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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

4.2.1.1.3 Alguns fundamentos do Esponsais
Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o "Cântico dos Cânticos", São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontos fundamentais:

"O semelhante busca o seu semelhante"
Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes a Deus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal se fundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupefatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhança perfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne.

A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mostrando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo misericordiosamente: "Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amou primeiro" (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua dignidade e seu destino ... Mas isso é devido à condescendência divina e não à natureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas com esperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deus acompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. O Verbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem que trabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em plenitude, ao matrimônio espiritual.

"O beijo da tua Boca"
São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva ao mistério do amor de Deus quando comenta o "Beijo na Boca" (Ct 1,1). Relaciona esse osculum oris - ponto alto do matrimônio espiritual - com a  doutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação.

O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT para  que o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos de Moisés, que gaguejava; sem os de Isaías, que tinha lábios impuros; sem os de Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dos profetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo para o qual nascemos.

O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus se encarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele.

No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessa natureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador. Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem.
           
O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade do Verbo revelada na humanidade de Cristo. É o "beijo da paz" que nem todos souberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab e Herodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade do Verbo na humanidade.
 
Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam ao mesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardo apresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. O amor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do Espírito Santo é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou e que representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho.
 
A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender com sabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimidade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder a quem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende.
 
Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: "soprou sobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo" (Jo 20,22). O beijo é o Espírito soprado, por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação na vida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encarnado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade.

A "Unidade do espírito"
Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo também lembra 1Cor 6, 15-17: "estar unido ao Senhor é ser um só espírito com Ele", em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência da comunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a ser a pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. O amor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação na pessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-la em um ato de nova criação, de um novo nascimento.
 
"A casa espiritual"
No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: "Como é doce, como é verdejante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são o nosso teto", Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelas atitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todo bem.
 
Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegar à união completa. Sublinha a condição de "peregrino", própria da alma-esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus, mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessa relação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclusivo e inclusivo, como em toda a história de amor verdadeiro com Deus.

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