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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
Clara e os Místicos do seu tempo
Francisco foi o grande companheiro, "o amigo do esposo", na experiência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto de partida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livre e crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos medievais.
Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o que dissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos.
Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapacidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do grego mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É a busca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamada de Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva.
Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbo grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele.
Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e de que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante.
Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é relação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento. Já foi dito: "O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser nada".
Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Foram muitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foi marcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor profano quanto no religioso. O amor cantado pelos travadores foi o mesmo dos autores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério que sempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. A terminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos travadores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amor recíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal-conjugal.
Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII? Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservado e estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a ser considerado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges, ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval.
Com os místicos medievais, Clara aprender a cantar. E foi introduzida ao Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Os místicos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cântico da Bíblia.
Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicas medievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cistercienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, na maioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podem ajudam a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumas mulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a influência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possível que Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através dos "bons pregadores" que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seu Processo de Canonização.
4.1 As mulheres místicas do tempo de Clara
Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado "sexo fraco", e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram as protagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem.
Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor de Deus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e os Autores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dos Cânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisar reivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pela arrogância e agressividade de alguns eclesiásticos.
A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensão de Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era um caminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver e de partilhar o que nelas e para elas significava Deus.
Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério: uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e os levou a um "abandono de Deus" (Gott lassen) no sentido de libertar-se de qualquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina (Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva no Mistério, usando uma simbologia nupcial (6).
A mística nupcial se refere prefentemente ao simbolismo do amor e das bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor 11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência do Deus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, as atividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens intermediárias e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer.
A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da língua à gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha de mulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar a palavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momento cultural e religioso de especial importância:; a conjunção entre o pensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração.
Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de Santa Clara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentar algumas personalidades que se destacaram:
(6) A bibliografia para este tema não é fácil encontrar. Por enquanto indicamos P. Dinzelbacher-D.R. Bauer, Movimento religioso e mística femminile.
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