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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
3.2.2. Na amizade com Francisco Clara viveu a esponsalidade com Deus
Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual carismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fez eco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mas também como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e da Igreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temos que falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de um carisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhão que não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu para acolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom do companheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em que encontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, e qual é o nosso último destino.
Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriram que estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estav começando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que eles foram vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro e puderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas há oito séculos.
Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram que eram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, em que Deus vai ser tudo em todos.
A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com uma amizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só ao Altíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que se esvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece humanamente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar? No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incomparável a amizade entre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com um coração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de "consolação" nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientes religiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito de contradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou de menos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostraram que pertencemos a Deus "acima" de todos esses problemas, não "contra" eles.
Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suas vidas - o arrebatamento de sua mesma busca insaciável -, foram para nós uma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor, onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Eles mostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudo e, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outro acreditasse nesse caminho.
Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional da pertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus em contraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração e ao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga, a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém, possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meu coração, que pertence totalmente ao Senhor.
Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso nos compreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelou não soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentro dele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer que somos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade com Deus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionada com o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial.
Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizade um lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é o espelho do Deus em que eles acreditaram, a partir do qual se amaram e no qual descansam eternamente unidos.
Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós como lar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas, como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação, que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que a profundidade de todas as coisas "sofre" de saudades do amor trinitário.
3.2.3 Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco
Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo, descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porque era um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deus continuaria a chamar.
Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitações que sacudiram a Ordem dos Frades depois da morte de Francisco. E escreveu em seu Testamento:
"Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela" (TestC 37-39).
Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasião que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brecha que a animou a escrever a sua Regra, ou "Forma de Vida". Como o Senhor lhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 a aprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e para mulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco, a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textos fundamentais que Francisco lhe dera:
A "Forma de Vida", que já vimos acima:
"Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles"(RgCl 6,3-4).
E a sua "Última Vontade":
"Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja"( RSC 6,7-9).
E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras:
"Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior uma às outras para fazer o bem no Senhor" (TestC 18-22).
Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constantemente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor de sua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de Santa Clara Virgem:
"Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles, Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a cama da moribunda... (LSC 45).
Na mesma ocasião, conta a Legenda que - confirmando o papel de Francisco como "amigo do esposo"- ela deu uma resposta muito significativa a um grande que quis consolá-la em seu sofrimento:
"Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: "Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura" (LSC 44).
Por isso, ela não esqueceu dos "filhos" em sua bênção, e a sua Legenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (cf. LSC 10)".
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