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Abrace o Cristo Pobre
A Espiritualidade de Santa Clara de Assis (*)
Por Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap
5.2 Gregório de Nissa - A caminhada até a União
Gregório de Nissa continua a perspectiva da mística esponsal. Sua contribuição para a espiritualidade esponsal comporta o conceito de itinerário e o conceito de união. São elementos que encontramos principalmente em suas obras exegéticas, onde ele mais manifesta sua admiração por Orígenes: na De vita Moysis, e nas quinze homilias ln Canticum Canticorum. Cremos que a chave esponsal da doutrina do nisseno gira em torno da idéia de progressão, que permite ao crente ir percorrendo um caminho de conversão, de assimilação divina, até chegar à união (10).
5.2.1. Seu "itinerarium mentis in Deum": a progressão para a semelhança divina
O chamado para uma estreita comunhão com Deus, para a vivência íntima e amorosa com Ele, não é algo natural, ou que se obtém de modo improvisado e impessoal. É preciso fazer um caminho para chegar ao cume da vida espiritual; Gregório de Nissa pensou nisso a partir do tema da imagem como o ponto de partida de toda investigação sobre a mística. De fato, sendo o cristianismo imitação da natureza divina, indagar sobre o momento inicial do homem leva a conhecer o projeto de Deus, que se desenvolve em todo momento de relação do homem com Deus, até o mais pleno, que é o místico.
A questão básica é saber como é a imagem do homem à luz de seu arquétipo primordial, Deus Criador. Esse é o fundamento de sua doutrina, não só sobre a intuição de Deus, mas também sobre a ascensão mística do homem. Coroamento de toda a obra da criação, o homem, um microcosmo, exibe a mesma ordem e harmonia que admiramos no macrocosmo, em toda a criação. Gregório não faz a distinção típica dos alexandrinos entre imagem e semelhança, como quem entende por semelhança o esforço ético do homem sobre a imagem; porque as considera sinônimos, indicando assim a condição de pureza originária do homem. Graças a esta semelhança, o homem se apresenta como superior a todas as criaturas, pois nenhuma delas foi feita à semelhança de seu Criador. Para ele, "imagem" é uma expressão adequada dos dons divinos com que o homem foi dotado, de sua condição original de perfeição.
A condição do homem depois do pecado pode ser aperfeiçoada, pode começar de novo. O simbolismo da água do batismo é simplesmente o início da nova vida em Cristo, que precisa crescer até a união total, com uma decidida morte mística que leve o homem à verdadeira ressurreição. Esse percurso é bem estudado em seu De vita Moysis, um tratado místico em que ele delineia o seu itinerarium mentis in Deum pessoal, baseando-se na apresentação do êxodo existencial de Moisés.
O livro tem duas partes. Na primeira há uma síntese biográfica de Moisés. Na segunda parte, a principal, faz uma interpretação alegórica de Moisés, vendo em seu itinerário um paradigma da subida do homem até Deus.
Essa itinerância purificadora, que o crente percorre em sua ascensão, leva-o à fonte de sua imagem, que é Deus, em colaboração com a graça divina para eliminar paulatinamente toda imperfeição. Nessa abertura amorosa para a beleza infinita de Deus, a mudança e o devir que mostram a finitude de todo espírito criado adquire um significado novo, pois, como diz Gregório, o que pode parecer temível são asas adequadas para o vôo, seria um dano se não pudéssemos transformar-nos em seres melhores, pois a verdadeira perfeição consiste nisto: nosso crescimento nunca acaba sem pode ser circunscrito.
Não se trata de uma luta contra a limitação, mas de colaborar em tudo com a graça divina. Podemos situar aqui a imagem da sarça ardente e da tenda, que passariam mais tarde a significar espaços da vida contemplativa. A sarça ardente é compreendida por Gregório de Nissa como a atitude que o peregrino para Deus deve ter diante da luz de sua presença. Há escuridão na alma, mas também existe a luz que se fez alcançável e visível em um gesto de condescendência divina. O caminho do crente implica uma espécie de estupor diante dessa luz imerecidamente concedida; um estupor que se converterá em adoração de Deus e em purificação de tudo que puder estorvar.
A tenda do encontro é outra imagem importante do itinerarium. São duas tendas, a celeste e a terrena, que simbolizam as duas naturezas de Cristo. É evidente a alusão à tenda encarnada do prólogo do Evangelho de São João: o Cristo eterno e incriado, quando se fez histórico e criado, acampou no meio de nós. Gregório diz: "Entre todos, existe um único ser que existia antes dos tempos e que foi criado nos últimos tempos, mesmo não tendo necessidade de ser criado no tempo. Como teria necessidade de um nascimento temporal quem já existia antes dos tempos e dos séculos? Por nós, que por desconsideração tínhamos sido corrompidos no ser, ele aceitou ser criado como nós, para levar de volta ao ser o que estava fora do ser. Este é o Deus unigênito, que em si abraça o universo, e montou sua tenda entre nós".
A perfeição que se busca através de todo o itinerário coincide com a que Moisés obteve: a amizade de Deus, a contemplação participada de sua beleza: "esses conselhos sobre a perfeição da vida virtuosa te sugerem, ó homem de Deus, este nosso breve discurso, descrevendo-te a vida do grande Moisés como modelo de beleza, pelo que cada um de nós, imitando sua maneira de viver, reproduza em si a marca da beleza que nos foi mostrada [ ... ]. Está na hora de olhares o modelo, meu caro, aplicando em tua vida tudo que consideramos com a interpretação espiritual dos fatos históricos, e te faças conhecer por Deus e chegues a ser seu amigo".
(10) Não podemos deixar de chamar a atenção, neste ponto, para o "Itinerário da mente a Deus", escrito por São Boaventura. Ele traz uma perspectiva "seráfica", na tentativa de entender o misticismo de São Francisco. Mas recordamos que esse livro foi escrito depois da morte de Santa Clara.
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