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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

2.2. Clara Esposa de Cristo
As Fontes Clarianas são ricas na apresentação de Santa Clara como Esposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logo de início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clara pensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveram antes que ela entrasse na Ordem:

"O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem"(LSC 5,5-6).

Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre isso porque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentes já achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava o particular amor que ela tinha por Jesus Cristo:

"Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se, desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já pudera provar..." (LgV 5 214).

Em todo caso, São Francisco insistiu, porque - provavelmente logo depois que ela entrou na Ordem - apresentou-lhe uma "Forma de Vida" em que dizia que Clara e suas Irmãs tinham "desposado o Espírito Santo", como ela recorda em sua Regra:

"... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: "Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles"(RSC 6,2-5).

Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona do Ofício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressões idênticas às da Forma de Vida, dizendo: "Santa Virgem Maria [...], filha e serva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo..." (Ofp ant. 1-2).

O próprio Papa Inocênio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandou abrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa e decidida na adesão a Cristo como Esposo: "Não perdeu tempo nem demorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, mas imediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suas coisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seu Esposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e dovotando-se a Ele totalmente, com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lhe especialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e o voto da castidade virginal"(ProcC Bula, 3).

O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial, para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, a pertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e por fora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: "Ouve, filha, e vê e inclina teu teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai, porque o Rei desejou tua beleza" (ProcC Bula 2).

E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida a viver esses esponsais: "E assim a virgem pudica uniu-se aos desejados abraços do esposo virgem..." (ProcC Bula 4).

Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar da Mãe de Jesus: "Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem..." (LSC 8).

Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e contemplada com solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quando Clara estava no final de sua carreira:

"... Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras... que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de maravilhoso beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o tálamo adornado" (LSC 46).

O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo o fundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs: "Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável, deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável no rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha o corpo na terra e a alma nas alturas"(LSC 20).

Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: "A Virgem Clara fechou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo Celeste" (LSC)

Nesse "cárcere" ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amor do Esposo: "Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra, regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre o seu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a que beijava" (LSC 19).

Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo, Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam dela uma mestra de espiritualidade:

"Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel padrinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais eternos"(LSC 6).

Logo depois de sua morte, durante o velório na Igreja de São Damião, algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todos os mosteiros das Damianitas:

"Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial" (CcNm)

E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de São Francisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente, o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs de Clara, destacando, entre outras, com a maior admiração.

"Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da visa passada..." (1Cel 19).

Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa de Cristo, escreveu:

"Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa" (LSC 38).

Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tanto que desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa:

"Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em vigindade perpétua, o Esposo da glória!" (CcNm).

O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsais com Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara a esposa do Cântico dos Cânticos 2,5:

... suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos, enlanguescia por seu amor (LgV 5,219)... pede para ser sustentada com maçãs, apoiada em flores, dizendo qual a causa: "porque morro de amor" (LgV 8,367).

Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa:

"Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer mnaridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial" (LgV 10,345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga.

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