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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
5.1. Orígenes - História, ferida e fecundidade
Orígenes é uma das pessoas mais geniais e influentes do Cristianismo.
Foi um ponto alto na espiritual idade e na teologia mística. Por volta do ano 200, a literatura eclesiástica cresceu e teve uma nova orientação. Antes, condicionada pela tensão entre a Igreja e seus perseguidores, produziu escritos apologéticos e anti-heréticos. Mas abriu o caminho para um estudo científico da revelação. No contexto em que viveu Orígenes, a Igreja sentia que precisava de um sistema de pensamento. Daí surgiu a Escola de Alexandria, em que Orígenes se destacou. Em Alexandria tinha nascido o helenismo, fusão das culturas oriental, egípcia e grega, que originou uma nova civilização, e nela se estabeleceu no fim do século I a cultura judaico-cristã.
O tema dos esponsais está principalmente nos escritos exegéticos de Orígenes. Ele insistiu mais no sentido místico da Escritura do que no literal, usando com freqüência o método alegórico. Nisso foi levado a cometer alguns erros de interpretação, mas mostrou que teve em alto grau o dom da penetração espiritual.
A idéia dos esponsais divinos não é uma novidade cristã. O mundo pagão conheceu deuses e deusas que se casavam. Já o judeu Filon de Alexandria falava de como Deus se unia à alma humana, que recebia uma semente das virtudes. Para alguns cristãos, a morte tinha um significado esponsal. A expressão "matrimônio espiritual" aparece pela primeira vez na literatura cristã entre os adversários de Santo Irineu, e falava sobre Cristo esposo da Igreja.
Hipólito, autor do primeiro comentário cristão ao Cântico dos Cânticos, usou a simbologia esponsal entre Deus e a Igreja, dentro da tradição hebraica dos esponsais entre Javé e Israel e da leitura paulina dos esponsais Cristo-Igreja. Quem começou a chamar as virgens cristãs de esposas de Cristo foi Tertuliano, que também falou dos esponsais entre Deus a alma. Mas quem tratou mesmo esse tema foi Orígenes, que escreveu no prólogo ao seu comentário sobre o Cântico dos Cânticos: "estas palavras do Esposo magnífico e perfeito dirigem-se à alma unida a ele ou à igreja". A alma fiel é esposa porque faz parte da Igreja que é esposa. São Jerônimo disse: "Orígenes, que em alguns livros superou a todos, no Cântico dos Cânticos superou a si mesmo".
Orígenes sabia unir devoção, capacidade especulativa e paciência analítica. Teve influências platônicas. Lembrou, ao falar da simbologia esponsal, que Platão falou sobre o amor espiritual no "Banquete". Mas ele mesmo falou a partir de uma profunda experiência espiritual.
Escreveu na primeira Homilia sobre o Cântico: "Freqüentemente - Deus é testemunha - eu senti o Esposo chegar a mim e ficar comigo; de repente Ele se afastou e não consegui mais encontrar o que buscava; apareceu outra vez e eu o segurei, mas ele escapou de novo, e eu continuo a buscá-lo. Ele faz isso freqüentemente, até que eu o possua de verdade, e suba apoiada em meu Amado (Ct 8,5)".
Tudo que Orígenes escreve sobre a relação esponsal entre Deus e a alma tem um tom de autobiografia espiritual. É uma experiência mística em que outros autores contaram que, para chegar à união com Deus, sofriam tanto sua "ausência" quanto sua "presença". É uma experiência que descobrimos também em Santa Clara, nas suas Cartas a Inês de Praga.
Na primeira homilia, Orígenes se pergunta sobre o beijo do Cântico dos Cânticos e sobre o abraço do livro dos Provérbios: Até quando meu Esposo vai me mandar beijos através de Moisés e dos profetas? Eu quero tocar sua boca ... Existe um abraço espiritual, e queira o Céu que um abraço mais forte do Esposo aconteça também com a minha alma, a Esposa, para eu também poder dizer o que está escrito neste livro: sua esquerda está sob a minha cabeça, e sua direita me abraçará.
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