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2.4
A devoção natalina de São
Francisco e Santa Clara
Para reencontrar a nossa "secularidade",
deveríamos procurar responder à
pergunta por que Francisco considerava o Natal
"a festa das festas" (2Cel 1 99).
Para muitos teólogos, essa afirmação
é uma aberração da piedade
popular. No seu parecer, a época pascal
(de Sexta-feira Santa até Pentecostes)
constitui o ponto alto
do Ato litúrgico. De fato, em muitas
partes, a festa de Natal foi reduzida a um acontecimento
folclórico, sentimental e sem compromisso,
uma espécie de fuga da realidade a um
mundo tanto interior quanto irreal, que não
tem nada que ver com a verdadeira vida.
É possível, porém, ver
o Natal também de uma outra maneira.
Nas suas teses, o teólogo franciscano
Duns Scotus partiu teologicamente do amor de
Deus. Deus se identifica de tal modo com o Amor
que não pode ser entendido como isolado
ou único. Não é, portanto,
"um ser que existe para si mesmo",
como foi formulado por vários filósofos.
Pelo contrário, Deus é total doação,
total entrega. Por isso, quer um mundo onde
as criaturas amem a si mesmas e aos outros,
formando uma única criação
interdependente, que constitui uma espécie
de rede, uma realidade definida pelas suas relações
mútuas e não pelas suas delimitações
e separações. Por este motivo,
de um modo insuperável, Deus mesmo se
fez presente numa criatura: Jesus de Nazaré.
Através dele, deseja amar todo mundo
e ser amado por todo mundo. Todos hão
de reconhecer onde está o seu centro,
para poder crescer à plena unidade no
amor.
É por isso que Francisco celebrou a vinda
de Deus ao mundo. Para ele, Deus é a
encarnação da humildade, que se
encontra até nas mínimas coisas:
numa criança, que nasce num estábulo,
no meio da indigência, da falta de abrigo,
na pobreza e na miséria, em todas as
necessidades, criadas por uma economia e uma
política que permitem e aceitam a situação
de refugiados e exilados, de pobres e leprosos
como uma espécie de subprodutos. Deus
nos convida a procurá-lo no meio dos
pobres, também entre as criaturas sofredoras
e famintas, entre seres humanos e animais. Por
este motivo, Francisco queria conseguir que
tanto o Imperador como também "todos
os governantes dos povos" no mundo inteiro
promulgassem leis que reconhecessem essa verdade.
Para ele, o Natal dá o impulso para superar
tanto a pobreza, como a fonte, para constituir
o fundamento da verdadeira humanização
das pessoas.
A continuação do Natal acontece
na Eucaristia: Deus "se humilha todos os
dias", entrando num pedaço insignificante
de pão, partilhado pelos que acreditam
nele (Adm1). Deus quer que - diariamente de
novo - as pessoas se encontrem juntas na sua
presença. Ninguém deveria continuar
a se apegar a seus propósitos egoístas,
ninguém deveria esconder-se no seu ninho
individual, mas todos têm que se levantar
de todos os lados para recomeçar a se
reencontrar mutuamente e ao mundo inteiro: o
mar e o campo, a terra e o céu: tudo
há de reviver (CtOrd) e a "beatifica
comunhão) (ParPn) que existe no céu
há de se tornar visível e reconhecível
já aqui na terra.
Natal significa uma subversão diária
dos valores e uma transformação
radical do comportamento humano. Aquilo que
parece pequeno e insignificante tem que ser
considerado grande; aquilo que é considerado
importante e valioso tem que reverter à
categoria das coisas sem valor. Os pensamentos
de Deus não são os pensamentos
humanos. Os leprosos pertencem ao centro, os
poderosos têm de ceder-lhes o lugar central.
A Família Franciscana é destinada
a trazer a mudança divina e revolucionária
para dentro do mundo, assim como Maria o exprimiu
no seu canto Magnificat.
E é assim que Deus se une irrevogavelmente
ao mundo. E somente aqueles que seguem o exemplo
de Deus, assumindo o mundo para mudar o seu
destino para o bem, estão do lado de
Deus. Cruz e Ressurreição são
extensões desse pensamento, são
condensações, culminações,
conseqüências dele. Portanto, Deus
chega a ser a força histórica
e modificadora para todos os que acreditam na
Religião da Encarnação
e que dão testemunho dela. Numa carta
escrita por Francisco, ele definiu as pessoas
que têm fé como "Mães
de Deus". Como Maria, também nós
podemos conceber Deus, carregando-o em nós
e fazendo-o nascer pelas nossas boas obras.
Portanto, podemos contribuir com nossa parte,
para que Deus esteja realmente presente no mundo,
de um modo visível e palpável
(cf. 2CFi 53).
A seu modo, também Clara de Assis dá
testemunho do mesmo mistério da Encarnação
de Deus. Assumiu o pensamento místico
do seu amigo Francisco para o aprofundar, alcançando
um ponto alto na sua experiência interior,
ao escrever a sua amiga, Inês de Praga:
"Ama totalmente aquele que totalmente se
deu por teu amor, aquele cuja beleza o sol e
a lua admirará e cuja generosidade, preciosidade
e grandeza não têm limites, isto
é, ao Filho do Altíssimo, que
nasceu de Maria, a qual permaneceu virgem depois
do parto. Prende-te àquela dulcíssima
Mãe, que engendrou tal filho que os céus
não podiam conter e que, todavia, ela
conteve no pequeno claustro de seu santo corpo
e trouxe no seu seio virginal" (3Ctln 3).
O infinitamente grande se limita; o inatingível
se deixa tocar. Aqui Clara retoma o motivo de
um antigo hino a Maria:
Aquele que a terra, o mar e o ar
Louvam, adoram e veneram;
Aquele, Senhor dos três mundos,
Foi contido no seio de Maria.
Seria bom se nós nos detivéssemos
um pouco mais neste pensamento da livre autolimitação
de Deus; pois, há de ficar o pensamento
central da fé cristã. O fato da
criação já foi um ato de
autolimitação; Deus se retirou,
se limitou para que a criação
tivesse espaço, tivesse uma história
autônoma, para que os seres humanos tivessem
sua liberdade. E quando Deus se revela, então
se submete à sua própria criação,
se entrega nas mãos dos seres humanos,
se deixa tocar, se faz presente em tudo que
não é Deus.
Clara persegue essa idéia até
os seus extremos: "Vejo como é manifesto
que a alma do homem fiel, pela graça
de Deus, a mais dignaç das criaturas,
é maior do que o próprio céu.
Pois os céus e todas as outras criaturas
não conseguem conter o Criador, mas somente
a alma do homem fiel pode ser sua mansão
e sua morada. Isto é apenas possível
pela caridade da qual estão privados
os ímpios. Ora, aquele que é a
Verdade diz: Quem me ama será amado pelo
meu Pai e eu o amarei, e nós Viremos
a ele e nele faremos a nossa morada" (Jô
14, 21-23) (3Ctln 4). Aquilo que aconteceu a
Maria em nível biológico-histórico
continua sendo uma possibilidade real em nível
místico-espiritual para todo cristão
que tem fé: a consciência de Deus,
a Encarnação de Deus, a habitação
de Deus dentro do ser humano.
Neste sentido, Clara escreveu a Inês:
"Assim como a gloriosa Virgem das virgens
o trouxe materialmente em seu corpo, da mesma
maneira também tu, seguindo os seus passos,
especialmente a humildade e a pobreza, sem dúvida
alguma, poderás trazê-lo espiritualmente
no teu casto e virginal coração.
Deste modo, conterás aquele pelo qual
tu, e todas as criaturas, são contidas.
Igualmente possuirás algo mais precioso
do que o resto dos bens passageiros que este
mundo pode oferecer" (3Ctln 4).
Portanto, também para Santa Clara, o
objetivo da Encarnação de Deus
é o mundo, o universo. |
Este
curso é promovido pela Família Franciscana
do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de
Petrópolis e sua realização acontece
nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25
fascículos. Quem se interessar por esta coleção,
deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br |
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"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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