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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
5.1.1 Três temas na mística origineana
5.1.1.1 - A história como cenário esponsal
Orígenes concebeu a história como um drama amoroso em que se desenvolve o casamento entre Cristo e a Igreja, entre Cristo e a alma. Ele faz uma reconstrução histórico-salvífica do caminho que levará outra vez aos esponsais perdidos pelo pecado. Então, o Antigo Testamento foi o noivado entre Israel e Deus, em que a noiva recebeu a visita dos "amigos do Esposo" (patriarcas e profetas), e mais esporadicamente a visita do próprio Esposo (nas teofanias vetero-testamentárias como figuras humanas ou angélicas). O Novo Testamento começa com a Encarnação do Esposo, que assume um corpo de carne imaculado para poder encontrar a Esposa, prostrada em um corpo de carne maculado. Mas a união só será perfeita na visão-encontro celeste, quando se realizar a parábola dos convidados para as bodas e o Rei unir definitivamente seu Filho com a humanidade glorificada.
Mas o drama tem um lado negativo: junto ao itinerário matrimonial em que Cristo-Esposo toma a iniciativa, há um itinerário adúltero feito pela Igreja/alma-Esposa. Se a união a Cristo é um matrimônio, cada pecado é uma infidelidade a esse Esposo legítimo e, portanto, um adultério com Satanás.
5.1.1.2. A ferida de amor
A literatura esponsal cristã explorou bastante a expressão: "estou ferida de amor" (CT 2,5), que foi vinculada a um texto do profeta Isaias: "Fez minha boca como uma espada afiada; na sombra de sua mão me escondeu; fez-me como seta aguda, em sua aljava me guardou" (Is 49,2). A ferida corresponde à flecha, e as duas são de amor. Orígenes desenvolveu amplamente esse tema em várias de suas obras.
Há um Arqueiro, que pode ser o Pai ou o Filho. A Flecha é sempre o Filho, mas ele também pode ser representado pela Ferida que produz na alma fiel. Mas a Esposa ferida é sempre a alma, nunca a Igreja. Há uma variante "eclesial" da flecha, que pode ser representada por aqueles a quem Cristo confiou serem portadores de sua Palavra: Moisés, os profetas, os apóstolos, os pregadores do Evangelho.
5.1.1.3 A fecundidade do esponsal com Cristo
O tema de conceber e de gerar espiritualmente está em São Paulo e em alguns Padres precedentes. E também não estaria longe do tema tão querido no corpus paulino e no corpus joânico da in-habitação de Cristo ou da própria Trindade na alma do crente.
Maria é o modelo nessa ação de gerar o Verbo, com uma atitude tipicamente materna: toda alma virgem e incorrupta, concebendo do Espírito Santo para fazer a vontade do Pai, é Mãe de Jesus.
Esse nascimento de Cristo na alma do crente está vinculado essencialmente ao acolhimento da Palavra e, em certo sentido assim nasce Jesus continuamente nas almas. Não se trata de ser um "outro filho" de Maria, mas de ser o único filho que ela gerou, isto é: de se transformar em Jesus.
Isso tudo só é viável se tivermos, como João, a mente de Cristo. É esse vínculo que Orígenes faz com outro texto paulino: "Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecer as graças que Deus nos deu [ ...]. Porque "quem conheceu a mente do Senhor para instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo" (1Cor 2,12, Jo 1,23).
Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido de modo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boas ações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, em que poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o ponto alto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação naquele a quem amamos.
Mas, ensina Orígenes, nem tudo é concepção de Cristo na alma, porque também há uma espécie de assassínio quando se comete um pecado. Jesus não pode estar na alma, porque o pecado reduz o espaço. Isso é o que contece nas almas tíbias; nas outras ele cresce.
Por último, üdgenes indica um espaço interior em que Deus põe sua morada, a palavra usada por São João para indicar o recinto sagrado onde habita o Senhor, a tenda do encontro que acompanhou Israel, que agora é o coração do homem. Para ele, o coração é justamente esse centro vital onde Cristo nasce, cresce e é feliz. Ele usa uma série de imagens que explicitam essa presença de Deus quando alguém lhe oferece um espaço no santuário de seu coração: então, Jesus passa pelo meio deles e aí repousa com toda a Trindade.
São esses os caracteres da teologia esponsal de Orígenes, que descrevem um processo, um drama em que a liberdade da pessoa se joga como resposta amorosa a uma proposta de amor: Deus que inicia e conduz uma história nupcial de salvação, que fere aos que ama com um dardo de amor até levá-los à plenitude fecunda dos esponsais místicos. São uma línguagem e uma experiência que reconheceremos na literatura mística posterior e até como elementos descritivos de uma forma de vida contemplativa claustral, como a do projeto evangélico de Clara de Assis.
CONTINUA AMANHÃ |