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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
3.2 Eles viveram uma profunda amizade
Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender São Francisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhor Santa Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelo papa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas:
"É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas, espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela, imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado" (Ver em Fontes Clarianas, págs. 397-398).
Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos a impressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observado entre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendas populares antigas apresentam os dois como namorados.
Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ainda que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua santidade.
Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre e Francisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quando não tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis. Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vida consagrada havia diversos anos.
João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram "esposos" de Jesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre a amizade espiritual.
3.2.1 O que é a verdadeira amizade?
Lemos na Bíblia: "Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro" (Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar "um entre mil" (Cf. Eclo 6,6). Os sábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizade como algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entre o homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveu páginas admiráveis sobre a amizade em seu livro "Ética a Nicômaco", e Cícero deixou uma obra-prima no seu "Lélio", ou "Diálogo sobre a amizade". Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino.
Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred de Rievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, não muito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livros sobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegria da vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são a própria essência do mundo que há de vir.
De fato, se é verdade que "Deus é Amor"(1Jo 4,8.16), todo verdadeiro amor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus diz que seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso é leve, está falando do amor fraterno.
Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas também o remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar e nós a imagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações e advertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar a verdadeira amizade.
Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveu antes de Cristo ensinou que amizade era "uma comunhão entre duas ou mais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nas humanas". Para ele, a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizer acolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que não existe amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal.
Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritual sempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada um descobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e ama melhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi dito pelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler.
É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordações de Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual.
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