Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 12/02/2012
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-- Curso do Carisma --
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III. INFORMAÇÃO

1.2 Francisco e Clara: modelos de formação

Os fatores formativos, anteriormente lembrados, têm importância universal. Além do mais, possuem um cunho todo especial dentro da espiritualidade franciscana. Para cada um deles poderiam ser aduzidos exemplos esclarecedores à luz dos escritos de Francisco e Clara.

Tomás de Celano já entendia o movimento franciscano a partir da pessoa de Francisco. Não no sentido de que se deva imitar, fazer e dizer exatamente o que Francisco fazia. A observação dos primeiros irmãos demonstra que cada um deles era "original" e não uma "cópia". Antes, o movimento franciscano pode ser asssim definido: Trata-se de pessoas que encontraram em Francisco o conhecimento de si mesmos.

"Ressoavam por toda parte a ação de graças e o louvor, e por isso foram muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos para chegar ao conhecimento de si mesmos, na vida e na escola do santo pai Francisco, caminhando para o amor de Deus e seu culto. Começaram a vir a São Francisco muitas pessoas do povo, nobres e plebeus, clérigos e leigos, querendo por inspiração de Deus militar para sempre sob sua disciplina e magistério. O espírito santo de Deus, como um rio cauteloso de graça celeste, alimentado pelas chuvas dos carismas, enriquecia o campo de seus corações com flores das virtudes. Pois era um artista consumado, que apresentava o exemplo, a Regra e os ensinamentos de acordo com os quais a Igreja de Cristo rejuvenescia, enquanto nos homens e nas mulheres triunfava o tríplice exército dos predestinados" (1Cel 37).

Em outras palavras, é franciscano quem se forma no encontro com Francisco, enquanto esculpe em si próprio uma imagem toda pessoal, embora vivamente delineada por um modelo. Já no início do movimento franciscano, cunhou-se a expressão "forma minorum", de difícil tradução. Segundo este dito, é Francisco um fator de formação, isto é, pessoa que influencia de maneira modelar a formação e a configuração da pessoa.

Afirmações semelhantes podem-se fazer também a respeito da infuência exercida por Clara. É por este motivo que há tantas histórias e lendas sobre os dois, para que os irmãos e as irmãs possam crescer segundo a forma deles. Tanto para Francisco como para Clara, os Evangelhos foram a recomendação determinante. Toda educação e formação franciscanas encontram neles seu sentido profundo, ou seja, a união e conformidade com Cristo. Portanto, o exemplo vivo de Clara também possui para suas irmãs um caráter modelar.

No centro do documento de Mattli, explicita-se melhor a origem franciscana, mencionada no item 1.2 da presente lição: Desde o início, Francisco de Assis significava a "forma minorum", isto é, a figura modelar para todos os irmãos que quisessem segui-lo.

>> Sempre aberto aos sinais do tempo:
Faz parte do caráter de Francisco exatamente a marca de ser aberto a tudo e a todos com os quais ele se deparava. Sua biografia demonstra como ele tinha sido formado não tanto pela escola, mas pelas circunstâncias da vida diária, pelos encontros e experiências concretos, dentro e fora da cidade de Assis. Sua Regra não bulada evidencia como Francisco se deixava formar pelas ocorrências concretas e espontâneas da vida, pelos encontros e acontecimentos normais, pelos rumos históricos da época e pelas determinações da Igreja. À medida que esses fatos permitiam tirar conclusões e decisões, ele as formulava, inserindo-as em sua Regra, que ia tornando-se, ao longo dos anos, cada vez mais extensa. Nomeou o Espírito Santo como Ministro Geral da Ordem (2Cel 193), para deixar bem claro que sua comunidade deveria aprender não somente dos indefinidos "lugares, tempos e regiões frias" (RegB 4,2), mas também dos acontecimentos e desafios do tempo presente.

>> Aprender do mais jovem dos noviços
Talvez um sinônimo de "aprender" seja "obedecer" (cf. latim: "ob-audire"). Francisco ouviu a tudo e a todos. Por si mesmo, ele não sabia o que deveria fazer. As circunstâncias é que o instruíam. Era dirigido, e as coisas se lhes revelavam. Permaneceu aprendiz durante toda a sua vida, atento em ouvir a comunidade, em ouvir a cada irmão pessoalmente, levando em consideração, principalmente, o menor deles (cf. Test; 2Cel 151).

Encontramos o mesmo pensamento na Regra de Clara, onde está escrito que, durante os Capítulos da comunidade, a abadessa "consulte todas as suas irmãs a respeito de tudo o que é útil e bom para o convento; pois muitas vezes o Senhor revela, justamente aos menores, o que é melhor" (RegCl IV, 16). Portanto, também a abadessa tem que ser, em primeiro lugar, uma pessoa que escuta as outras.

>> Formação no leprosário
Sabemos que Francisco se tinha disposto de todos os meios necessários para ser um comerciante de sucesso. Entretanto, ele mesmo se considerava "um homem ignorante e pouco ilustrado" (CtOrd 39), por querer ser do número dos "não-formados" e não se diferenciar deles. Sua verdadeira formação, ele a recebeu de outra parte. O como e o quanto ele se formou e "doutorou" em contato com os leprosos, ele mesmo o refere em seu Testamento. Libertou-se do nojo, do medo de contato e do mundo cruel de Assis. Francisco foi, existencialmente, tocado pelos leprosos até o mais profundo de suas entranhas, passando de então em diante a viver uma cultura da misericórdia (Test 1,4). E, mais importante ainda, passou a sentir tudo diferente, novo, lendo as realidades e os objetos da Fé com novos olhos, treinados no contato com os leprosos:

>> O Cristo de São Damião não é mais para ele o Senhor elevado acima das dores e misérias do mundo, mas o Senhor pregado na cruz, cujos olhares buscam aflitamente a distância, onde participa dos sofrimentos da humanidade. E assim também Francisco passa a condoer-se dele e com ele da miséria humana.

>> A Igreja, apesar dos seus ministros tantas vezes indignos e deploráveis, não lhe é mais motivo de escândalo. Francisco sabe distinguir, reconhecendo a presença de Cristo nos sacerdotes: "Nem quero olhar para o pecado deles, porque neles reconheço o Filho de Deus, e eles são os meus senhores" (Test 3,9).

>> A "pequenez do Pão", levada tão pouco em consideração no tempo de Francisco, recobra para ele um grande valor: a humilde presença de Deus, deixada nas mãos dos homens (cf. CtOrd 27-28; CtCler 8).

>> Para Francisco são infinitamente valiosas as palavras, ditas por dizer, textos que alguns jogariam no lixo, bem como textos de pessoas sem fé. O Verbo, a Palavra, realmente "se fea carne". Com as letras de qualquer texto é possível escrever o Evangelho ou o Nome de Jesus. Para Francisco, de repente, o Evangelho passou a ser não mais um texto monótono e repetitivo, e, sim, "Espírito e Vida" (1CtFi, II, 32). As palavras revelam-lhe o Evangelho o Evangelho dos pobres (Test 12ss; CtCler 12; CtOrd 36; 1Cel82).

Desde o encontro com o leproso, tudo tomou um novo sentido. O desprezível e repugnante revela, como numa imagem, a presença de Deus. Francisco deixou-se moldar por esta intuição. O encontro com o leproso e com a pobreza veio determinar sua forma de vida. Como, pois, admirar-se ainda que seus primeiros noviços tivessem que passar o noviciado dentro de um leprosário? (cf. LegPer 9; 1Cel 39).

Também hoje em dia seria importante determinar a formação franciscana por este mesmo espírito: servindo aos aidéticos, aos sem-teto, aos meninos de rua, aos dependentes de narcóticos e a todos os outros tipos de excluídos, oprimidos e descartáveis que existem à margem da nossa sociedade moderna.

>> Não se compreende nada, antes de praticá-lo.
Sem dúvida, foram altamente significativas a vivência e a experiência prática na formação do Santo. São Boaventura frisou esta mesma verdade, declarando: "Saber muitas coisas sem saboreá-las, o que adianta?". Santo Inácio de Loyola afirmou igualmente: "Não é a quantidade do Saber que sacia a alma, mas a capacidade de degustá-lo". Portanto, a experiência prática e a capacidade de desfrutá-la são mais importantes do que a ciência teórica.

Egídio de Assis, cuja vida interior era muito próxima da de Francisco, formulou isto do seguinte modo: "O ser humano possui sabedoria na medida do bem que ele pratica e nada além disso", e acrescentou ainda: "Sábio é quem se parece com o Sábio por excelência, Jesus Cristo". Egídio estabeleceu uma ligação entre o saber e a forma de vida de Francisco, que possui seu centro na humildade: "Se queres saber muitas coisas e executar muitas obras, então rebaixe a tua cabeça com frequência". Por este motivo, o fazer tem um valor insubstituível no processo de formação do Santo, assim como para o conceito de formação que ele legou ao movimento franciscano. É interessante observar que a palavra "fazer" é o verbo mais frequentemente encontrado nos escritos de São Francisco.

>> Primeiro a conversão pessoal, depois a pregação:
Trata-se de "encontrar nas santíssimas palavras e obras de Deus a glória e a alegria" e, assim, "conduzir as pessoas a Deus amado com entusiasmo e alegria" (Adm 21).

Afinal, Francisco não entendia a exortação feita aos outros como uma pregação da palavra, mas como pregação que se realizava através do exemplo de vida pessoal. Se devêssemos parafrasear a palavra de São Francisco, talvez pudéssemos dizer: deixar-se modelar, esculpir e construir pela Boa-Nova.
Entre uma tal formação e a pregação não existe uma relação intencional direta. Francisco não se aprofunda na imagem moldadora de Nosso Senhor com o fim de salvar outros. Ele vai ao encontro do Senhor, sem segundas intenções. A pregação é apenas consequência, não finalidade da formação. Aliás, isso fica demonstrado na formosa carta do Santo a Antônio de Pádua. Francisco acha até bom que Antônio instrua os Irmãos em Teologia, não por tratar-se de instrução para pregar, mas por tratar-se de incrementar o "espírito de oração e doação". Disse, certa vez, Hubertino de Casale: "Não se pretende julgar o santo e ordeiro estudo da Sagrada Escritura. A idéia de São Francisco e da Regra foi de que os Irmãos a quisessem estudar simplesmente em si mesma, vale dizer, para seus fins essenciais: para ancorarem-se a si próprios na verdadeira humildade e na prática da oração. Eles estudavam a Bíblia Sagrada para sua própria formação e realização pessoal. Antes de quererem ser úteis a outros, eles queriam vivenciar o que aprendiam". (Citado da obra de Gratien de Paris, Histoire des frères mineurs, fotocópia feita em Roma 1982, p. 394). Clara teve as mesmas preocupações que Francisco, ou seja, o medo de que a ambição do Saber possa ser abusado pela pessoa a ponto de procurar para si um lugar de destaque, a partir do qual consegue elevar-se acima dos seus semelhantes. Consequentemente, Clara assumiu na sua Regra as palavras de Francisco, ao escrever: "E as irmãs que não tiverem estudos não procurem adquiri-los, mas sempre tenham em mente, acima de tudo, o desejo de possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar" (RegCl X, 8 = RegB 10, 8-9).

Este curso é promovido pela Família Franciscana do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de Petrópolis e sua realização acontece nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25 fascículos. Quem se interessar por esta coleção, deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br
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  :: Cântico do Irmão Sol ::

"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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