|
Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
3. Francisco, figura do Esposo
Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial: fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocação única e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corresponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos. Descobriram que eram "amigos" enquanto estavam buscando Deus, e essa busca marcou profundamente sua relação. É uma "amizade por causa de Deus Esposo", perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com o que o Evangelho de São João fala do Batista: ser o "amigo do Esposo".
3.1 Francisco, o amigo do Esposo
"Amigos do esposo", na cultura da Terra Santa, eram os companheiros do noivo na celebração do casamento. O principal deles era quem organizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio do Reino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. Na Legenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte:
"O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus (cf. LSC 5-6, passim)".
A expressão "padrinho", no texto das Fontes Clarianas está traduzindo a palavra "paraninfo", do latim original. Essa palavra vinha do grego e significava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nos esponsais.
Clara já deveria ter pensado antes da união com Cristo, porque sempre rejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor da união com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, principalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, a conhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajuda dos Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento.
Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiritualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceu que Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a esponsabilidade divina a partir deuma esponsabilidade humana.
Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de Deus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extraordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mas também para crescer nela:
"Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação, que , quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida" (TestCl 9-14).
Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre as Irmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que ela ouviu e haveria de seguir para sempre:
"Nisso, podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem-aventurado pai Francisco não profetizou issosó a nosso respeito, mas também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus nos chamou" (TestCl 15-17).
E também:
"...[o bem-aventurado pai], movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: "Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles" (RSC 6,2-5).
Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois elementos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dos Frades Menores.
Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta o mistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidade para chegar a ser amigos do Esposo: "para Francisco, Clara é filha e serva do Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a "virgem feita Igreja" (SVM). Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco "esposa do Espírito Santo".
Entretanto para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco o seu "paraninfo" nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens do seu Testamento:
"O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o seguiu de verdade"... "Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco".. (Test Cl 5) "Depois que o Altíssimo Pai,por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente (TestCl 6-7).
"E assim, por vontade de Deus e do; nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da Igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa pobreza. E não se contentou em exortar-vos durante a sua vida com muitos sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis jamais afastar-se da sua santa pobreza... (TestC 30-36 passim)".
Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que a "santa Pobreza" é o próprio Senhor Jesus Cristo, "que se fez para nós caminho". Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda (plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham "desposado o Espírito Santo", palavras que só podem ser entendidas à luz do que o Poverello escreveu na Carta aos Fiéis:
"Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo (1CtFi 8).
VÁ PARA A PARTE 8 |