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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

3.3 Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram
São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: "Os que fazem penitência" e "Os que não fazem penitência". Mas é interessante observar que ele não está falando de nossas  "penitências" como as entendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina "paenitentia", que dá sentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazem penitência  são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não buscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto ao ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer uma confusão com a palavra "poenitentia", que vinha do grego poiné e tinha o significado de "aguentar a pena" (3)

Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na sua busca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca do Santo Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo. Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para o que Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Eles precisavam do Esposo.

Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saber humilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do que desejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suas pretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca um momento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível que arranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vida em transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência com tudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmo e se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta no prestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado a descobrir Deus como seu Tudo.

Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse:

"Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejasse possuir. Depois que começares a fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa".

Ele diria no fim da vida:

"... O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo" (Test 3).

A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho da missão da Porciúncula: "...Na mesma hora, pulando de alegria, cheio do Espírito do Senhor, exclamou: "É isso que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática" (1Cel 22). Só faltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto, uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro. E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez.

Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casa no domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconhecia o que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixa levar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. Estamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: abandonar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terra nova, a prometida?

Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve um processo de busca, de exôdos, até ver sancionada a Regra  como "verdadeira e autêntica vida cristã". Não foi simples receber o carisma de uma forma de vida que era uma notável novidade.

Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado do movimento cisterciense, tão infuente na sua espiritualidade pessoal, e também não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos - como o das beguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheres reclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Angelo de Panço.

Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monástico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Caminho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vida contemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintonia com as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seu carisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dos possíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com a  vida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolvê-lo vivendo-o.

Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria sua vocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses especiais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências. Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam a buscar o Rosto desse Esposo divino, e, então, Clara seria mediação para Francisco.

Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham que chegar à terra nova, deixando que Deus fosse completado e aperfeiçoando o que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, que define o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fim de todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de Moisés: também nele se verificou essa nota de "irrealização" no esforço por chegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que se  começou a caminhar.

Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem:

"Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmos o que sabemos que Vós quereis, e  sempre querer o que vos apraz" (CtOr 50).

É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre e  menor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de Deus...

O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs terem escolhido Deus. Este é o valor do "quia"(porque) latino com o que começa forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito. Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme e delicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a consequência de uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Esses são os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessa lembrança e a mútua fidelidade que decidiram um ao outro. Entre o Espírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexo fundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa de Francisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus. Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador de Deus em sua vida: Francisco.

Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve que discernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é, na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para os primeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do que significa buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesse itinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara e Clara para Francisco serão mediação recíproca.

Se for certo que Clara era como um "reflexo" de Francisco, e nele "se via toda como em um espelho"(4), não há dúvida de que, na comunhão do mesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto do Poverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração o animaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois é complementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo.

"O caminho franciscano - diz Chiara Augusta Lainati - tem duas dimensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, como testemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez, sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquanto trabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonha em realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte" (5).

3.4 Os Cânticos de São Francisco

No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Damião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteiro de Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecido Cântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouvi, pobrezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs.

Neste último, ele recorda às irmãs que, um dia, serão "coroadas no céu como a Virgem Maria". Mas vou chamar a atenção para alguns aspectos notáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebra Jesus Cristo com Clara:

Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: o dos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. O Sol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ou Frei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs: Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. E cada Frate forma um par com uma Sora.

Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também ser uma Sora, não uma Sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem tem nome. Mas está bem determinado: são os "que perdoam por teu amor e  suportam em paz enfermidade e tribulações" (cf. CSol 10-11). Eles têm a  "perfeita alegria", porque "serão coroados" como Jesus. Em outras palavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria e serão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. O mesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação ao Esposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5).

"E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia".   

(3) Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Assis, Murcia, 1985, pág. 586.
(4) cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10.
(5) Chiara Augusta Lainatti

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