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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
2. Santa Clara e o Cristo Esposo
Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o Movimento Franciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus e nos ensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar uma perspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que, em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em Jesus Cristo.
Vamos considerar três perspectivas:
1. Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo.
2. As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo.
3. Clara celebrou o Cristo Esposo.
2.1 Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga
Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espiritualidade dos esponsais (1).
Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavras Esposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões com que ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo.
Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, refereindo-se a Inês:
"...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta"(1Ctln 7).
Também chama Inês de esposa duas vezes:
"Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo..." (1 Ctln 12). "Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1Ctln 24).
Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes: A primeira:
"Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2Ctln 20).
E a segunda:
"Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo"(2Ctln 24).
E também chama Inês de esposa de Jesus:
"Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza"(2Ctln 1-2).
Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembrada como usa esposa:
"Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus"(3Ctln 1-2)
Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se refere necessariamente a Inês:
"Arrasta-me atrás de4 ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste! (4Ctln 30).
Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes:
"À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, a ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras..." (4Ctln 1). "Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam"(4Ctln 4). "Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, é esposa de Cristo, na alegria do espírito"(4Ctln 7). "Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto"(4Ctln 15). "Ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei"(4 Ctln 17).
Em resumo, esposa e esposa em relação a Jesus são palavras usadas treze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposo e esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida que Jesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outras expressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta:
"Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio"(2Ctln 7).
Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludido ao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possível casamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazer uma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas, especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falar de Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento da espiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nesses esponsais uma "sublimação" (2). Clara tem um sólido fundamento bíblico, patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade. Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos.
Notas
(1) Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei otocar I da Boêmia e da Rainha Constância da Hungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos princípes, inclusive ao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros e cortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, que chegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel da Hungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que havia um hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a ordem 1234, com grande repercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerem pessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade.
Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre Jesus Cristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em uma virgindade cada vez maior.
(2) Cf. Roberto Zavaloni, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210
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