Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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2.2 O mundo como "convento"

À primeira vista, também Francisco e Clara foram marcados pelo espírito de dualismo. Jejuavam e mortificavam-se, tratavam mal o seu "irmão jumento", quer dizer, seu próprio corpo, com tanta dureza que chega a ser quase incompreensível hoje em dia. Os dois "saíram do mundo". Francisco usou esse termo para expressar que o beijo que deu ao leproso significava realmente uma mudança radical na sua própria vida. Com esse passo, porém, não chegou a um estado extraterrestre, muito pelo contrário.

Talvez seja bom, relembrar aqui o trecho onde o próprio Francisco descreve sua conversão: "Foi assim que o Senhor me concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência: como estivesse em pecado, parecia-me deveras insuportável olhar para os leprosos. E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles. E, enquanto me retirava deles, justamente o que antes me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo. E depois disto demorei só bem pouco e abandonei o mundo" (Test 1-3).

Em primeiro lugar, é preciso chamar atenção ao fato de que Francisco encontrou Deus no mundo, no abraço de um pobre excluído, desprezado e miserável, no encontro com a miséria social, que o confrontou na pessoa de um leproso. Portanto, Francisco abandonou um certo tipo de "mundo", ou seja, o mundo marcado pela desumanidade, que continua produzindo sempre novos "leprosos". E ele se integrou num outro mundo: num mundo caracterizado pela compaixão, que resgata o leproso, reintegrando-o no meio da sociedade. Francisco quer um mundo que termina com todas as formas de exclusão e onde se consegue chegar à experiência de Deus; assim como acontece num encontro autêntico, num abraço amigo, num beijo.

Que Francisco, de fato, não deixou o mundo, mas considerava o mundo como um lugar próprio para sua nova forma de vida, é demonstrado, por exemplo, pela nova lei que deu à sua fraternidade: "Quando os irmãos andarem pelo mundo, (devem encarnar o espírito do Evangelho)" (RegNB 14). Francisco concebia a sua comunidade como uma fraternidade nômada: Não devia fixar-se definitivamente em lugar nenhum, nem nos montes, nem nos vales. Ao máximo, poderia repousar-se por um pouco de tempo, para depois partir novamente e continuar a caminhada.

Num jogral maravilhoso, chamado "Sacrum Commercium", que foi escrito em meados do século XIII por um franciscano desconhecido, conta-se com a "Senhora Pobreza" pediu aos frades que lhe mostrassem o seu convento. "Conduziram-na a um certo monte, mostraram-lhe a região toda que se podia ver, e disseram: Senhora, este é o nosso convento!" (SCom 63).

O mais famoso poema escrito por São Francisco, "O Cântico do Irmão Sol", não é outra coisa do que uma transposição quase litúrgica - em forma de hino - de uma espiritualidade profundamente secular.

Portanto, seria muito proveitoso procurar ler também os outros escritos de Francisco sob um ângulo "secular". Comparemos, por exemplo, a "Regra Não-Bulada" com a "Carta aos Fiéis".

A Regra Não-Bulada é o fundamento da Primeira Ordem, assim como a Carta aos Fiéis é o fundamento da Ordem Terceira. Por via de regra, encontramos poucos trechos na Regra que não poderiam estar também na Carta, e vice-versa. Além disso, muitas das frases são quase idênticas. Isto obriga concluir que tanto a Primeira como a Terceira Ordem, e provavelmente também a Segunda Ordem, são mantidas pela mesma dinâmica espiritual, ou seja, é preciso procurar, encontrar e testemunhar Deus no mundo. Em outras palavras, nossa missão não consiste em outra coisa do que sermos testemunhas de Deus no mundo..

Este curso é promovido pela Família Franciscana do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de Petrópolis e sua realização acontece nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25 fascículos. Quem se interessar por esta coleção, deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br
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  :: Cântico do Irmão Sol ::

"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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