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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268)
Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duas correntes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Há uma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor.
É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimento a amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e de Rievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde que esta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muito sensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade da amizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo com Jesus, Homem Deus, na eucaristia e no Sagrado Coração.
Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara a Francisco e Clara a Inês de Praga.
Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver sua posição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Seven manieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta uma narração espiritual como a que faz em sua "autobiografia", mas dá uma síntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis in Deum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne.
O Iº grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à sua imagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interior do amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IV começa a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau V tornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam na verdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta união amorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimento do gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhuma inteligência pode compreender.
Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede a vida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deus verdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestra experimentada nos problemas mais árduos da teologia mística.
A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preeminência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida e transformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nas mulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritual idade esponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara.
4.1.2 Matilde de Magdeburgo (1210-1294)
É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerário espiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por volta de 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos. Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com um progressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica.
Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht der Gottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos em duas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro de Helfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano.
Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontrado mais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igreja enferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência do clero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura e áspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas se transforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desses eclesiásticos.
Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência da fluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seu canto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essas imagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processo espiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da "metafísica da Essência" é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch e Margarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vincula as quatro.
Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios da divindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vida íntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a mística visionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo.
4.1.3 Hadewijch de Amberes (séc. XIII)
Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou a consagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aos pobres e aos enfermos.
Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração de mulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode ter sofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos de beguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada no século Xx.
Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em tomo do amor. Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural e metafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmando também que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Para isso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si e em plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversos aspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino em flamengo e em alemão).
Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijch como uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor.
As visões são do período juvenil, quando teve algumas experiências para-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbria maturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor, experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: ter acesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele. Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e a alma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce dela.
4.2 Os cistercienses
No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foi o herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deu forma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários ao Cântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, na relação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova ao homem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da Reforma Gregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção à humanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo isso como uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva. Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos, principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamos destacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx.
4.2.1 São Bernardo
4.2.1.1 A centralidade do amor
Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro de tudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com o Criador, precisamente no amor (7). Se Deus é amor e se para conhecê-lo é necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom de Deus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo. Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus no homem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medo do Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus.
A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade de Jesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação do Espírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu uma autêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidade francisclariana.
4.2.1.1.2 O processo
Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou um processo que - depois de um esvaziamento interior - levaq em quatro degraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo:
1) Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele.
2) Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça.
3) Chgamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade da alma se amplia.
4) Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os Esponsais.
(7) Para um contato melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar o livro de E. Gilson, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo, Obras Completas, vol. V, "Sermones sobre el Cantar de los Cantares". J.M. de la Torre - I. Aranguren, Madrid 1987. E. Gowland - M. E. Tamborini, La amistad espiritual, em Caridad, Amistad. Buenos Aires 1981.
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