Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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-- Curso do Carisma --
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1. ACEITAR O DESAFIO

Por isso, vamos tentar agora vê-los com olhos novos, falar deles, usando uma linguagem ainda não costumeira. Neste intuito, vamos recorrer a pessoas de fora para que eles nos digam quem foram - ao seu parecer - Francisco e Clara, e o que os dois significam para o mundo.

O pensar francês Ernest Renan (1823-1892) estava convencido de que houve, sobretudo, três momentos decisivos na história da humanidade, ou seja, a origem do Cristinianismo, a Revolução Francesa e o movimento franciscano do século XIII. Paul Sabatier, um pesquisador protestante a quem temos muito que agradecer como Família Franciscana, relatou o que Renan lhe falou a respeito: "Quando comecei a trabalhar, fiquei sonhando com o projeto de dedicar a minha vida ao estudo de três épocas históricas. _ Sejam abençoados os sonhos da juventude! - Trata-se dos três períodos seguintes: a origem do Cristianismo liado à história de Israel, a Revolução Francesa, e a maravilhosa renovação religiosa desencadeada por Francisco de Assis. Lamentavelmente, consegui somente realizar o primeiro destes três pontos do meu programa.

Depois de dizer isto, Renan voltou-se para um jovem que parecia ter boa saúde, mas que, de fato, morreu pouco tempo depois, sucumbindo ao excesso de trabalho. Dirigindo-se a esse moço, falou: Sr. Leblond, é o Sr. quem terá que reconstruir a história religiosa da Revolução. Em seguida, virou-se para um outro senhor (o próprio Paul Sebatier), colocou sua mão sobre o ombro dele para impedir que se esquivasse, e lhe disse: Você será o historiador seráfico. Tenho inveja de você! Francisco sempre sorria para seus historiadores. O processo que desencadeou e as conseqüências que esse processo teve nos séculos seguintes nunca foram suficientemente elucidados e analisados. Foi ele quem salvou a Igreja do século XIII; e seu espírito continua vivo de um modo surpreendente. Temos necessidade dele. Se realmente o quisermos, ele voltará".

De fato, Paul Sabatier chegou a ser um importante pesquisador de nossa história franciscana. A partir dos livros que escreveu, as idéias de Francisco ficaram como um aguilhão na carne da Família Franciscana, e até da sociedade inteira. Não é por nada que inúmeros autores continuam publicando livros sobre a vida e o movimento de Francisco.

Devemo-nos perguntar, porém, será que hoje em dia sabemos realmente mais a respeito dele? Será que realmente entendemos o que Francisco e Clara queriam nos dizer? Não temos, por acaso, necessidade de deixar-nos encantar novamente pelo sorriso dos dois? Para dar um outro exemplo, o que será que François Voltaire, o espírito revolucionário da França, pensava do seu padroeiro? No mundo inteiro e até o dia de hoje, Voltaire continua sendo considerado um ateu convicto, porque se distanciou da forma tradicional do Cristianismo vivido no seu tempo. Apesar disso, celebrava anualmente o dia 4 de outubro como seu dia onomástico, sentiu-se próximo do convento capuchinho de Gex, e os capuchinhos, por sua vez, o consideravam como um deles. Será que isto pode ser um sinal de que Voltaire se sentiu atraído por uma outra forma de viver a fé cristã, ou seja, a forma propagada por Francisco e Clara?

A forma de vida de que tratamos emerge de um livro publicado sobre Francisco. Entre outras coisas, traz a seguinte observação: "Sobretudo são noções, visões e utopias de um novo mundo pacífico, unidas à idéia da redenção do mundo, que conferem ao franciscanismo uma atualidade ininterrupta. São temas religiosos que interessam não somente a cristãos, mas a todos que não são indiferentes ao que toca o destino do mundo e também a sua própria morte individual" (H. Feld, p.7).

Escutemos ainda mais uma testemunha, o publicitário alemão Walter Dirks. Depois da II Guerra Mundial, procurava uma força capaz de contribuir para a reconstrução da ordem social e acreditava ter encontrado essa força na Terceira Ordem fundada por São Francisco (TOR/OSF):

"Desde o início, - de um modo exagerado -a Ordem Terceira foi considerada uma Ordem fechada em si, como se fosse nada mais do que uma espécie de fraternidade piedosa. Provavelmente São Francisco não tinha culpa nenhuma neste equívoco. Em verdade, a Ordem Terceira devia ter-se tornado um movimento capaz de remodelar o mundo.

A vida monástica, na sua forma especificamente franciscana, representada pela Primeira e Segunda Ordem, visava atingir os "novos ricos", semelhante ao modo como São Bento visava atingir os poderosos do seu tempo por meio de comunidades fraternas de trabalho. Consequentemente, pode-se afirmar que a missão histórica específica de Francisco se concentrou na formação da Ordem Terceira: Não foi a finalidade original dessa Ordem fazer os pobres ficarem "piedosos", amantes da pobreza; também não visava tornar os ricos "piedosos", prendendo-os dentro de um sistema de orações para resgatar suas almas. A finalidade da Ordem Terceira, pelo contrário, consistia em conseguir que os ricos se tornassem ricos de um modo cristão. Porém, será que é realmente possível que um rico se dedique de corpo e alma a suas tarefas no mundo e simultaneamente continue sendo um "bom cristão"? ou - melhor ainda - como se tornaria um santo? Essa é a grande interrogação à qual a Ordem Terceira teria que responder. Essa é a pergunta característica desse século, que representa o tempo de incubação do capitalismo.

Originalmente, a ordem Terceira foi concebida como uma simples fraternidade cristã, que se manteve unida por um mínimo de regras elementares e que via sua "tarefa religiosa" no mundo secular: nos negócios e afazeres dos irmãos, nos seus casamentos e suas vidas de família, nas suas corporações, na política que praticavam nas suas câmaras municipais. Teria sido a sua missão contruir o mundo burguês dentro do ãmbito da Igreja.

Teria sido a tarefa dos burgueses fazer do "tempo moderno" uma época cristã, de fazer da história profana e espiritual dessa época um capítulo da História da Salvação da humanidade inteira. Essa Ordem Terceira ideal deveria ter sido a razão de ser da Primeira e da Segunda Ordem. Portanto, a Ordem Terceira devia ter mudado o rumo da história do mundo de um modo marcante. Assim teria correspondido à idéia de Deus sobre o mundo moderno. Francisco, pelo menos, entendeu as coisas assim. Pisou no dinheiro, procurando esmagá-lo na poeira, pois previu de um modo lúcido que o dinheiro, esse ídolo, esse feitiço do século burguês, seria capaz de suplantar o Deus crucificado e ressuscitado. Francisco entrou na brecha contra um inimigo perigoso: sua Ordem Terceira, fortificada pela oração, pela fraternidade e pela tríplice imolação oferecida pela Primeira e pela Segunda Ordem por meio dos votos religiosos, tinha a tarefa de lidar de um modo cristão com o dinheiro e o domínio do dinheiro. Isto, finalmente, não conseguiu. Neste sentido, Francisco fracassou historicamente, do mesmo modo como São Bento fracassou.

À medida que a práxis burguesa se secularizou, a vida religiosa se espiritualizou. Quando os poderosos e ricos já não tinham necessidade de "resgatar suas almas" por meio do dinheiro, quando a sua emancipação ficou auto-suficiente e presunçosa, descartando a casa de um passado marcado pela Igreja cristã, quando os ricos e poderosos ou já não pagaram mais nada à Igreja, ou somente fizeram donativos por mero "humanismo", então também a Ordem Terceira se encolheu, até ficar simplesmente uma fraternidade piedosa de gente insignificante.

Sua tarefa teria sido a de marcar definitivamente a história de vários séculos. Em vez disso, degradou-se até ficar nada mais do que uma associação de gente piedosa. Neste fracasso se manifesta que o Cristianismo em geral fracassou no tempo moderno" (Dirks, resumo das páginas 177-181).

Em vários sentidos, esse texto é um desafio para aqueles que reclamam para si a herança de Francisco e Clara:

• De acordo com o que foi dito até agora, a Ordem Terceira foi a verdadeira razão de ser para a qual Francisco viveu. Sua missão específica consistia na santificação do mundo, na penetração dos setores seculares pelo Espírito Santo. De acordo com a opinião de Walter Dirks, a Primeira e a Segunda Ordem existiam unicamente para dar apoio, para que a Ordem Terceira pudesse desdobrar-se plenamente. Não se tratava de renunciar à sexualidade, ao dinheiro e ao poder, como exigem as Ordens monásticas, mas - pelo contrário - tratava-se, antes de tudo, do uso adequado e correto do dinheiro e sua distribuição justa no mundo; tratava-se do cunho cristão a ser dado ao comércio, à política, ao matrimônio, à configuração da cidade secular...

• Em lugar disso, Dirks mostra que a Ordem Terceira acabou se transformando em nada mais que uma "associação piedosa". Portanto, não representa o que devia ter representado. Em conseqüência, recai sobre ela - em parte - a acusação de cumplicidade com o ateísmo do mundo atual.

• Seguindo o pensamento de Dirks, também a Primeira e a Segunda Ordem se desviaram de seu destino. Como o Cristianismo em geral, também o movimento franciscano fracassou.

Vamos evitar reagir de um modo defensivo contra essas afirmações, para logo também esquecer o desafio que a nos é dirigido. Antes, deveríamos olhar a história de Francisco e Clara através dessa nova ótica. Desta maneira, talvez seja possível reencontrar a nossa missão original.

Este curso é promovido pela Família Franciscana do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de Petrópolis e sua realização acontece nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25 fascículos. Quem se interessar por esta coleção, deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br
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  :: Cântico do Irmão Sol ::

"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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