
2.2 O QUE SIGNIFICA A SAUDAÇÃO “PAZ E BEM!”?
Antes do Concílio Vaticano II, o conceito “salvação” era sinônimo de: aceitar a fé, receber os sacramentos e esperar a vida eterna. Tudo o que os missionários estavam fazendo para levantar o nível de vida do povo, por meio de escolas, hospitais e projetos rurais, foi considerado nada mais que uma “pré-evangelização”, o meio para um fim, visando criar um clima favorável, a fim de que as pessoas estivessem mais facilmente dispostas a receber o batismo.
Em 1971, porém, o Sínodo dos Bispos em Roma declarou, sobretudo sob a influencia de bispos latino-americanos, que o engajamento em prol da justiça e do desenvolvimento constitui uma parte integrante da evangelização. Quem quer promover a evangelização, deve igualmente levar este aspecto a sério. Não é lícito tachar tal engajamento de “horizontalismo”(4), mesmo reconhecendo que os sacerdotes devem dedicar-se, preferencialmente, à dimensão transcende, enquanto que os leigos assumem a dimensão imanente da salvação.
O empenho pela salvação imanente não consiste somente em dar esmolas ou praticar um assistencialismo dispensado a pessoas válidas, deficientes ou pobres. Exige, antes, a luta pela mudança de estruturas injustas, causas de situações desesperadas. Por este motivo, o Congresso de Mattli (1978) integrou o lema franciscano “Paz e Bem” dentro das novas situações socioeconômicas (cf. nº 20-24). Em nosso mundo moderno, deve ser possível perceber que a salvação evangélica, dada por Deus à humanidade, é uma realidade transformadora da vida. É o que pede também o Conselho Plenário aos Irmãos, na Bahia: “Que nos conscientizemos a nós mesmos e a nosso povo acerca de sistemas injustos de dominação socioeconômica, política e cultural de milhões de pessoas no Terceiro Mundo, através de países superpoderosos e ricos, no Leste e no Ocidente, multinacionais e transnacionais; e promovamos uma nova ordem econômica e política que traga maior justiça ao nosso mundo” (Bahia 1983, 31d).
Em contraste com a antiga Regra da Ordem Terceira, a atual Regra da OFS anima as pessoas no mundo a ações corajosas: “Estejam presentes pelo testemunho da própria vida humana, e ainda por iniciativas corajosas, individuais e comunitárias, na promoção da justiça, em particular, no âmbito da vida pública, comprometendo-se em opções concretas e coerentes com sua fé” (cap. 2,15).
Finalmente, o documento de Mattli (1982) colocou também todo o acento sobre estes aspectos (cf. nº 1 e 6). Não será possível alcançar este alvo de uma só vez. Antes, reclama um longo e lento processo de conscientização. “Agora se vai tornando sempre mais evidente que o desenvolvimento e a libertação não se podem impor de fora. Convém conscientizar os povos da própria condição e auxiliá-los a promover, eles mesmos, seu desenvolvimento e libertação. É muito eficaz esse método de conscientização. Através do diálogo, desperta a vontade de modificar a própria condição e promover, com os próprios recursos, uma vida autenticamente humana” (Medellín 1971, 20). Há uma grande tentação de apressar este processo pelo uso da violência. Para todos os franciscanos, porém, a atitude frente a esta alternativa deve ser clara: Os Irmãos “compreendem aqueles que no seu desespero recorrem à violência, pois, muitas vezes, não deriva do ódio, mas do amor pela justiça. Eles mesmos, porém, como franciscanos, preferem escolher uma outra atitude. Junto com o Cristo assumem a “kénosis”(5) da renúncia a todo tipo de violência, confiando na força dos fracos. Para que não haja ambigüidade, podem participar ativamente de movimentos em prol da paz e de organizações contra a injustiça, quer sejam dirigidas contra a ditadura da Direita ou da Esquerda” (Mattli 1978, 22; cf. também Medellín 1971, 27).
“Chamados, juntamente com todos os homens de boa vontade, a fim de construir um mundo mais fraterno e evangélico para a realização do Reino de Deus, cônscios de que `cada um que segue o Cristo, Homem perfeito, também se torna ele próprio mais homem`, exerçam com competência as próprias responsabilidades no espírito cristão de serviço”(Regra da OFS, cap 2, 14).
Mais eficaz que tudo, porém, é um testemunho de vida, a vida com os pobres: “Francisco encontrou a Cristo na pessoa do mais pobre dentre os pobres: o leproso. O amor do Pai fez-se real para ele através da pobre criança no presépio de Belém e do Servo Sofredor no Calvário. Francisco viveu e trabalhou com os leprosos e os pobres para compartilhar sua “bem-aventurança”. Encheu-se de alegria em sua baixeza e falta de poder, sua enorme confiança na Providência e sua liberdade. Nós, franciscanos, também encontramos a Jesus, vivendo para os pobres, com os pobres e como eles. Assim, através de nossa pobreza e minoridade, podemos ser evangelizados e também evangelizar”(Bahia 1983, 28; cf. também 29).
“Esta situação tem levado muitas Igrejas do Terceiro Mundo a buscar uma ação social solidária e fazer uma opção preferencial pelos pobres e contra a pobreza. Nestas Igrejas, o “Poverello” de Assis é apresentado como o padroeiro da Igreja dos pobres... Vemos realizar-se em Francisco um processo que vai desde o ser para os pobres ao ser como os pobres e, finalmente, a viver como pobre” (Mattli 1982, 1).
O engajamento em favor dos pobres se tem desenvolvido concretamente frente a três sistemas da sociedade moderna: o sistema da Segurança Nacional, o sistema do Capitalismo internacional e o sistema do Marxismo (cf. lição 21). Mattli assumiu, em 1978, uma posição inequívoca frente a esses três sistemas, denunciando duramente a sua violação dos direitos humanos. Mesmo assim, não exigiu uma prática do “tudo ou nada” mas recomendou o diálogo e a mudança por dentro:
“Existe uma maneira franciscana de estar presente nas lutas sociopolíticas. Consiste na capacidade de suportar e na fraternidade, no desafio e no espírito de paz. Todos têm necessidade desse tipo de testemunho”(22). “O franciscano procura fortificar a consciência da própria dignidade dos pobres, preparando-os a defenderem os seus direitos. Por um diálogo franco, os irmãos, no Primeiro e no Terceiro Mundos, procurarão ganhar influência sobre as decisões tomadas pelos governos e pelas companhias multinacionais” (nº 23). “Devemos até estar prontos a `viver entre os marxistas`, falando com eles, assim como São Francisco foi procurar o sultão, apesar do sistema hostil do seu tempo, falando com ele de pessoa para pessoa, e enviando depois os seus frades no meio dos sarracenos, e não contra eles”(nº 24).
A opção pelos é irreconciliável com a espiral interminável e descabida do armamentismo: “Diante do fato de que se gastam cerca de 500 bilhões de dólares anualmente em armas, enquanto por dia morrem de fome 40 mil crianças, nosso mundo deve encontrar um meio para que se cumpra a profecia de Isaías: “os homens vão transformar suas espadas em arados” (Is 2,4) e usar essa imensa quantia para atender às necessidades de nossa família humana” (Bahia 1983, 36).
Os franciscanos devem usar todos os meios legítimos para lutar em prol da defesa dos direitos humanos (Mattli 1982, 3), e de modo especial também pelos direitos da mulher na sociedade e na Igreja (Mattli 1982, 2). De todas estas sugestões, visando o anúncio da salvação transcendente e imanente, devemos lançar mão, não como donos da situação, mas como servidores das Igrejas locais, nas estruturas das quais tentaremos engajar-nos o mais possível (cf. Mattli, 1978, 18).
(4) Redução da idéia e prática cristãs a um plano puramente social.
(5) Conceito neotestamentário para a auto-renúncia de Jesus (cf. Fl 2,5-11). |