descobre autônomo, capaz de opor-se a Deus e de se perder. Em outras palavras, significa o mundo que renega Deus. Esta discrepância perpassa o coração do próprio ser humano. Por isso, não lhe é possível retirar-se ou desligar-se do mundo real. Por onde a pessoa anda, carrega o mundo consigo. Quando se pensa estar longe dele, é justamente lá que o descobre. Todos que já tentaram retirar-se para o deserto ou para uma clausura, tiveram, na solidão, que passar pela experiência de sentirem-se perseguidos pelo mal que ameaça a vida. Famosas são as tentações sofridas por Santo Antônio (= Antão) do Egito, morto em 356. Também Francisco e Clara conheceram experiências semelhantes.

>> A sociedade humana
Quando se referiu à sociedade de sua época, Francisco usou a palavra “saeculum”, com a qual designava um mundo concreto, estruturado, determinado pelo tempo, por circunstâncias, situações, valores, contra-valores, etc. É possível conceber o mundo desta maneira, como algo alienante, inimigo, ameaçador e contrário aos desígnios de Deus.

O homem atento pode sentir-se impelido cada vez mais aos limites deste mundo, por nele já não mais sentir-se em casa. Deve ter sido esse, aproximadamente, ocaso que Francisco de Assis descreve em seu Testamento. O leproso, escorraçado da sociedade medieval, fez Francisco de Assis ficar consciente de que também ele estava sendo empurrado até os extremos limites da existência. Foi então que Francisco parou e, em seguida, deu o passo decisivo: conscientemente “saiu” deste tipo de “mundo” (“saeculum” = sociedade), para viver uma vida nova ( = vida de penitência).
Em outras palavras: o mundo pode se apresentar como um todo, fechado em si, onde o ser humano – pouco a pouco – se sente asfixiado ( = pelo “pecado”, no sentido do Evangelho de São João). É a hora de procurar uma nova posição: Jesus Cristo e seu Evangelho tornam-se, então, o critério básico que, a partir deste momento, determinam e dirigem a vida inteira.

É, portanto, necessário retirar-se de uma sociedade que se apresenta a si próprio como um absoluto. Esta retirada faz parte essencial de uma autêntica existência cristã. Porém, tal recuo não significa uma fuga do mundo, nem tampouco um afastar-se da Criação.

 Para Francisco, isto se realiza pela consciência de se saber enviado para viver como um evangelizador peregrino que incansavelmente percorre o mundo, totalmente disponível aos homens. Às vezes, retirava-se, para não se perder. Para Clara, porém, nunca chegou a hora de poder imitar a vida itinerante de Francisco. Foi obrigada a isolar-se, junto com suas irmãs, no mosteiro de São Damião, para ali obedecer à rigorosa regra de clausura, que lhe foi imposta por Hugolino de Óstia. Entretanto, basta analisar atentamente o modo como ela descreve a sua vida, para notar grandes diferenças entre os termos usado pela Igreja e por ela, pois palavras como “clausura”e “inclusa”não aparecem nos seus escritos. Clara era aberta ao mundo. As pessoas de fora chegavam para lhe pedir conselho, ela curava os doentes que o povo lhe trazia, recebeu criancinhas no seu mosteiro. Duas vezes (uma em 1240 e outra em 1241) salvou o mosteiro e a cidade de Assis das tropas do Imperador Frederico II. Ela dizia: “Quem contempla a Deus não ficará cego aos demais”; acrescentando ainda: “Não acontecerá nada de mal aos que servem a Deus” (Vida de Clara 19).
Este curso é promovido pela Família Franciscana do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de Petrópolis e sua realização acontece nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25 fascículos. Quem se interessar por esta coleção, deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br
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  :: Cântico do Irmão Sol ::

"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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