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São Paulo, 12/02/2012
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Abrace o Cristo Pobre

Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)

Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap

4.2.2.Guilherme de Saint-Thierry
Guilherme de Saint-Thierry tem uma visão serena sobre o corpo e sobre condição humana do amor (8). É uma visão benévola do simplesmente humano como suporte e lugar em que o discurso amoroso sobre Deus toma corpo. Uma amostra está no começo de seu comentário ao Cântico, onde fala do beijo esponsal como perfume do Amado, um símbolo da união entre o Esposo divino e a esposa mística. Quando os corpos se beijam unidos amorosamente, apertam os lábios e unem a respiração (o spiritum) numa síntese que indica a pessoa inteira.
 
A arte de amar é a arte das artes, mas será preciso fazer um caminho de aproximação e de conversão para a caridade: a vida amorosa com Deus. O amor é um sentimento natural inato no homem. Criado por Deus, ele deveria continuar a ser como no início da criação, sem precisar de que alguém o ensinasse a quem e como deve amar. Mas perdeu isso pelo pecado, e a realidade não é tão inocente: houve um desvio em nossos sentimentos. A alma sente-se atraída por seu destino, que é a bem-aventurança, mas perdeu o caminho e não o encontrará se alguém não o ensinar de novo. É necessária uma reeducação do amor.
 
Ele via o mosteiro como uma "Escola de Amor": os instrutores eram: o mestre de noviços, o prior ou abade. Opunha-se às escolas em que se ensinava a literatura e a doutrina do amor profano, usando o De arte amatoria de Ovídio. O mosteiro seria a única verdadeira escola de vida, envolvendo almas e corpos e transformando a comunidade monástica numa vida social similar à dos santos no céu. O pensamento deve dar lugar ao amor, e a ciência à sabedoria. Quando pensamos nas coisas de Deus e a vontade progride até se transformar em amor, o Espírito Santo se infunde e vivifica tudo.
 
Guilherme vê o Esposo Cristo diante de uma esposa ao mesmo tempo perfeita e aperfeiçoável: é a esposa das bodas messiânicas que já goza da alegria de ter sido escolhida pelo Esposo, mas ainda precisa de conversão. Trata-se do realismo antropológico de toda biografia espiritual, devedora da graça e condicionada pelo pecado, chamada à unidade do espírito, mas reconhecendo-se limitada e pecadora para gozar dessa união transformante e transformada.

O pensamento teológico e místico de Guilherme é uma narração da história da semelhança divina: dada por Deus na criação, desfigurada no pecado, restaurada na redenção. Há uma progressiva ascensão, não uma volta ao paraíso perdido, mas a penetração numa novidade não suspeitada nem merecida: a semelhança com Deus que nos abriu para a encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. Deus é caridade, quem o amar e crescer no amor será semelhante a ele.

Nesse processo há uma intervenção do Espírito Santo: assim como ele efetua a unidade do espírito no seio da Trindade, significando e sendo a comunhão amorosa do Pai e do Filho, também realiza no homem que se abre a sua ação salvífica essa mesma comunhão filial com Deus: o que o homem não consegue entender nem explicar - mas que em Deus é natureza - lhe é dado de graça. Já estamos diante da unidade de semelhança, e de uma unidade de espírito. Os amantes são levados a ser uma só coisa.
O homem precisa irremediavelmente de Deus, porque sem Ele não pode entender a si mesmo. As experiências de paz e silêncio, gozo e liberdade, inteligência e amor, são energias dinâmicas da Trindade dentro de quem é sua imagem, a pessoa humana.

(8) Uma boa apresentação acessível de Guilherme de Saint-Thierry está em J. M. DECHANET, Lettre aux frères du Mont Dieu (Lettre d'Or), Sources Chrètienes, Paris, 1985.

4.2.3. Aelredo de Rievaulx
Aelredo achava possível transformar a abadia numa família de amigos: a amizade é um tipo particular do amor, sua rara e perfeita culminação. Aelredo começa recordando sua juventude: “nada me parecia mais doce, nada mais saboroso nem mais útil que ser amado e amar”. Ele construiu uma doutrina sólida sobre o amor e a amizade (9).

Tem  o mérito de propor um caminho de santificação através do amor humano. Seguiu bastante o “diálogo da Amizade”, de Cícero e, como ele, ensinou que a amizade é um dom natural, uma “inclinação da alma”. Mas introduziu uma novidade: a amizade acontece entre três: os dois amigos e  Cristo: “começa em Cristo, nele se conserva e a ele se dirige”. Se um amigo se une a outro no espírito de Cristo vem a ser um só coração e uma só alma com Ele, e se ascender assim do amor à amizade com Cristo, será  com ele um só espírito e um só beijo.

Sua obra se estrutura em três diálogos. No primeiro trata da essência e da origem da amizade; no segundo, trabalha a excelência e os limites da amizade. No terceiro visa a prática: depois de fundamentar o amor e a  amizade em Deus, ensina os passos a seguir na verdadeira amizade: a  escolha, a prova, a admissão e o consenso.
Em Aelredo temos uma configuração espiritual ou mística do tema da  amizade. No final de sua obra declara a importância de toda amizade humana como sacramento e antecipação da amizade eterna e divina.

... do santo amor com que abraçamos o amigo, somos elevados a aquele amor com que abraçamos Cristo, saboreando com prazer o fruto da amizade espiritual, cuja plenitude nós esperamos na eternidade, quando desaparecer o temor que agora sentimos uns pelos outros... Essa amizade – que aqui só podemos admitir para poucos – vai transbordar para todos e de todos se voltará para Deus, para que Deus seja tudo em todos”.

É claro que esse conhecimento dos místicos medievais teria levado Clara de Assis a descobrir um sentido novo na Palavra de Deus. Ela leu o Cristo-Esposo à luz do Cântico dos Cânticos, certamente ajudada pelos pregadores, porque é difícil pensar que ela tivesse uma Bíblia inteira em São Damião. Por isso, nós vamos nos encontrar com os Santos Padres, que mais chamaram a atenção para o Deus Esposo. E, depois, vamos beber nas próprias fontes bíblicas – no Cântico e nos Profetas – como Deus quis e  quer vir ao nosso encontro para uma união eterna.

(9) Ver E.Gowland – M. E. Tamborini, La amistad espiritual, em Caridad, Amistad. Buenos Aires.

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