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III.
INFORMAÇÃO
1.2 Francisco e Clara: modelos de formação
Os fatores formativos, anteriormente lembrados,
têm importância universal. Além
do mais, possuem um cunho todo especial dentro
da espiritualidade franciscana. Para cada um
deles poderiam ser aduzidos exemplos esclarecedores
à luz dos escritos de Francisco e Clara.
Tomás de Celano já entendia o
movimento franciscano a partir da pessoa de
Francisco. Não no sentido de que se deva
imitar, fazer e dizer exatamente o que Francisco
fazia. A observação dos primeiros
irmãos demonstra que cada um deles era
"original" e não uma "cópia".
Antes, o movimento franciscano pode ser asssim
definido: Trata-se de pessoas que encontraram
em Francisco o conhecimento de si mesmos.
"Ressoavam por toda parte a ação
de graças e o louvor, e por isso foram
muitos os que quiseram deixar os cuidados mundanos
para chegar ao conhecimento de si mesmos, na
vida e na escola do santo pai Francisco, caminhando
para o amor de Deus e seu culto. Começaram
a vir a São Francisco muitas pessoas
do povo, nobres e plebeus, clérigos e
leigos, querendo por inspiração
de Deus militar para sempre sob sua disciplina
e magistério. O espírito santo
de Deus, como um rio cauteloso de graça
celeste, alimentado pelas chuvas dos carismas,
enriquecia o campo de seus corações
com flores das virtudes. Pois era um artista
consumado, que apresentava o exemplo, a Regra
e os ensinamentos de acordo com os quais a Igreja
de Cristo rejuvenescia, enquanto nos homens
e nas mulheres triunfava o tríplice exército
dos predestinados" (1Cel 37).
Em outras palavras, é franciscano quem
se forma no encontro com Francisco, enquanto
esculpe em si próprio uma imagem toda
pessoal, embora vivamente delineada por um modelo.
Já no início do movimento franciscano,
cunhou-se a expressão "forma minorum",
de difícil tradução. Segundo
este dito, é Francisco um fator de formação,
isto é, pessoa que influencia de maneira
modelar a formação e a configuração
da pessoa.
Afirmações semelhantes podem-se
fazer também a respeito da infuência
exercida por Clara. É por este motivo
que há tantas histórias e lendas
sobre os dois, para que os irmãos e as
irmãs possam crescer segundo a forma
deles. Tanto para Francisco como para Clara,
os Evangelhos foram a recomendação
determinante. Toda educação e
formação franciscanas encontram
neles seu sentido profundo, ou seja, a união
e conformidade com Cristo. Portanto, o exemplo
vivo de Clara também possui para suas
irmãs um caráter modelar.
No centro do documento de Mattli, explicita-se
melhor a origem franciscana, mencionada no item
1.2 da presente lição: Desde o
início, Francisco de Assis significava
a "forma minorum", isto é,
a figura modelar para todos os irmãos
que quisessem segui-lo.
>> Sempre aberto aos sinais do tempo:
Faz parte do caráter de Francisco exatamente
a marca de ser aberto a tudo e a todos com os
quais ele se deparava. Sua biografia demonstra
como ele tinha sido formado não tanto
pela escola, mas pelas circunstâncias
da vida diária, pelos encontros e experiências
concretos, dentro e fora da cidade de Assis.
Sua Regra não bulada evidencia como Francisco
se deixava formar pelas ocorrências concretas
e espontâneas da vida, pelos encontros
e acontecimentos normais, pelos rumos históricos
da época e pelas determinações
da Igreja. À medida que esses fatos permitiam
tirar conclusões e decisões, ele
as formulava, inserindo-as em sua Regra, que
ia tornando-se, ao longo dos anos, cada vez
mais extensa. Nomeou o Espírito Santo
como Ministro Geral da Ordem (2Cel 193), para
deixar bem claro que sua comunidade deveria
aprender não somente dos indefinidos
"lugares, tempos e regiões frias"
(RegB 4,2), mas também dos acontecimentos
e desafios do tempo presente.
>> Aprender do mais jovem dos noviços
Talvez um sinônimo de "aprender"
seja "obedecer" (cf. latim: "ob-audire").
Francisco ouviu a tudo e a todos. Por si mesmo,
ele não sabia o que deveria fazer. As
circunstâncias é que o instruíam.
Era dirigido, e as coisas se lhes revelavam.
Permaneceu aprendiz durante toda a sua vida,
atento em ouvir a comunidade, em ouvir a cada
irmão pessoalmente, levando em consideração,
principalmente, o menor deles (cf. Test; 2Cel
151).
Encontramos o mesmo pensamento na Regra de Clara,
onde está escrito que, durante os Capítulos
da comunidade, a abadessa "consulte todas
as suas irmãs a respeito de tudo o que
é útil e bom para o convento;
pois muitas vezes o Senhor revela, justamente
aos menores, o que é melhor" (RegCl
IV, 16). Portanto, também a abadessa
tem que ser, em primeiro lugar, uma pessoa que
escuta as outras.
>> Formação no leprosário
Sabemos que Francisco se tinha disposto de todos
os meios necessários para ser um comerciante
de sucesso. Entretanto, ele mesmo se considerava
"um homem ignorante e pouco ilustrado"
(CtOrd 39), por querer ser do número
dos "não-formados" e não
se diferenciar deles. Sua verdadeira formação,
ele a recebeu de outra parte. O como e o quanto
ele se formou e "doutorou" em contato
com os leprosos, ele mesmo o refere em seu Testamento.
Libertou-se do nojo, do medo de contato e do
mundo cruel de Assis. Francisco foi, existencialmente,
tocado pelos leprosos até o mais profundo
de suas entranhas, passando de então
em diante a viver uma cultura da misericórdia
(Test 1,4). E, mais importante ainda, passou
a sentir tudo diferente, novo, lendo as realidades
e os objetos da Fé com novos olhos, treinados
no contato com os leprosos:
>> O Cristo de São Damião
não é mais para ele o Senhor elevado
acima das dores e misérias do mundo,
mas o Senhor pregado na cruz, cujos olhares
buscam aflitamente a distância, onde participa
dos sofrimentos da humanidade. E assim também
Francisco passa a condoer-se dele e com ele
da miséria humana.
>> A Igreja, apesar dos seus ministros
tantas vezes indignos e deploráveis,
não lhe é mais motivo de escândalo.
Francisco sabe distinguir, reconhecendo a presença
de Cristo nos sacerdotes: "Nem quero olhar
para o pecado deles, porque neles reconheço
o Filho de Deus, e eles são os meus senhores"
(Test 3,9).
>> A "pequenez do Pão",
levada tão pouco em consideração
no tempo de Francisco, recobra para ele um grande
valor: a humilde presença de Deus, deixada
nas mãos dos homens (cf. CtOrd 27-28;
CtCler 8).
>> Para Francisco são infinitamente
valiosas as palavras, ditas por dizer, textos
que alguns jogariam no lixo, bem como textos
de pessoas sem fé. O Verbo, a Palavra,
realmente "se fea carne". Com as letras
de qualquer texto é possível escrever
o Evangelho ou o Nome de Jesus. Para Francisco,
de repente, o Evangelho passou a ser não
mais um texto monótono e repetitivo,
e, sim, "Espírito e Vida" (1CtFi,
II, 32). As palavras revelam-lhe o Evangelho
o Evangelho dos pobres (Test 12ss; CtCler 12;
CtOrd 36; 1Cel82).
Desde o encontro com o leproso, tudo tomou um
novo sentido. O desprezível e repugnante
revela, como numa imagem, a presença
de Deus. Francisco deixou-se moldar por esta
intuição. O encontro com o leproso
e com a pobreza veio determinar sua forma de
vida. Como, pois, admirar-se ainda que seus
primeiros noviços tivessem que passar
o noviciado dentro de um leprosário?
(cf. LegPer 9; 1Cel 39).
Também hoje em dia seria importante
determinar a formação franciscana
por este mesmo espírito: servindo aos
aidéticos, aos sem-teto, aos meninos
de rua, aos dependentes de narcóticos
e a todos os outros tipos de excluídos,
oprimidos e descartáveis que existem
à margem da nossa sociedade moderna.
>> Não se compreende nada, antes
de praticá-lo.
Sem dúvida, foram altamente significativas
a vivência e a experiência prática
na formação do Santo. São
Boaventura frisou esta mesma verdade, declarando:
"Saber muitas coisas sem saboreá-las,
o que adianta?". Santo Inácio de
Loyola afirmou igualmente: "Não
é a quantidade do Saber que sacia a alma,
mas a capacidade de degustá-lo".
Portanto, a experiência prática
e a capacidade de desfrutá-la são
mais importantes do que a ciência teórica.
Egídio de Assis, cuja vida interior era
muito próxima da de Francisco, formulou
isto do seguinte modo: "O ser humano possui
sabedoria na medida do bem que ele pratica e
nada além disso", e acrescentou
ainda: "Sábio é quem se parece
com o Sábio por excelência, Jesus
Cristo". Egídio estabeleceu uma
ligação entre o saber e a forma
de vida de Francisco, que possui seu centro
na humildade: "Se queres saber muitas coisas
e executar muitas obras, então rebaixe
a tua cabeça com frequência".
Por este motivo, o fazer tem um valor insubstituível
no processo de formação do Santo,
assim como para o conceito de formação
que ele legou ao movimento franciscano. É
interessante observar que a palavra "fazer"
é o verbo mais frequentemente encontrado
nos escritos de São Francisco.
>> Primeiro a conversão pessoal,
depois a pregação:
Trata-se de "encontrar nas santíssimas
palavras e obras de Deus a glória e a
alegria" e, assim, "conduzir as pessoas
a Deus amado com entusiasmo e alegria"
(Adm 21).
Afinal, Francisco não entendia a exortação
feita aos outros como uma pregação
da palavra, mas como pregação
que se realizava através do exemplo de
vida pessoal. Se devêssemos parafrasear
a palavra de São Francisco, talvez pudéssemos
dizer: deixar-se modelar, esculpir e construir
pela Boa-Nova.
Entre uma tal formação e a pregação
não existe uma relação
intencional direta. Francisco não se
aprofunda na imagem moldadora de Nosso Senhor
com o fim de salvar outros. Ele vai ao encontro
do Senhor, sem segundas intenções.
A pregação é apenas consequência,
não finalidade da formação.
Aliás, isso fica demonstrado na formosa
carta do Santo a Antônio de Pádua.
Francisco acha até bom que Antônio
instrua os Irmãos em Teologia, não
por tratar-se de instrução para
pregar, mas por tratar-se de incrementar o "espírito
de oração e doação".
Disse, certa vez, Hubertino de Casale: "Não
se pretende julgar o santo e ordeiro estudo
da Sagrada Escritura. A idéia de São
Francisco e da Regra foi de que os Irmãos
a quisessem estudar simplesmente em si mesma,
vale dizer, para seus fins essenciais: para
ancorarem-se a si próprios na verdadeira
humildade e na prática da oração.
Eles estudavam a Bíblia Sagrada para
sua própria formação e
realização pessoal. Antes de quererem
ser úteis a outros, eles queriam vivenciar
o que aprendiam". (Citado da obra de Gratien
de Paris, Histoire des frères mineurs,
fotocópia feita em Roma 1982, p. 394).
Clara teve as mesmas preocupações
que Francisco, ou seja, o medo de que a ambição
do Saber possa ser abusado pela pessoa a ponto
de procurar para si um lugar de destaque, a
partir do qual consegue elevar-se acima dos
seus semelhantes. Consequentemente, Clara assumiu
na sua Regra as palavras de Francisco, ao escrever:
"E as irmãs que não tiverem
estudos não procurem adquiri-los, mas
sempre tenham em mente, acima de tudo, o desejo
de possuir o Espírito do Senhor e o seu
santo modo de operar" (RegCl X, 8 = RegB
10, 8-9). |
Este
curso é promovido pela Família Franciscana
do Brasil, por iniciativa do Centro Franciscano de
Petrópolis e sua realização acontece
nos regionais da FFB. Este curso foi impresso em 25
fascículos. Quem se interessar por esta coleção,
deve procurar
pelo Centro Franciscano, no telefone (24) 2242-5247
ou pelo e-mail ffb@compuland.com.br |
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"Altíssimo,
onipotente, bom
Senhor,
teus são o louvor,
a glória, a honra
e toda a bênção.
só a ti,
Altíssimo,
são devidos;
e homem algum é
digno
de te mencionar.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as tuas
criaturas,
especialmente o
senhor irmão
Sol, que
clareia o dia
e com sua luz
nos alumia.
E ele é belo
e radiante
com grande
esplendor:
de ti, Altíssimo,
é a imagem.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela irmã Lua
e as Estrelas,
que no céu
formaste claras
e preciosas e belas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Vento,
pelo ar, ou
nublado
ou sereno,
e todo o tempo,
pelo qual
às tuas
criaturas dás
sustento.
Louvado sejas,
meu Senhor
pela irmã
Água,
que é mui
útil
e humilde
e preciosa e casta.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão
Fogo
pelo qual iluminas
a noite.
E ele é belo
e jucundo
e vigoroso e forte.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa
irmã
a mãe Terra,
que nos sustenta
e governa,
e produz frutos
diversos
e coloridas flores
e ervas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelos que perdoam
por teu amor,
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Bem-aventurados os
que as sustentam
em paz,
que por ti,
Altíssimo,
serão coroados.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã
a Morte corporal,
da qual homem algum
pode escapar.
Ai dos que morrerem
em pecado mortal!
Felizes os que ela
achar
conformes à
tua santíssima
vontade,
porque a morte Segunda
não lhes
fará mal!
Louvai e bendizei
a meu Senhor,
e dai-lhe graças,
e servi-o com grande
humildade."
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